A oferta da Endurance Specialty Holdings pela Aspen Insurance Holdings em abril não chamou muita atenção do mundo empresarial. Mas o esforço de compra do controle acionário, agora em seu terceiro mês, sinalizou uma mudança em Wall Street: as atividades de ofertas hostis, que envolvem compra de empresas sem a anuência do conselho de administração, estão de volta.

A Endurance, um grupo de seguros com base nas Bermudas liderado por John R. Charman, tentou negociar um acordo amigável com a Aspen, mas, após meses de abordagens privadas em que a Aspen rejeitou a negociação, a Endurance foi a público em abril com uma oferta não solicitada. “Sentimos que não havia outra escolha”, disse o diretor financeiro da Endurance, Michael J. McGuire. “O tempo todo nós tentamos fazer uma negociação amistosa.
Estávamos muito comprometidos em lhes dar uma oportunidade de entendimento privado. Mas, a cada estágio do jogo, eles rejeitaram o entendimento.”

Agora, a Endurance, que está travando uma guerra de procurações para trocar o conselho de administração da Aspen, entrou na lista de proponentes de peso que estão fazendo ofertas não solicitadas por grandes companhias em vários setores.

Nos últimos meses, várias guerras entre empresas eclodiram por alvos que jamais colocaram um cartaz de “à venda”. A proposta de US$ 119 bilhões da Pfizer para adquirir a AstraZeneca não foi aceita. A Valeant Pharmaceuticals está fazendo uma oferta hostil de US$ 53 bilhões para assumir o controle da Allergan. “As administrações estão muito mais confortáveis na análise das transações unilaterais”, afirmou Jim Head, codiretor de fusões e aquisições para as Américas do Morgan Stanley.

Crescimento. A atividade de negócios hostis aumentou fortemente este ano, segundo a Thomson Reuters. Mesmo excluindo a retirada da proposta da Pfizer pela AstraZeneca, quase US$ 100 bilhões de ofertas hostis foram feitas, o correspondente a 7% do volume global de ofertas. É a proporção mais alta desde o boom desse tipo de operação em 2007, e está ocorrendo num momento em que volumes de negócios mais amplos estão crescendo.

Um fator que está impulsionando o crescimento da atividade hostil é o aumento da confiança nas salas de administração. Com o panorama econômico geral relativamente estável, executivos estão mais dispostos a perseguirem aquisições que já estudavam há tempo.

Os alvos, as companhias, porém, estão igualmente com tendência à alta, o que facilita recusar interessados.

Há duas semanas, a Allergan rejeitou formalmente uma oferta de US$ 53 bilhões da Valeant Pharmaceuticals. Como justificativa, ela disse que a oferta da Valeant “desvaloriza substancialmente” a companhia, usando uma expressão comum. Em janeiro, a Time Warner Cables disse que uma proposta de aquisição da Charter Communications “desvaloriza substancialmente” a companhia. E, em dezembro, quando a Jos. A. Bank Clothiers rejeitou uma oferta da Men’s Wearhouse, a empresa usou a mesma expressão. “Continuamos a acreditar que sua oferta para adquirir a Jos A. Bank desvaloriza substancialmente nossa companhia e que sua proposta não é do melhor interesse de nossos acionistas”, escreveu o conselho da Jos. A. Bank numa carta à Men’s Wearhouse.

Essa postura nem sempre resulta numa defesa bem-sucedida, embora possa elevar o preço.

No caso do Jos. A. Bank, a companhia foi finalmente vendida à Men’s Wearhouse. A Charter Communications perdeu para a Comcast, que aceitou finalmente adquirir a Time Warner Cable.

Limitações. Persistem as limitações para a realização de negócios hostis. Tais esforços requerem um comprometimento de recursos e a vontade de se engajar numa guerra de palavras com um alvo relutante, tudo sem nenhuma garantia de sucesso. “Isso nunca foi algo que alguém fizesse levianamente”, disse Antonio Weiss, diretor global do banco de investimentos Lazard.

O duro ambiente regulatório também pode jogar um papel na limitação do número de negócios hostis. Muitos desses negócios são fusões horizontais, em que competidores assumem o controle uns dos outros. Esses negócios com frequência são analisados pelas autoridades antitruste, o que tona a abordagem hostil muito mais arriscada. “Você está expondo sua estratégia ao público sem saber se poderá levá-la em frente”, disse Weiss.

No entanto, os banqueiros de investimento preveem um aumento da atividade hostil. No caso da Endurance, a empresa disse que está disposta a prosseguir seus esforços para trocar a administração da Aspen se for necessário. “Não nos importamos em jogar duro para entregar valor ao acionista”, disse McGuire.

Fonte: O Estado de São Paulo