“As operações de guerra requerem mil quadrigas de quatro cavalos velozes, mil carroças de quatro cavalos cobertos de couro e 100.000 homens com cota de malha”. A concorrência empresarial se assemelha verdadeiramente a uma batalha. É preciso ganhar tamanho para ter opções de vitória. Por isso, A Arte da Guerra, escrito por Sun Tzu, é estudado em algumas escolas de negócios. É provável que os diretores de muitas empresas estejam relendo agora os conselhos sobre estratégia militar, reunidos neste milenar tratado. Por quê? Porque os tambores de guerra voltam a soar. É o que revela o ápice das operações de fusões e aquisições (M&A, por suas siglas em inglês) em 2014.

Nos quatro primeiros meses do ano apresentaram-se ofertas em todo o mundo no valor de 1,11 trilhão de dólares (cerca de 810 bilhões de euros), segundo dados da Thompson Reuters. Esta cifra é cerca de 50% superior à registrada no mesmo período de 2013. Se este ritmo se mantiver ao longo do ano, possibilidade que os especialistas consultados veem como muito provável, em 2014 o volume total pela atividade de M&A ficará em 3,5 trilhões de dólares. Esta soma supõe voltar a níveis não vistos desde 2007, isto é, a níveis prévios à crise.

“O auge das operações corporativas tem um claro componente cíclico e é um bom termômetro do crescimento econômico mundial”, observa César Fernández, professor do mestrado em Corporate Finance do Instituto de Estudos Bursáteis. “É resultado do renovado otimismo empresarial”, corrobora a gestora de fundos Legg Mason, “embora também poderia sugerir que o crescimento orgânico, isto é, o que geram os negócios tradicionais das companhias, continua sendo difícil, e uma ferramenta para consegui-lo são as aquisições”.

A atividade de M&A é muito cíclica, mas neste momento coincidem, também, uma série de fatores que criaram um caldo de cultivo ideal para este tipo de movimentos. Só assim se explicam os acordos tão volumosos que estão sendo selados. Em 2014, segundo dados reunidos pela Bloomberg, foram anunciadas cerca de 15 operações avaliadas em mais de 10 bilhões de dólares. A oferta da Pfizer pela AstraZeneca, retirada finalmente por falta de acordo, era de 124 bilhões; a absorção da Time Warner pela Comcast é uma operação de 68 bilhões; a união entre Lafarge e Holcim cria um grupo avaliado em 40 bilhões; Facebook adquire a WhatsApp depois de desembolsar 18 bilhões, entre efetivo e ações…

“O custo de capital está em níveis historicamente baixos. Existe a sensação de que as taxas de juro começarão a subir no futuro não muito longínquo, sobretudo nos EUA, o que faz com que a decisão sobre algumas transações se acelere para evitar o encarecimento dos custos financeiros caso se realizem num momento posterior”, explica Olaf Díaz-Pintado, sócio e diretor-geral do banco de investimento Goldman Sachs na Espanha. “É preciso acrescentar outros três fatores que estão fomentando a proliferação de operações de M&A: em primeiro lugar, o nível de confiança dos conselheiros delegados aumentou notoriamente nos últimos 12 meses. Em segundo lugar, as empresas estão menos alavancadas e muitas delas acumulam caixa no balanço. Por último, o acesso a financiamento em quantidades importantes deixou de ser um obstáculo para propor operações grandes em caixa, como se viu em algumas transações nas quais se levantaram em poucos dias dezenas de bilhões de financiamento”, acrescenta Díaz-Pintado.

A atividade corporativa está retornando a níveis pré-crise

Do início do ano até agora aumentaram de forma significativa as operações entre companhias de diferentes países. Os acordos cross border, como são denominados na gíria financeira, estimam-se em 32% de todos os movimentos de M&A no primeiro trimestre do ano, segundo a Thompson Reuters. Entre janeiro e março anunciaram-se ofertas transnacionais avaliadas em 245 bilhões de dólares, 86% a mais do que no mesmo período do ano anterior. Nesta batalha empresarial global as companhias norte-americanas lideram. Neste caso, além de todos os fatores descritos anteriormente, há um motivo adicional para sair às compras fora de seu mercado local: poupar impostos.

“Nos últimos anos, muitas empresas norte-americanas acumularam em caixa importantes somas de dinheiro. Grande parte desse excedente está no exterior e os conselhos de administração devem decidir se vão repatriá-lo para repartir dividendos ou recomprar ações, com o consequente custo fiscal, ou utilizá-lo para crescer mediante aquisições”, explica Jorge Vasallo, de Arcano Corporate.

