A força da multidão

  • 07 de agosto, 2014

Que tal ser sócio do próximo Facebook? Tudo bem. Nem é preciso mirar tão alto. Nos últimos anos, surgiram inúmeras outras startups de sucesso, como WhatsApp, Instagram e Spotify. Embora de alto risco, investir em empresas novatas com grande potencial de crescimento tem como maior apelo justamente a possibilidade de fazer parte de um futuro hit dos negócios. Antes restrito a um pequeno número de especialistas, com recursos e conhecimento para bancar aportes que, mesmo para um empreendimento nascente, chegam a ultrapassar cinco ou seis dígitos, o investimento em projetos inovadores vai se tornar mais acessível aos brasileiros a partir de setembro. No mês que vem, os dois serviços de “equity crowdfunding” já lançados no país, plataformas de financiamentos coletivos pela internet, prometem abrir as primeiras captações de startups após mais de um ano de preparação.

A modalidade de investimento coletivo tem como proposta democratizar o acesso de interessados em fazer parte de um empreendimento iniciante. No formato “equity” (de compra de participação), o crowdfunding permite ao apoiador se tornar sócio da empresa. Para a startup, a plataforma se converte em uma nova forma de captação de recursos, mas de modo pulverizado.

No Brasil, a CVM tem editado, desde 2003, resoluções que disciplinam e simplificam captações de micro e pequenas empresas por meio de títulos e emissões de valores mobiliários. Segundo a autarquia, o equity crowdfunding se encaixa nesse arcabouço regulatório, ou seja, tem respaldo legal dentro das regras vigentes.

O projeto pioneiro no país foi o da própria rede de equity crowdfunding Broota. Como um laboratório antes de abrir para outras startups, a plataforma lançou uma captação de R$ 200 mil para viabilizar seu lançamento, entre maio e junho deste ano. Segundo Frederico Rizzo, sócio-fundador do serviço, o processo foi um sucesso e contou com o aporte de 28 investidores.

Após o teste bem-sucedido, os projetos que vão inaugurar a fase operacional do equity crowdfunding no Brasil em setembro vão incluir empresas de serviços logísticos, de assessoria de investimentos e de tecnologia. Com aportes a partir de R$ 1 mil, interessados em “comprar” uma fatia dessas iniciativas poderão fazê-lo a partir de uma das duas plataformas existentes, a Broota e a EuSocio.

Para o fundador da EuSocio, João Falcão, o investimento coletivo deve atrair “dinheiro novo”, que não está disponível aos empreendedores hoje. “Queremos atrair um percentual da poupança que pode ser voltada ao risco. De executivos e profissionais liberais com conhecimento desse universo de startups e inovação, que têm capacidade de investir uma fatia de sua poupança sem que isso comprometa sua carteira e seu patrimônio”, afirma.

Se depender do interesse dos empreendedores, ofertas não vão faltar. “A gente fala com três a quatro empresas interessadas em se lançar na internet por dia. Nossa meta é captar [recursos] para dez projetos no primeiro ano. Só em 2014, espero ter até quatro captações [completadas]”, afirma Rizzo, que estima um mercado de R$ 800 milhões por ano após uma década. Conforme Ricardo Politi, sócio e diretor comercial da Broota, a plataforma também pretende fazer prospecção ativa de projetos. “Nosso trabalho envolve ir a polos de tecnologia, aceleradoras e outros centros de inovação para que a gente possa garimpar projetos com alto potencial de crescimento e impacto e trazê-los aos olhos dos investidores”, diz.

A instrução nº 400 da CVM, de 2003, permite às startups captar um valor máximo de R$ 2,4 milhões a cada 12 meses por meio do equity crowdfunding. A operação dispensa registros de companhia aberta e de oferta pública, segundo a autarquia. Falcão, do EuSocio, considera o teto adequado à fase na qual estariam as empresas potencialmente beneficiadas pelo sistema. “Nós acreditamos que somos um patamar anterior ao do ‘venture capital’ e que a startup que passar pelo crowdfunding vai chegar mais preparada para uma negociação com fundos de investimento”, afirma.

No exterior, esse formato de investimento coletivo já movimenta centenas de milhões de dólares. Apenas a americana EquityNet já levantou U$ 241 milhões em nove anos de existência. Uma pesquisa da Universidade da Califórnia, em Berkeley, estimou uma movimentação entre US$ 184 milhões e US$ 1,6 bilhão anuais pelo mercado global de equity crowdfunding atual.

Um estudo da consultoria InfoDev, patrocinado pelo Banco Mundial, aponta para um futuro no qual o investimento coletivo pode rivalizar com indústria de venture capital tradicional em termos de volume de recursos. Segundo o levantamento, em 2025, o mercado global de equity crowdfunding pode alcançar entre US$ 90 bilhões e US$ 96 bilhões ao ano, ou seja, quase o dobro do montante movimentado atualmente pelos fundos que compram participações em empresas iniciantes.

Nos Estados Unidos, maior mercado do segmento no mundo, os empreendimentos iniciantes chegam a captar até US$ 10 milhões por meio das plataformas. Mas tipicamente os portais do gênero levantam entre US$ 500 mil e US$ 3 milhões.

Embora o apelo desse tipo de investimento possa parecer irresistível, os próprios responsáveis pelos serviços alertam para o alto risco das operações. “No site destacamos que pode-se perder 100% do que foi alocado”, afirma Falcão, do EuSocio. Para Cassio Spina, fundador da rede Anjos do Brasil, voltada ao apoio de empresas nascentes, as chances de qualquer empreendimento iniciante dar errado são grandes. “É preciso ressaltar que, além de não ter liquidez no curto prazo, existe chance de se perder todo o dinheiro caso a startup fracasse.” De acordo com Rizzo, da Broota, “uma saída total do investimento pode levar, pelo menos, dez anos. O investidor tem de estar preparado para esse prazo”.”

Para o especialista em direito societário Pedro Ramos, associado ao escritório Batista Luz, “todo o investimento está baseado no valor da propriedade intelectual, na ideia e na capacidade de realização de alguns poucos sócios”. Essas características desses empreendimentos pode tornar pouco previsível o futuro do negócio, mesmo que o conceito seja promissor.

Calcular corretamente as chances de sucesso de uma empreitada pode ser um processo bem complexo. Segundo Spina, a análise da viabilidade ou do potencial dos projetos demanda conhecimentos sobre negócios, finanças, domínio sobre a área e experiência em empreendedorismo. O processo de avaliação para um investimento anjo, que tem similaridades com o equity crowdfunding, mas difere da plataforma por ser restrito a um grupo fechado de apoiadores, leva, em geral, de 60 a 90 dias. “Uma avaliação benfeita demanda muito trabalho, paciência e dedicação. O anjo por exemplo tem muitas reuniões pessoalmente com o empreendedor”, considera o especialista.

Para diminuir os riscos, as plataformas criaram suas próprias regras para habilitar projetos à captação. A EuSocio, por exemplo, só aceita startups após a checagem de vários itens, como plano de negócios completo e total conformidade com a legislação. “Tem muita empresa que nos procura querendo captar, mas têm vários problemas, de contrato social em que os sócios não constam a funcionários contratados como pessoas jurídicas”, conta. Só depois de saneadas as pendências, o projeto entra na lista.

No caso da Broota, “a gente só permite que a empresa capte por meio da nossa plataforma, se tiver um investidor anjo, que tenha avaliado o negócio e colocado seu próprio dinheiro previamente”, diz Rizzo. Segundo o sócio do serviço, esse investidor, chamado de âncora, também fica responsável por coordenar a oferta.

Fonte: Valor Econômico