A Apple chegou a acordo para comprar por US$ 3 bilhões a Beats Electronics, empresa de fones de ouvidos e de transmissão de músicas on-line, negócio que associa marca americana ao rapper Dr. Dre e ao empresário de música Jimmy Iovine.

O valor será pago em US$ 2,6 bilhões em dinheiro e US$ 400 milhões em ações da Apple. O acordo deverá ser concluído antes do fim de setembro.

Com receita de US$ 1,1 bilhão em 2013, a Beats gera lucro e vai incrementar os ganhos da Apple quando seu novo ano fiscal se iniciar, em outubro, segundo o executivo-chefe da Apple, Tim Cook, afirmou em entrevista.

O anúncio confirma a aquisição mais cara nos 38 anos de história da Apple, um preço que a empresa vai pagar para conter as ameaças enfrentadas por sua loja virtual iTunes. “Nós os conhecemos desde sempre”, disse o presidente da Apple, Tim Cook, sobre Iovine e Dre.

Iovine, de 61 anos, e Dre, 49, se tornarão altos executivos nas divisões de música da Apple, embora Cook tenha dito que os cargos ainda não foram determinados. O presidente da Apple apontou que o serviço de transmissão on-line de música da Beats foi o principal argumento de vendas na transação.

A popularidade cada vez maior desses serviços de “streaming” de música, entre os quais também estão Pandora e Spotify, vem reduzindo as vendas de músicas e álbuns, área que o iTunes dominou nos últimos dez anos.

As vendas nos Estados Unidos de músicas baixadas pela internet caiu 1% em 2013, para US$ 2,8 bilhões, enquanto a receita dos serviços de transmissão on-line de música aumentou 39%, para US$ 1,4 bilhão, segundo a Associação das Gravadoras dos EUA (RIAA, na sigla em inglês).

Embora a Apple também tenha entrado no segmento de “streaming”, com o lançamento do iTunes Radio, em setembro, o serviço não vem sendo tão popular ou lucrativo quanto a empresa esperava, segundo duas fontes a par da situação, que não estavam autorizadas a comentar o assunto e falaram sob condição de não serem identificadas.

A Apple conta com a compra da Beats para ampliar seu prestígio com adolescentes e adultos jovens, enquanto tenta continuar líder na área de música digital – um setor que hoje é bem diferente de quando a Apple remodelou a cena com o lançamento do iPod, em 2001. “A Apple volta a ser ‘cool’ repentinamente”, disse o executivo-chefe da Sony Music, Doug Morris, que foi um dos primeiros executivos de gravadora a apoiar o iTunes, por conselho de Iovine, há dez anos.

A Beats foi fundada em 2008 por Dr. Dre, hoje produtor de hip-hop, e Iovine, executivo veterano da indústria de gravação que atualmente é presidente da Interscope Geffen A&M Records, do Universal Music Group. Atualmente, a empresa domina o mercado de fones de ouvido de luxo. Seu equipamento é um dos mais vendidos nas lojas da Apple.

Operando baseada em sua sede em Culver City, Califórnia, a Beats detém uma fatia de 62% do mercado americano de fones de ouvido de mais de US$ 100, que movimenta US$ 1 bilhão por ano, segundo o NPD Group. O acessório, que ressalta os tons graves, também foi endossado por vários atletas famosos.

A Beats Music, subsidiária no setor de “streaming” da fabricante de artigos eletrônicos, tem mais de 250 mil assinantes, segundo Cook.

A compra assinala a maior ruptura estratégica promovida pelo executivo-chefe da Apple, Tim Cook, em relação à maneira como a empresa foi conduzida sob o comando de seu cofundador Steve Jobs, que morreu em outubro de 2011.

Jobs preferia aquisições menores e não acreditava que planos de assinatura de serviços de “streaming” de música seriam populares. Antes da compra da Beats, a maior negociação da Apple tinha sido a da NeXT Computer, por US$ 400 milhões.

Cook disse nunca ter considerado o que Jobs teria pensado sobre a aquisição da Beats. Jobs “me disse para fazer o que fosse certo”, disse Cook. “E eu tenho 100% de certeza de que isso está certo. Essa é uma daquelas coisas que vamos olhar para trás e dizer que era um imperativo”.

Mas alguns analistas questionam se a Beats será um bom negócio para a Apple, que obtém a maior parte de sua receita vendendo hardware, como iPhones e iPads. Frank Gillett, analista da Forrester Research, afirma que a Apple teria feito melhor se tivesse partido para o desenvolvimento de seus próprios fones de ouvido e entrado no setor de música por assinatura através do iTunes. “É difícil entender por que a Apple teria que gastar US$ 3 bilhões em um serviço de ‘streaming’ apenas nascente e em uma linha de fones de ouvido que ressalta os graves”, observa Gillett.

Já Yukari Iwatani Kane, autor de “Haunted Empire” (Império Assombrado, em inglês), um olhar por dentro da Apple após a morte de Jobs, também vê uma incoerência. “Culturalmente, a Beats é absolutamente o oposto da Apple”, diz Kane. “Ruidosa e explícita, não se harmoniza com a marca de discrição e distinção da Apple”. Mas com US$ 150 bilhões em caixa, a Apple pode assumir riscos com essa aquisição.

Fonte: Valor Econômico