“Este negócio é feito de ganhos e perdas”. A frase foi dita recentemente por André Esteves, controlador do banco de investimentos BTG Pactual, numa referência ao seu próprio negócio. O importante, prosseguia o raciocínio do banqueiro, é ter mais ganhos do que perdas. “Somos normais, fazemos besteira. Mas temos muito mais acertos do que erros”, concluía.

Com ativos de R$ 160 bilhões no Brasil e R$ 60 bilhões no exterior e patrimônio líquido de R$ 19 bilhões, o BTG Pactual tem estado sob intenso escrutínio de investidores e concorrentes nos últimos tempos, diante de alguns negócios malsucedidos na chamada área de “merchant banking”, que compra participações acionárias em empresas, em que se sobressai, pelo valor investido e barulho causado, o investimento na empresa de sondas de perfuração de poços de petróleo Sete Brasil, uma cisão de negócios da Petrobras. Questionamentos acerca da compra de metade das operações da Petrobras na África e especulações sobre a exposição do banco a empresas de óleo e gás e construtoras, afetadas pela operação Lava-Jato da Polícia Federal, completam um caldeirão de notícias negativas que tem atrapalhado a vida do BTG.

Em um recente encontro com investidores do banco organizado pelo Morgan Stanley, Esteves procurou reverter essa onda. Os argumentos apresentados, com alguma variação, são os mesmos que interlocutores têm ouvido dele e de seus sócios mais graduados nos últimos tempos.

Especificamente sobre a área de merchant banking, Esteves tem dito que a performance do portfólio de empresas do banco é similar ao desempenho típico das carteiras de qualquer fundo de private equity: um terço dos investimentos deve alcançar retorno de 10 vezes sobre o capital, outro terço deve ter retornos módicos e o último terço deve se confirmar como casos problemáticos que eventualmente poderão até virar pó. Tudo contabilizado, a carteira teria potencial de entregar um retorno de 3 vezes o capital investido.

Mas as compras têm fontes de recursos diversas. Quase todas tiveram um mix de capital próprio do banco e de clientes, mas em doses distintas. Em alguns casos, a predominância é de recursos do banco. Em outros, são os clientes os grandes investidores. Os resultados, bons ou ruins, não serão colhidos de maneira uniforme.

A estrutura de investimentos do BTG em empresas é intrincada e o banco sempre evitou dar transparência aos dados. Nunca se soube ao certo o que é investimento feito com capital próprio e o que envolve recursos de clientes, seja por meio de fundos ou coinvestimento direto nas companhias, o que, de certa forma, ajudou a alimentar dúvidas do mercado sobre os riscos corridos pelo BTG. Por meio de conversas com pessoas com conhecimento do assunto, o Valor procurou traçar um perfil das aplicações (ver quadro).

Na categoria dos casos que o próprio banqueiro tem reconhecido como problemáticos, estão as apostas na empresa de lixo Estre Ambiental, na rede de farmácias Brasil Pharma e na Sete Brasil, todas companhias em reestruturação operacional e financeira, dada a sua alta alavancagem. A complicada Sete Brasil, agora também envolta em denúncias de pagamento de propina no âmbito da Lava-Jato, foi um dos maiores investimentos já feito pelo banco, do qual Esteves pessoalmente se arrepende. Na Sete, o BTG injetou R$ 2,8 bilhões na forma de capital para se tornar o maior acionista, com fatia de pouco mais de 25%. Desse total, pouco mais de um terço veio de recursos do banco, outra fatia equivalente veio do coinvestimento de clientes, como fundos soberanos, e pouco menos de um terço veio do fundo de infraestrutura gerido pelo banco. É um dinheiro alto que pode simplesmente não voltar, embora as chances de perda total tenham se reduzido nos últimos dias com a assinatura de um acordo entre bancos credores e Sete para prorrogar o vencimento das dívidas. Há uma expectativa de que o banco provisione como perda parte do investimento.

Tirando Sete Brasil do pacote, as demais empresas no clube das problemáticas são consideradas pequenas para trazer maiores consequências para o banco.