Em alguns setores há necessidades concretas de concentração. A indústria farmacêutica e de telecomunicações são algumas das áreas mais ativas em M&A do início do ano até agora. No caso das farmacêuticas, os especialistas acreditam que o boom deve-se ao fato de que estas companhias dependem da vida média de seus fármacos principais. Na medida em que as patentes vencem, aquelas empresas que não têm em carteira produtos com um grau avançado de desenvolvimento se veem obrigadas a fazer ofertas pelos rivais que os têm. Neste ano, a Actavis comprou a Forest Laboratories, a Bayer comprou a divisão de cuidados pessoais da Merck, enquanto a Novartis adquiriu da GlaxoSmithKline a sua área de negócios oncológicos, entre outras operações.

Por sua vez, os movimentos entre as teles respondem à excessiva fragmentação do mercado em muitos países, à necessidade de ganhar tamanho para conseguir sinergias e economias de custos e ao interesse por entrar em atividades como cabo, fibra ou a área de conteúdos. Entre as operações recentes destacam-se a compra da DirecTV pela AT&T ou a aquisição da Ono pela Vodafone.

Também é significativo o frenesi de acordos no setor tecnológico. Nesta mesma semana, por exemplo, confirmava-se a compra da Beats Electronics pela Apple. Desde janeiro, as empresas de tecnologia realizaram operações no valor de 102,5 bilhões de dólares. Esta quantia supõe um incremento interanual de 67% e é o maior volume de M&A neste setor nos cinco primeiros meses do ano desde 2000, em plena bolha tecnológica.

Os grupos de ponta se sentem fortes e cresce o número de ofertas de aquisição hostis

“Estamos presenciando um acúmulo de operações que não puderam ser realizadas nos últimos anos”, argumenta a área de banco de investimento do Bank of America Merrill Lynch. “Empresas com potencial de crescimento orgânico limitado precisam crescer através das operações de M&A. De fato, este aspecto é muito relevante na Europa, onde a falta de pricing power [capacidade para fixar preços] e as tendências deflacionistas tornam o caminho das fusões e aquisições a única forma de crescer”, acrescentam os especialistas do banco norte-americano.

A primeira opção para qualquer gestor é fechar a compra de um rival de forma amistosa porque as operações hostis são as mais difíceis de executar. Neste sentido destaca-se a recuperação das ofertas públicas de aquisição (opas) não pactuadas nos últimos meses, circunstância que muitos integrantes do mercado dizem que é um claro sinal de confiança das empresas em suas fortalezas. O volume de ofertas hostis em 2014 resulta em 7% do total da atividade de M&A no mundo e é o mais alto desde 2007, segundo a Thompson Reuters.

“Os elevados múltiplos em Bolsa levam implícitos crescimentos operacionais que em muitos casos são impossíveis de conseguir se não forem procuradas compras que gerem sinergias. Para muitas companhias está sendo a primeira oportunidade em muito tempo na qual os mercados dão a possibilidade de adquirir um competidor direto”, assinala Álvaro Revuelta, diretor de operações do banco de investimento Citi na Espanha.

O auge das operações de compra está destampando também tiques protecionistas, especialmente na Europa. Nesta mesma semana, em um gesto pouco habitual para um dos emblemas do capitalismo norte-americano como é a General Electric, seu conselheiro delegado, Jeffrey Immelt, viajou até Paris para se reunir com o presidente francês, François Hollande, com o objetivo de convencê-lo sobre as bondades da oferta de sua companhia sobre o negócio de energia da Alstom. Em um primeiro momento, o Governo francês não gostou da proposta e procurou uma saída europeia com a Siemens como aliada. A conversa no palácio do Eliseu e as promessas sobre emprego, investimentos e independência energética devolveram à General Electric alguma esperança de levar adiante sua oferta. No caso da frustrada oferta da Pfizer pela AstraZeneca também houve um pano de fundo político, e o Governo britânico —a empresa que recebeu a oferta tem sua sede em Londres— também recebeu pressões por ambas as partes, com a carta incluída do presidente de Pfizer ao número 10 de Downing Street (sede do governo britânico).

“O protecionismo é algo inato ao conceito de soberania. Partindo de um plano teórico podemos falar de empresas europeias, mas na prática, as companhias continuam sendo, sobretudo em setores estratégicos, francesas, italianas ou espanholas. Por isso os Governos costumam colocar resistência de que as joias da coroa caiam em mãos estrangeiras”, aponta Tomás Dagá, sócio-diretor do escritório Osborne Clarke, especializado em fusões e aquisições.

O custo fiscal de se repatriar caixa leva as empresas dos EUA a pescar na Europa

Os especialistas estão convencidos de que a atividade de M&A vai continuar nos próximos meses. Em sua opinião, vão ser mantidas as condições de liquidez, facilidade no acesso ao financiamento e necessidade de consolidação em determinados setores que estão exercendo como catalisadores. Além disso, espera-se bem mais de um suspeitoso habitual desse tipo de operações, como é o capital de risco. É verdade que o private equity protagonizou movimentos neste ano, mas seu peso sobre o volume global de fusões e aquisições segue abaixo de sua média histórica. Esse tipo de fundos compra uma empresa, a reestrutura e a vende em um prazo de tempo que não costuma superar oito anos. A crise congelou muitos desses desinvestimentos e agora, com a reabertura do mercado, se abriu uma janela de liquidez, pela qual deveriam começar a se concretizar tratos.

