Quatro anos após a lei financeira Dodd-Frank ter se tornado realidade nos Estados Unidos, a máquina reguladora do governo está transformando Wall Street de um modo fundamental.

Os bancos dos EUA estão vendendo divisões lucrativas, saindo do mercado de financiamentos de curto prazo, cortando vínculos com empresas que poderiam atrair a vigilância dos reguladores e reforçando suas defesas contra crises futuras. Embora os lucros estejam subindo, graças a cortes de custos e reduções das reservas para cobrir potenciais prejuízos, o motor tradicional dos lucros dos bancos — operações de mercado com capital próprio — está dando sinais de enfraquecimento, já que os bancos estão abandonando algumas atividades devido à pressão regulatória.

Na semana passada, o Goldman Sachs anunciou que cortou do seu balanço ativos no valor de US$ 56 bilhões, ou cerca de 6%, durante o segundo trimestre, a maior redução trimestral desde o auge da crise financeira. O diretor financeiro, Harvey Schwartz, descreveu a iniciativa como uma mudança “proativa para se adequar à evolução da regulação”, incluindo o teste de estresse anual do Federal Reserve, o banco central americano, no qual os bancos precisam provar que conseguiriam sobreviver a outra eventual crise.

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O Morgan Stanley também encolheu sua carteira de ativos em quase 33% desde a crise de 2008, enxugou suas operações de renda fixa e passou a se concentrar mais na gestão de fortunas, onde os bancos conseguem cobrar comissões de investidores no varejo, em vez de colocar seu caixa em risco investindo, emprestando e operando no mercado. O Citigroup eliminou perto de US$ 700 milhões em ativos secundários, o que incluiu a venda de mais de 60 divisões. Recentemente, o banco afirmou que ia vender sua divisão de banco de varejo na Espanha e na Grécia.

O Bank of America, por sua vez, vendeu mais de US$ 70 bilhões em divisões e outros ativos desde 2010, inclusive alguns que exigiam vultosas reservas de capital. O banco também eliminou 746 entidades legais, uma redução de 36%, desde o fim de 2009. Entre os ativos vendidos estão investimentos de private equity, alguns negócios de cartão de crédito e fatias consideráveis das unidades de hipotecas.

“A Dodd-Frank certamente foi um catalizador de uma quantidade substancial de simplificações”, diz James Mahoney, porta-voz do Bank of America.

Os reguladores apontam as mudanças em Wall Street como uma prova de que seu esforço para conter os riscos no sistema financeiro está dando resultado. “Realmente, estamos num ambiente completamente diferente e muito melhor”, diz Thomas Curry, chefe da controladoria da moeda dos EUA.

Mas as iniciativas dos bancos não são suficientes para extinguir os receios de alguns formuladores de políticas e parlamentares americanos de que a economia, em geral, continua vulnerável a potenciais colapsos de uma instituição financeira de grande porte. Os bancos estão ficando mais dispostos a correr riscos à medida que tentam compensar a lentidão do crescimento econômico, juros baixíssimos e os custos mais altos com a regulação.

O total de empréstimos sindicalizados envolvendo alavancagem nos EUA atingiu US$ 1,24 trilhão em 2013, comparado com US$ 893 milhões em 2012 e com um pico anterior de US$ 1,19 trilhão em 2007, segundo dados da Dealogic. Os bancos fornecem a vasta maioria dos empréstimos para financiar aquisições alavancadas de private equity.

Parlamentares governistas e de oposição continuam convencidos de que medidas mais drásticas são necessárias para acabar com o problema do “grande demais para quebrar” — o princípio de que os bancos são tão grandes e interconectados que, no caso de um deles falir, o governo teria que resgatá-lo para evitar o risco de um colapso de todo o sistema. As propostas apoiadas pelos parlamentares incluem desmembrar os megabancos, elevar ainda mais as exigências de capital e impor um imposto às maiores firmas financeiras.

“Definitivamente mudou, mas não o suficiente”, diz a senadora Elizabeth Warren, do Partido Democrata (governista), autora de um projeto de lei para reeditar leis que separam as atividades de banco comercial e de investimento, como durante a Depressão americana, nos anos 30.

Banqueiros e analistas de Wall Street dizem que os reguladores podem acabar sobrecarregando os bancos com regras demais, o que poderia forçá-los a recuar em atividades importantes para a economia, como o crédito.

“É quase uma hipocrisia reclamar que os bancos não facilitam um crescimento maior e, ao mesmo tempo, dizer que eles têm que reduzir mais a exposição aos riscos”, diz Mike Mayo, analista do banco CLSA.

Os empréstimos dos 25 maiores bancos comerciais dos EUA subiram quase 2% em junho ante o mesmo mês de 2013, segundo uma análise dos dados do Fed feita pela SNL Financial.

De fato, os grandes bancos já estão diminuindo sua participação numa das principais fontes de financiamentos de Wall Street: o mercado de recompra, ou “repo”, onde bancos e investidores trocam papéis por trilhões de dólares em empréstimos de curto prazo. Uma das razões é um novo grau de alavancagem que requer que os grandes bancos reservem mais capital para garantir todos os ativos em suas carteiras — não apenas aqueles considerados arriscados —, o que torna mais difícil obter lucros num mercado que, antes da crise, tinha margens baixas e grandes volumes, dizem analistas e banqueiros. Analistas do Goldman estimam que o mercado de recompra encolheu em US$ 350 bilhões, ou 7%, logo após os reguladores imporem as novas regras de alavancagem, em julho de 2013, e continuou declinando desde então.

Fonte: The Wall Street Journal