A Estre representou um aporte de R$ 170 milhões do fundo de private equity do banco, do qual, segundo apurou o Valor, o banco tem 35%. Já a Brasil Pharma consumiu um investimento de cerca de R$ 200 milhões, mas hoje representa um capital de R$ 100 milhões para o fundo de private equity do banco. A avaliação interna é que o BTG errou na gestão da rede de farmácias. A empresa está arrumada da porta para dentro, mas até hoje não conseguiu atrair os clientes. Faltou conhecimento de varejo e por isso a empresa trocou o presidente em março e contratou a consultoria de Enéas Pestana, ex-presidente do Pão de Açúcar. Agora, o banco avalia se a melhor opção seria vender a rede logo ou fazer um novo aporte de capital e vendê-la mais adiante. Uma terceira alternativa seria vender apenas uma das redes regionais de farmácias para capitalizar a empresa. Na balança estão, de um lado, a geração de valor e, de outro, o desgaste constante causado pelo mau desempenho do negócio.

Em novembro do ano passado, o BTG vendeu sua participação numa empresa de concessão de túneis em Barcelona, na Espanha, e registrou um lucro líquido de impostos de R$ 311 milhões com o investimento. Esse único negócio cobriria, por exemplo, uma eventual perda total do dinheiro aplicado em Estre e Brasil Pharma. Vale lembrar que a empresa de lixo e a rede de farmácias são negócios do fundo de private equity, enquanto a concessão espanhola foi comprada pelo banco, com pequena participação de clientes.

Um dos maiores retornos do portfólio deve vir da Rede D’Or, de hospitais, controlada pelo empresário Jorge Moll. Há exatos cinco anos, o banco investiu cerca de R$ 700 milhões, a maior parte em recursos próprios, para adquirir debêntures conversíveis em ações da empresa, equivalentes a 30% do capital. Hoje o ativo valeria algo como R$ 19 bilhões. Uma negociação em fase final com o fundo americano de private equity Carlyle poderá chancelar tal avaliação em breve, se for finalizada. O fundo faria um aporte da ordem de R$ 1,5 bilhão na rede de hospitais para ficar com fatia de até 8%.

Trajetória de sucesso semelhante tem a rede de estacionamentos Estapar. Comprada pelo banco a R$ 100 milhões, a empresa teve um aumento de capital no ano passado que a avaliou em R$ 1,3 bilhão.

Dos grandes investimentos em empresas, a única que vai mal com chances de perda do capital é Sete Brasil. Além de Rede D’Or, vão bem BR Properties e Petrobras África. Globenet, empresa de cabos submarinos comprada da Oi pelo fundo de infraestrutura, tem boas perspectivas de ganho e há negociações envolvendo o ativo em andamento.

A BR Properties tem uma oferta pública de aquisição de ações (OPA) em andamento que pode render um bom lucro ao banco. Apesar do mau desempenho na bolsa, a companhia paga dividendos regularmente.

Outro grande investimento do banco que, como Sete Brasil, tem sido fonte de desgaste de imagem é a compra de metade dos ativos da Petrobras na África, por US$ 1,5 bilhão, feita em junho de 2013. A empresa não tem dívidas, é uma grande geradora de caixa e, desde a sua compra pelo banco, melhorou sensivelmente a situação política na Nigéria, onde estão grandes poços de exploração. No entanto, vira e mexe há denúncias sem provas de que o banco teria sido favorecido pela estatal na compra, informação negada em dois comunicados pela Petrobras. Visto como promissor à época, com perspectiva de retorno anual na casa de dois dígitos, o negócio passou a ter rendimento apenas razoável a partir da queda do preço do petróleo. Neste caso, US$ 700 milhões do desembolso vieram do banco e o restante foi aplicado por clientes.

A área de merchant banking está dentro da divisão chamada de “principal investments” (investimentos proprietários), que em 2014 registrou perdas de R$ 565 milhões. Os outros três agrupamentos de negócios – “fee business” (gestão de fundos e fortunas e banco de investimento, que rendem comissões), “sales and trading” (corretagem) e “corporate lending” (crédito corporativo) – geraram receitas de R$ 5,8 bilhões.

