Os investidores estão se preparando para dar um novo passeio pelos mercados emergentes.

Bolsas instáveis e o baixo rendimento dos títulos de dívida nos Estados Unidos, Europa e Japão estão gerando novos fluxos de dinheiro dos investidores para países em desenvolvimento, do Brasil à África do Sul, que tiveram grandes perdas no fim de 2013. O rendimento de títulos soberanos dos EUA e da Alemanha atingiram ontem novos mínimos no ano, refletindo os sinais mais recentes de desaceleração nas principais economias do Ocidente.

Muitos investidores estão se concentrando em países como Índia e Indonésia, onde o crescimento está saudável, reformas econômicas estão começando e líderes pró-mercado estão assumindo o poder. Na Tailândia, um dos países com melhor desempenho na Ásia este ano, um golpe militar na semana passada quase não abalou os investidores.

A velocidade com que os investidores parecem ter esquecido as perdas de até 30% que amargaram em alguns mercados tem sido surpreendente. O dinheiro está voltando a fluir nos mercados emergentes ao ritmo mais rápido em mais de um ano.

Os fundos de investimento e os negociados em bolsa que são focados nos mercados emergentes agregaram um total líquido de US$ 13,2 bilhões em abril e maio, segundo dados da EPFR Global compilados até segunda-feira. Essa é a maior alta bimestral desde fevereiro e março de 2013 e ocorre após dez meses seguidos de saída líquida de recursos.

“Todos que foram golpeados no ano passado e em janeiro deste ano estão dando a volta por cima”, diz Angus Halkett, gestor de portfólio de dívida de mercados emergentes da Stone Harbor Investment Partners, que administra US$ 62,5 bilhões em ativos. “É como o início de 2013, quando estava tudo bem. E nós vimos a rapidez com que a confiança pode evaporar.”

Alguns dos mercados com melhor desempenho este ano pertencem ao grupo chamado de os “cinco frágeis”, que ao longo de 2013 foram considerados especialmente vulneráveis ao fim dos programas de estímulo de bancos centrais. As bolsas da Índia já registram alta de 16% este ano, resultado, em grande parte, da esperança de que a eleição do primeiro-ministro reformista Narendra Modi traga mudanças. Na Indonésia, a alta chega a 17% e, no Brasil, o Ibovespa subiu mais de 16% em pouco mais de dois meses. As bolsas da Rússia recuperaram 14% nos últimos 30 dias e recuaram apenas 3,2% desde o agravamento das tensões na Ucrânia, em fevereiro.

Na sexta-feira, o índice de ações de mercados emergentes MSCI atingiu seu nível mais alto desde outubro. Ele já subiu 3% este ano, comparado com um ganho de 2,8% do índice global da MSCI.

Os investidores também abocanharam títulos de dívida de alto risco depois que as taxas de juros nos mercados desenvolvidos caíram inesperadamente este ano devido à estagnação econômica. O índice do banco Barclays de títulos de dívida em dólar de países emergentes já teve retorno de 6% este ano, contra 2,6% das notas do Tesouro americano.

“Há uma caçada global por rendimento”, diz Suvir Mukhi, gestor de portfólio da Income Partners Asset Management em Hong Kong. Mukhi, cuja firma administra US$ 1,4 bilhão, está comprando títulos em moeda local da China e Índia.

A busca por lucro elevou os preços dos títulos americanos de alto risco e derrubou o rendimento deles para 5,03% ao ano (o rendimento cai quando o preço sobe e vice-versa), próximo do menor nível já registrado. O título de dez anos do Brasil, por exemplo, rende atualmente 12,4% ao ano. O da África do Sul, 8,1%.

“Quando você analisa essas rentabilidades, elas estão completamente distorcidas”, diz Gary Herbert, gestor de portfólio e diretor global de crédito da Brandywine Global Investment Management, que administra US$ 46 bilhões. “A oportunidade é realmente atraente.”

Os países emergentes têm sido eficientes em satisfazer a demanda do investidor ao continuar colocando títulos no mercado. Seus governos já emitiram US$ 63 bilhões em dívida, se aproximando do recorde anterior, de 2012, segundo a Dealogic.

Herbert diz que a Brandywine reduziu sua carteira de dívida americana de alto risco e comprou títulos de empresas de países emergentes como Brasil, África do Sul e México.

A migração para moedas, ações e títulos de países emergentes marca uma reversão do fluxo de saída de US$ 60 bilhões registrado no início de 2014, consequência do aumento da tensão política na Turquia e o receio de que alguns países se tornassem dependentes do rio de dinheiro gerado pelos estímulos de bancos centrais.

O fraco crescimento nos EUA e Europa tornou claro que o estímulo — que impulsionou o preço de ativos ao redor do mundo — não será reduzido rapidamente. E o crescimento está estagnado na maioria dos emergentes. O Fundo Monetário Internacional estima que as economias em desenvolvimento cresçam, em grupo, 4,9% em 2014, ante um avanço de 2,2% das economias avançadas.

O fato de os países emergentes não terem liquidez e serem vulneráveis a rápidas mudanças de humor dos investidores os tornam ainda mais arriscados.

Bryan Carter, gestor de portfólio da Acadian Asset Management LLC, que administra US$ $65 bilhões, está comprando papéis do Chile, Rússia e Brasil em moedas locais, numa aposta que as quedas do ano passado deixaram menos espaço para novos recuos este ano.

Outro risco é o aprofundamento da desaceleração da China, grande compradora de commodities vendidas por países como Indonésia, Brasil e Chile. O crescimento chinês está no seu ritmo mais lento em 20 anos e os mercados estão em queda porque os investidores receiam uma bolha imobiliária, a lentidão das reformas econômicas e um sistema financeiro enferrujado.

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Os investidores estão buscando incessantemente pelo próximo investimento forte. “O nome que surge imediatamente é a Índia”, diz Binay Chandgothia, gestor de portfólio do Principal Global Investors, que administra US$ 318 bilhões. Ele diz que, enquanto a rúpia e as ações subiram, os títulos indianos ficaram para trás e ainda podem subir.

As preocupações econômicas continuam tanto na Índia como na Indonésia. A economia da Indonésia cresceu 5,2% no primeiro trimestre, o resultado mais lento em quatro anos.

O crescimento indiano foi ainda menor e a inflação está em torno de 8% ao ano.

“Não há relação com os fundamentos” [econômicos], diz James Barrineau, gestor de portfólio de países emergentes da Schroders, sobre o movimento dos investidores. “Tudo é busca por rentabilidade.”

Fonte: The Wall Street Journal