A parceria compensa?

  • 30 de setembro, 2013

Abrir capital com lançamento de ações na BM&FBovespa não é tarefa simples. E quanto menor a empresa, e menos organizada, maiores parecem ser as chances de os novos papéis sofrerem. Estudo do Insper obtido com exclusividade pelo Valor mostra que a assessoria de fundos de capital privado, conhecidos como “private equity”, garante desempenho melhor no pregão ao longo dos anos.

No trabalho, intitulado “Importância de Private Equity no processo de IPO”, a professora Andrea Minardi pesquisou todas as ofertas públicas iniciais (IPOs, na sigla em inglês) realizadas de 2004 a 2012. O estudo mostra que o retorno médio do grupo das ações de novatas fica sempre abaixo do Ibovespa. Mas quem recebe ajuda se sai melhor. De um total de 137 lançamentos de ações, 59 tiveram auxílio de private equity.

O levantamento mostra o retorno simples na comparação com o Ibovespa com uma referência de data zero, ou seja, desde o dia de cada IPO. Em 252 dias úteis, a média mostra retorno negativo de 16,9% na comparação com o Ibovespa. Com ajuda dos fundos, a diferença em relação ao índice principal cai para -0,5%. Sem private equity, a diferença fica bem maior: -30,5%. O estudo tem coautoria de Guilherme Lopes Ferrari e Pedro Carvalho Araújo Tavares.

A professora lembra que fundos de capital privado são investidores ativos. Selecionam empresas com potencial de criação de valor para investir, participam do conselho de administração e indicam bons conselheiros. Com isso, fazem um trabalho de aconselhamento e monitoramento.

Os private equity também melhoram as práticas de governança corporativa das empresas e indicam executivos, profissionalizando as empresas. “Geram benefícios extras, ao atrair bons executivos, melhorar taxas de acesso a financiamentos e oferecer parcerias com fornecedores”, diz. Segundo Andrea, estudos no exterior mostram que empresas com assessoria de fundos de capital privado também têm performance melhor que as demais.

A melhoria de uma novata por meio de private equity também é apontada por Rodolfo Zabisky, presidente do grupo Attitude, provedora de serviços integrados de relações com investidores. “Quando o fundo entra na empresa, ele faz ajustes. Formaliza os procedimentos, melhora a governança e arruma a contabilidade”, diz.

Bernardo Rothe, gerente executivo da diretoria de Mercado de Capitais e Investimentos do Banco do Brasil, diz que qualquer fundo de capital privado enxerga empresas com potencial de crescimento e melhora os processos internos. “Tem empreendedor que é muito bom no que faz, mas o negócio cresce a ponto de chegar a um gargalo e precisar de aportes novos. O private equity chega para preencher essa necessidade”, afirma.

Essa situação, diz, acaba se refletindo no comportamento das ações, porque as empresas que chegam com private equity estão mais preparadas. Ele lembra que a diferença de desempenhos na pesquisa do Insper também pode embutir um fator específico de 2006 e 2007, sobretudo, quando os lançamentos de ações explodiram na Bovespa. Em 2006, estrearam em bolsa 26 empresas. No ano seguinte, o recorde: 64 companhias. Em 2008, quando o mercado começou a sentir os efeitos da crise financeira global, apenas quatro companhias se arriscaram a lançar ações. Depois disso, o melhor ano em termos de número de lançamentos foi 2010, com 11 estreias.

“Foram muitas estreias e várias empresas que não estavam preparadas entraram no mercado e contaminaram o resultado”, diz. Há também casos de empresas cujos setores tinham boas perspectivas, mas que acabaram se frustrando.

Além da melhor performance das ações de empresas que contam com ajuda, o levantamento da professora do Insper mostra que tamanho é documento. “O tamanho da empresa influencia o desempenho após a estreia em bolsa”, afirma Andrea. “Na época da crise, por exemplo, os lançamentos de pequenas empresas tiveram desempenho bem pior que o das grandes”, afirma.

Zabisky, da Attitude, afirma que empresas menores têm potencial maior de crescimento, mas oferecem mais risco e têm liquidez menor. “Em momentos de turbulência, esses papéis sofrem ainda mais porque o investidor acaba buscando proteção em companhias consolidadas.” São, portanto, papéis para serem mantidos no longo prazo, para que a empresa tenha tempo de maturar seu desenvolvimento. “Se você é um investidor de longo prazo e pega uma empresa pequena, pode dobrar seu capital em alguns anos apenas por seu crescimento”, diz.

Mesma visão tem Rothe, do Banco do Brasil. “Por terem beta [medida de risco] mais alto, ações de empresas pequenas tendem a ter performance melhor que a média num mercado positivo, mas também a cair mais num mercado negativo. São mais voláteis”, diz. No longo prazo, no entanto, a tendência é de desempenho melhor. Quando oferecem liquidez menor, também estão mais sujeitas a especulações.

O tamanho da própria Bovespa também afeta o desempenho das novatas. Mesmo no levantamento geral, que inclui empresas com participação de fundos e sem, o desempenho desse grupo não supera o do Ibovespa. Segundo Zabisky, o Brasil é a sétima maior economia do mundo, mas a 23ª quando o assunto é número de empresas em bolsa, numa lista que inclui os 27 países com mais de 300 empresas listadas. “Enquanto o mundo cresceu 26% de 2008 a 2012, o Brasil encolheu 18% [em número de empresas na bolsa]”, afirma, citando dados do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional.

“A falta de opções de empresas em bolsa também pode deturpar a análise”, comenta Zabisky. O Brasil, diz, tem 353 empresas, o que o coloca no nível de nações como África do Sul (348) e Suécia (332). No topo da lista está a Índia, com 6.838 empresas.

Fonte: Valor Econômico