Se em receitas a área tem altos e baixos e é pequena, em termos de exposição do banco não é muito significativa, relativamente. De acordo com uma fonte, do total de ativos do banco, cerca de R$ 6 bilhões representam os investimentos diretos em empresas, a valores históricos de aquisição.

A maior parte dos investimentos diretos em empresas, bem como o capital aportado pelo banco nos fundos de private equity e infraestrutura, saem da BTG Investments, companhia de investimentos sediada no exterior. Algumas raras exceções são Rede D’Or e BR Properties, no balanço local.

Além da exposição no merchant banking, os riscos da carteira de crédito também têm levado a questionamentos por parte de analistas, particularmente sobre a exposição a companhias envolvidas na operação Lava-Jato. O Valor apurou que a exposição a companhias de óleo e gás está em torno de R$ 1,5 bilhão, valor concentrado em uma fiança dada à Petrobras e um empréstimo a uma petrolífera europeia.

Entre as empreiteiras, uma estaria entre os dez maiores devedores do banco. Comenta-se que seria a Odebrecht, mas a informação é protegida pelo sigilo bancário. Das empresas que já pediram recuperação judicial – OAS, Galvão Engenharia e Schahin -o banco não era credor, segundo uma fonte. O banco não fez empréstimos à Sete Brasil e nem aos estaleiros encarregados da construção das sondas.

A carteira de crédito do banco como um todo, num total de R$ 50 bilhões, é relativamente pequena e representa mais de duas vezes o patrimônio líquido total do banco (Brasil e exterior). A ideia é trazer isso para duas vezes o patrimônio. Do total, um terço não consome caixa do banco, porque é composto de repasses do BNDES, cartas fiança e outros.

Já as captações do banco via depósitos a prazo, letras financeiras, bônus emitidos no exterior e repasses estava em R$ 60 bilhões no encerramento do ano e cobria com folga a carteira de crédito que consome caixa.

Esteves tem dito a interlocutores que a estratégia que desenhou para o futuro do BTG não foi completamente compreendida pelo mercado. São dois os componentes centrais desse planejamento: internacionalização das operações para reduzir a dependência de Brasil, criando receitas não correlacionadas com o risco país e, ao mesmo tempo, ampliação dos negócios que pagam comissões (fee business), notadamente a gestão de fundos e fortunas e que representam uma receita mais estável e com menos risco.

A aquisição do banco suíço BSI no ano passado, por 1,5 bilhão de francos suíços, se encaixa em ambas as diretrizes. O banco tem US$ 100 bilhões sob gestão e, uma vez consumada a compra, algo esperado para acontecer ainda no primeiro semestre, 43% das receitas do BTG passarão a vir de gestão de recursos e fortunas – hoje é 26%. Da mesma forma, 57% das receitas serão geradas fora do Brasil e 67% dos funcionários estarão em outros países.

Na semana passada, o BSI foi o primeiro banco suíço a fechar um acordo com o Departamento de Justiça dos EUA para evitar um processo penal por evasão de divisas. O encerramento do litígio era pré-condição para a conclusão da compra pelo BTG Pactual.

A montagem da área global de commodities do banco, que trouxe receitas expressivas em 2014, também faz parte dessa estratégia de buscar receitas não correlacionadas a Brasil.

No passado, se a mesa de juros do BTG acertava ou errava uma aposta sobre a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre os juros, o resultado do banco era materialmente impactado. Hoje em dia, R$ 100 milhões que o banco ganhe num Copom se diluem nas receitas geradas num trimestre, da ordem de R$ 1,5 bilhão. Uma boa medida da menor dependência do banco das operações com risco de mercado é a trajetória declinante do seu VaR (Value at Risk), que está atualmente em 0,5% do patrimônio líquido e já foi o dobro disso há cinco anos. O índice mostra que a pior perda esperada nas operações de mercado do banco pode consumir 0,5% do seu patrimônio.

Se depender apenas dos planos traçados no número 3477 da avenida Faria Lima, em São Paulo, será cada vez mais. A meta é assegurar o retorno sobre o capital prometido de 20% ao ano.

Fonte: Valor Econômico