Além disso, o private equity também deveria atuar como um motor do M&A do lado da compra, já que nos últimos meses levantaram fundos por um valor próximo a 400 bilhões, embora, como estes investidores costumam operar muito alavancados, a potência de tiro do setor para aquisições alcançaria o trilhão de dólares.

“Na Espanha investimos inclusive nos anos mais duros da crise e pensamos seguir fazendo isso na medida em que surjam oportunidades. A economia melhora, há menor volatilidade e isso é positivo tanto para compradores como para vendedores. Para os primeiros, porque a situação lhes permite fazer previsões para determinar se uma aquisição será rentável ou não. Quanto aos vendedores, os preços dos ativos subiram e isso anima as operações porque podem ser obtidas valorações que se aproximam mais do que as que eles esperam, diz Alex Wagenberg, sócio-diretor na Espanha da gigante do capital de risco mundial Carlyle.

Também há um renovado interesse do capital de risco especializado em companhias de menor tamanho não cotadas. “No mundo do private equity, as operações mais rentáveis são aquelas que são feitas nas fases finais de uma crise”, reconhece Félix Guerrero, sócio diretor da GED. “Serão escolhidas principalmente aquelas empresas com projetos sólidos, vocação internacional e potencial de crescimento”, acrescenta Guerrero.

Nos últimos anos, os movimentos de M&A que ocorriam na Espanha tinham um caráter eminentemente defensivo. Por exemplo, a reestruturação do sistema financeiro ou o desinvestimento de ativos por parte de multinacionais espanholas para reduzir o seu endividamento. No entanto, os especialistas afirmam que a tendência mudou, e os diretores começam a estudar oportunidades de compra para crescer.

“A Espanha é um mercado muito atraente para os investidores e suas empresas têm muito interesse fora do país pelo sucesso de seus produtos, a qualidade da equipe gestora e da maneira na qual enfrentaram a crise. Não seria de estranhar que os movimentos corporativos protagonizados por empresas chave em outros países europeus tivessem seu reflexo em operações similares na Espanha”, assegura Álvaro Revuelta, do Citi.

Neste sentido, os especialistas não descartam que alguma grande companhia espanhola receba uma oferta pública de aquisição hostil. “Há empresas que cotam, que têm bons negócios e estão baratas. Ao mesmo tempo, fora de Espanha há gestores de grandes multinacionais que estão sentados sobre uma montanha de dinheiro e devem colocá-lo para girar”, assegura Tomás Gavá, da Osborne Clarke.

Os conselhos de administração têm muito em conta como reage o mercado quando se anuncia a compra de uma empresa. Têm pânico de que os investidores reajam de forma ruim. Neste sentido, a evolução das ações das empresas compradoras no dia após lançarem o ataque sobre um rival começa a ser de ascensão. Isto é, as Bolsas começam a andar com os seus próprios mecanismos, e o prêmio médio que se está pagando em 2014 por operações de M&A supera os 20%, segundo dados da Bloomberg.

Quem esfrega as mãos com a recuperação dos movimentos corporativos são os bancos de investimento. As entidades que ajudam uma companhia a se fundir com um rival não só cobram comissões por esse trabalho, como depois oferecem a seu cliente toda uma gama de serviços para o dia depois da aquisição: busca de sinergias, poupança de custos, refinanciamento… Em 2014, os bancos de investimento receberam só em comissões pelas operações fechada com sucesso 5,6 bilhões.

Em pleno frenesi de fusões e aquisições, convém perguntar-se até que ponto estes movimentos agressivos criam valor no longo prazo para os acionistas. Na história recente há resultados para todos os gostos. Está o desastre dos casamentos entre imobiliárias ou o trampolim de crescimento que encontrou a Grifols com a Talecris, para citar dois exemplos extremos. “A geração ou destruição de valor em transações de M&A depende da cada caso e é difícil generalizar. O sucesso depende não só da fixação do preço adequado de uma companhia, como também da execução profissional da compra e do gerenciamento do dia após a aquisição”, segundo Díaz-Pintado.

Uma guerra, como uma oferta pública de ações, não é para generais novatos e, como lembra Sun Tzu, é preciso calibrar suas consequências: “Quando se convoca um exército de cem mil, enviado a uma campanha distante, as despesas que serão financiadas pelo povo e pelo tesouro do Estado somarão mil peças de ouro ao dia. Tanto no exterior como no interior do país se viverá uma agitação constante e afetará a vida de milhares de lares”.

Fonte: El País