A supremacia do alemão Sebastian Vettel pode estar com os dias contados. Ao lado dos seus tradicionais adversários e das equipes rivais da Red Bull, o retrovisor do tetracampeão mundial de Fórmula 1 mostra um novo time que promete acirrar a competição na categoria nos próximos anos: as empresas de tecnologia da informação. Grandes companhias como SAP, EMC e Microsoft enxergam nos circuitos ao redor do mundo uma nova frente para acelerarem suas curvas de crescimento. Os principais motores para alcançar esse objetivo são a oferta de sistemas de análise de grandes volumes de dados – o big data – e a computação em nuvem. As britânicas McLaren e Lotus são alguns dos exemplos de escuderias que já adotam esses conceitos para aprimorar o design e a performance de seus carros e pilotos.

Entre os fatores que impulsionam essa corrida dos fornecedores e das equipes estão as mudanças previstas nas regras da Fórmula 1 para a próxima temporada. O regulamento prevê – entre outras questões – a volta dos motores turbo, o consumo menor de combustível e a redução do número de motores que poderão ser usados ao longo do ano. Essas alterações vão trazer grandes impactos tanto na preparação dos carros como no desempenho na pista. “O próximo ano será muito mais complicado em termos de sistemas de recuperação de energia, desempenho dos pneus e uso do combustível, entre outros fatores”, diz Jenson Button, piloto da McLaren. “A tecnologia e a análise de dados serão realmente peças-chave para nós no futuro”, observa.

Com um histórico de desenvolvimento tecnológico interno, a McLaren fechou em 2012 uma parceria com a SAP para adotar a tecnologia Hana, plataforma de análise de dados em tempo real. De olho na construção do carro para 2014, a McLaren já testa essas aplicações. A ideia é aprimorar o processamento e a análise dos dados coletados por meio de centenas de sensores instalados em suas máquinas. “Hoje, durante uma corrida, um carro gera um volume de 6,5 bilhões de dados”, diz Crispin Bolt, gerente de parceiro SAP na McLaren.

Bolt explica que a tecnologia permite rodar cerca de seis mil cenários diferentes de corridas por minuto. “A plataforma vai permitir que nós façamos não só análises em tempo real, mas nos dará também a capacidade de fazer correlações dessas informações com dados históricos”. Uma possível aplicação seria a busca pela estratégia vencedora adotada em um mesmo circuito, anos antes, em condições meteorológicas semelhantes às que o piloto está enfrentando naquela mesma pista, naquele momento. “Hoje, levaríamos 48 horas para extrair esse dado. Com a nova tecnologia, é possível ter a informação em mãos em questão de segundos.”

A maior rapidez nas análises e na tomada de decisões também são prioridades da Lotus. “O carro de 2014 será tão diferente do de 2013 e de outros anos que muitas das formas como analisamos hoje os dados – especialmente no que diz respeito à formulação da estratégia – não serão relevantes a partir da próxima temporada”, diz Graeme Hackland, diretor de TI da Lotus. Nesse cenário, um dos investimentos da Lotus é um projeto com a EMC, que está construindo uma nuvem dedicada à equipe para armazenar, garantir a disponibilidade e permitir o rápido acesso a grandes volumes de dados para a análise em tempo real, a partir de qualquer local. Essa aplicação faz todo o sentido para uma operação que exige viagens a diversos países, 20 vezes ao ano. “A criação de um centro móvel de dados que tem de operar com 100% de disponibilidade e alta performance por 5 dias e depois ser desligado e transportado para um próximo destino é extremamente desafiadora”, aponta.

A Lotus também está adotando sistemas de gestão da Microsoft e atualizando sua infraestrutura de rede com a Juniper Networks. Em outra ponta, a equipe está tocando um projeto com a Avanade – joint venture da Microsoft com a Accenture – para a integração de todas as suas aplicações numa única base de dados. “Em um ano, a Lotus obteve uma redução de 75% no tempo de processamento de dados”, diz Hamilton Berteli, líder de Vendas, Marketing e Inovação da Avanade no Brasil.

“Nossa expectativa é que esse ecossistema de parceiros permita que uma equipe de médio porte assuma um lugar entre as quatro principais, competindo com times que têm muitos mais recursos do que nós”, diz Hackland.

Aplicação das tecnologias usadas na categoria ultrapassa os limites dos circuitos

Antes mais restrita ao campo dos patrocínios e das ações de marca, a relação das companhias de tecnologia com a Fórmula 1 está se tornando cada vez mais estratégica e próxima dos negócios propriamente ditos. No caso da alemã SAP, o projeto com a McLaren integra um plano muito mais amplo, que já ultrapassa os limites dos circuitos da categoria. A própria parceria com a escuderia foi ampliada e hoje compreende todas as operações do McLaren Group.

“Temos o objetivo de atingir 1 bilhão de usuários até 2015. Precisamos ampliar o nosso alcance”, explica Tara Mulcahy, diretora de grupo de patrocínios globais da SAP. “Não somos mais uma companhia inflexível. Queremos ser conhecidos como uma empresa moderna e somos capazes de fazer isso muito bem por meio dos esportes e do entretenimento”.

Nessa direção, a SAP já desenvolve projetos de aplicação de suas tecnologias com a National Football League (NFL) e a National Basketball Association (NBA). Há duas semanas, a companhia anunciou uma nova parceria com o TSG Hoffenheim, time da Bundesliga – liga de futebol alemã- que passará a adotar a tecnologia Hana para analisar e aprimorar a performance de seus jogadores.
Companhia de softwares de gestão empresarial, a americana Infor também vai além das pistas. Patrocinadora da Ferrari na Fórmula 1, a empresa fornece sistemas de negócios para outras operações da marca italiana.

Uma das aplicações dessa parceria foi destacada no início do ano. A montadora italiana adotou parte do portfólio da Infor para aprimorar e ampliar a produção de carros personalizados, sem comprometer a qualidade desses veículos. Segundo o anúncio realizado na época, a Ferrari atingiu uma capacidade anual de fabricação de 7 mil carros customizados com a utilização desses sistemas.

A busca por novas fronteiras não está restrita às empresas de tecnologia. Esse é o caso da McLaren. Além de fornecer tecnologias para outras equipes da Fórmula 1 e para os times de categorias como Nascar e Fórmula Indy, hoje, os sistemas eletrônicos da escuderia já são adotados para melhorar o fluxo de tráfego no Reino Unido.

Resumo da história

Uma série de dados e estatísticas ajuda a entender o grau de importância dos investimentos em tecnologia realizados hoje na Fórmula 1

Lotus

Com o auxílio de cerca de 320 sensores instalados em seus carros, a equipe testa mais de 30 mil componentes individuais da máquina durante uma corrida. Em um ano de integração de sua base de aplicações, a Lotus obteve uma redução de 75% no tempo de processamento de dados usados em análises de desempenho.

McLaren

A equipe britânica consegue simular cerca de seis mil cenários e estratégias diferentes de corridas por minuto.

Fonte: Brasil Econômico