Uma coisa que se ouve muito em conversas com empreendedores e investidores de capital de risco é que eles querem mudar o mundo. Alguns até querem mesmo. Uma dessas pessoas é Bryan Johnson, que está colocando US$ 100 milhões — uma parte substancial de sua fortuna pessoal — em um novo fundo de capital de risco destinado ao que o próprio Johnson chama de projetos “malucos”.

Os objetivos dessas empresas jovens que Johnson está apoiando são variados. Vão de um projeto para capturar um asteroide e explorar seus minérios a uma companhia que quer aumentar significativamente a longevidade e a qualidade da vida das pessoas e outra que quer cobrir os céus das grandes cidades com enxames de drones autônomos.

“Posso perder todo esse dinheiro, mas a meta é tentar construir um mundo melhor”, diz Johnson, que fez fortuna criando e depois vendendo a Braintree, uma prestadora de serviços de pagamentos on-line. Ele também poderia multiplicar sua fortuna — especialmente no cenário atual ou futuro, em que líderes de empresas estão dispostos a pagar o que seja por aquisições desejáveis.

Como Johnson está investindo exclusivamente seu próprio dinheiro, alguns podem achar que não se trata de capital de risco. Mas estamos em um momento crucial na breve existência humana na Terra, dizem Johnson e uma fraternidade de bilionários de tecnologia com quem às vezes ele investe, incluindo Richard Branson, Peter Thiel, Bill Gates, Elon Musk e Larry Page.

Há motivos de sobra: uma população de sete bilhões de pessoas que chegará a 11 bilhões até 2050, a decodificação de nosso código genético, novas e amedrontadoras pandemias, inteligência artificial, entre outros.

Estamos também em um momento crítico da história no que se refere à nossa disposição de financiar o início arriscado do próximo grande avanço. Comparado com quase qualquer ponto do século passado, os Estados Unidos estão bem mais tímidos em seu compromisso de criar inovações realmente transformadoras.

Embora pesquisa e desenvolvimento sejam cruciais para criar novas tecnologias, os investimentos totais em P&D como percentual do PIB americano estão estagnados desde a década de 60, segundo o relatório semestral Indicadores de Ciência e Engenharia da Fundação Nacional de Ciência dos EUA. Sozinho, esse dado não seria um problema; a questão real é que a proporção de investimentos em P&D direcionada à pesquisa básica caiu muito.

O governo americano, que é o principal responsável pelo tipo de pesquisa que nos deu coisas como a internet, está atualmente financiando apenas um terço da P&D nos EUA, enquanto o restante é pago pelo setor privado.

Na década de 60, a proporção era invertida, observa o economista Timothy Taylor, editor da publicação “Journal of Economic Perspectives”.

O problema que isso representa para inovações transformadoras é que as empresas normalmente enfatizam o desenvolvimento, em oposição à pesquisa, o que significa comercializar tecnologias existentes. A Apple pode contabilizar como P&D o tempo gasto na melhora dos jogos para o seu iPhone, enquanto que para a agência de saúde americana, a NIH, fica a tarefa de descobrir uma vacina para o ebola.

Isso não é um argumento sobre o papel do governo em inovação — ao contrário, é louvável que as empresas estejam agora financiando a maior parte de P&D nos EUA, e que algumas estejam até financiando a pesquisa básica, como as tentativas do Google em expandir a longevidade humana. Mas governos e grandes empresas estão reduzindo os investimentos na P&D básica. Foram-se os dias em que grandes empresas como a Bell Labs criavam grandes inovações como o transistor.

Esse é o campo onde os investidores de capital de risco podem entrar — se eles escolherem financiar as novatas certas.

Grande parte da pesquisa básica que costumava ser realizada dentro das empresas está agora nas novatas, com as empresas de tecnologia absorvendo-as na primeira oportunidade. As aquisições são a nova P&D. E as aquisições feitas para conseguir os talentos da empresa adquirida são a nova forma de desenvolver equipes. Para ter sucesso, o capitalismo de risco tem que administrar riscos, então os sócios da maioria das empresas de capital de risco investem em empresas que acreditam que se tornarão viáveis ou pelo menos dignas de uma aquisição no menor tempo possível.

Isso não gera muito apetite entre as empresas de capital de risco para empresas jovens que trabalham em projetos ambiciosos de longo prazo, do tipo que exige pesquisa básica. Johnson diz que não existe muita competição para financiar as empresas nas quais ele investe e que seu objetivo é transformá-las de “malucas em viáveis”, normalmente por meio de pequenos aportes de poucos milhões de cada vez. Por “viável”, claro, ele quer dizer interessante o suficiente para atrair investidores com aversão a risco.

Havia um tempo nos anos 60 em que os investimentos do governo em P&D estavam no auge e as crianças cresciam acreditando que viajar pelo espaço se tornaria algo corriqueiro em breve. O governo americano nunca pretendeu manter aquele nível de investimentos em P&D indefinidamente e a responsabilidade do avanço das habilidades da civilização foi transferida para as empresas privadas.

Agora que as firmas novatas são os instrumentos da inovação, os empreendimentos de alto risco financiados por indivíduos tão ricos que podem se dar ao luxo de perder centenas de milhões em empresas que eles acham pessoalmente atraentes são indiscutivelmente o principal meio que a humanidade tem para desenvolver novas tecnologias fundamentais. Nesse aspecto, espera-se que os fundos de Johnson sejam apenas o início.

Fonte: The Wall Street Journal