O diretor-presidente do BNP Paribas, Jean-Laurent Bonnafé, pode estar diante do momento mais vertiginoso de sua carreira: prestes a assinar um cheque de US$ 8,97 bilhões para encerrar uma investigação criminal nos Estados Unidos e tentando mostrar aos acionistas, funcionários e clientes que pode reconstruir a reputação do banco depois de uma punição sem precedentes.

O acordo anunciado ontem entre o banco francês e as autoridades americanas vai permitir a Bonnafé colocar um ponto final numa longa investigação sobre supostas violações a sanções dos EUA a países como Sudão e Irã, entre outros. Mas poderá também dar início a um período agitado para o executivo de 52 anos, que vai ser questionado por investidores sobre como um banco há muito conhecido por sua cautela na gestão de risco pôde acabar nesta situação.

A penalidade histórica é um forte golpe para a principal instituição bancária da França, cujas origens remontam a meados do século XIX, e é o capítulo final de uma história surpreendente de falha de gestão.

Dirigido por algumas das mentes mais brilhantes da França, o BNP Paribas atravessou habilmente a crise financeira iniciada em 2008 e a posterior crise de dívida da zona do euro.

O banco não sofreu nenhum grande prejuízo causado por operadores imprudentes, como ocorreu com o também francês Société Générale, e escapou praticamente incólume de outros escândalos que golpearam seus concorrentes.

Agora, além da multa recorde no caso das sanções, o BNP Paribas se declarou culpado de tentar ocultar cerca de US$ 30 bilhões em transações com países sujeitos a sanções. A instituição também perdeu temporariamente o direito de realizar algumas transações de compensação em dólar.

Bonaffé conta com forte apoio dos membros do conselho, de acordo com pessoas próximas ao banco. Elas ressaltaram que as supostas irregularidades aconteceram antes de dezembro de 2011, quando ele assumiu o cargo de diretor-presidente. Mas os investidores vão provavelmente querer saber do executivo porque as multas acabaram sendo muito mais altas do que o US$ 1,1 bilhão que o banco havia provisionado.

A questão é se a direção e o conselho do banco mantiveram os acionistas informados adequadamente sobre os riscos associados à investigação nos EUA, diz Colette Neuville, líder do Adam, um grupo francês de defesa dos direitos dos acionistas.

“Eu gostaria de saber quando e como o conselho de administração foi informado, como os controles internos funcionavam, como o comitê de risco foi informado”, diz Neuville. “Isso tem um impacto em termos da confiança do acionista.”

No mês de fevereiro, o banco alertou que qualquer multa poderia ser “diferente, possivelmente muito diferente, da quantia provisionada”.

Analistas dizem que também pediriam detalhes de como o banco vai resistir a tamanha penalidade.

“Os investidores vão querer entender como o banco pretende financiar essa multa imensa e como vai limitar o impacto das restrições às suas atividades de compensação em dólar — e reter os clientes”, diz Jon Peace, analista do banco Nomura em Londres.

Essas perguntas vão colocar Bonnafé sob os holofotes do público, uma posição que o executivo, de caráter prático e centrado, sempre procurou evitar.

Dois anos e meio atrás, quando ele ascendeu ao comando do maior banco da França, um consultor tentou convencer Bonnafé de que ele precisava melhorar a sua imagem. O executivo tinha que mudar seus ternos pouco justos, seu penteado repartido de lado e abrir mão de seus óculos antiquados.

“Você provavelmente está certo”, disse Bonnafé, segundo uma pessoa a par da conversa. “Mas não vou fazer nada disso.”

Como muitos outros executivos da cúpula do banco, Bonnafé começou sua carreira como consultor do governo francês depois de ter estudado numa das escolas de elite da França.

Filho de um engenheiro elétrico, ele se formou na École Nationale Supérieure des Mines, de Paris, que tem ex-alunos que hoje ocupam cargos de comando na indústria francesa, incluindo o brasileiro Carlos Ghosn, diretor-presidente da montadora Renault, e Fabrice Brégier, da fabricante de aviões Airbus.

Em 1993, depois de ter trabalhado como consultor do governo na área de comércio exterior, Bonnafé entrou na divisão do banco de grandes corporações , então chamado Banque Nationale de Paris. Em 1997, ele foi nomeado diretor de estratégia e desenvolvimento e liderou a reorganização do grupo depois da fusão do BNP com o rival Paribas, em 2000.

Apenas alguns meses depois de ter assumido o posto de diretor-presidente, Bonnafé se viu diante de uma mudança no tom em relação ao segmento bancário. François Hollande, o socialista que havia declarado o setor financeiro seu principal inimigo, venceu as eleições presidenciais.

Em janeiro do ano passado, durante uma audiência no Parlamento para discutir uma nova lei que propunha desmembrar as atividades supostamente especulativas do banco numa entidade separada, Bonnafé perdeu as estribeiras.

“Estamos administrando um negócio complexo. Isso exige o conhecimento do que é um motor e como desmontá-lo nós mesmos, se necessário. Para isso, você precisa de um banqueiro, não de um encanador, não de um engenheiro, não de um advogado”, disse ele.

Com seu estilo de gestão, Bonnafé conquistou um respeito considerável dentro do banco, dizem funcionários do BNP Paribas,. Também o ajudou a receber altos elogios entre os líderes do setor. No mês passado, em uma pesquisa conduzida pela Extel, divisão da Thomson Reuters, Bonnafé ficou em primeiro lugar na lista dos melhores gestores do setor bancário europeu.

Fonte: The Wall Street Journal