A crise da indústria de veículos no país, com declínio nas vendas, paralisações de fábricas, avanço dos estoques e cortes de empregos nas montadoras, está gerando uma forte desvalorização nos ativos ligados a esse negócio. O choque mais perceptível são as perdas bilionárias no valor de mercado das fabricantes de autopeças, implementos rodoviários e carrocerias com ações negociadas em bolsa.

Somadas, Marcopolo, Randon, Mahle Metal Leve, Iochpe-Maxion e Autometal – só para ficar nas cinco maiores desse setor na Bovespa – valem hoje R$ 4,7 bilhões a menos do que valiam um ano atrás. Nos últimos doze meses, quando o consumo de veículos no país inverteu a trajetória de alta dos nove anos anteriores, os papéis dessas empresas acumularam desvalorização na faixa de 6,6% a 41,5% – a maioria delas com desempenho bem pior do que o mostrado pelo Ibovespa, principal índice de ações da Bovespa, que teve queda de 6,2% no período.

Na fase de bonança dessa indústria, a Marcopolo era uma das preferidas das corretoras entre as opções de investimento no setor de bens de capital, mas agora a empresa é quem mais perde. Em um ano, o valor de mercado da encarroçadora de ônibus caiu de R$ 5,9 bilhões para R$ 3,6 bilhões – ou seja, R$ 2,3 bilhões a menos (veja gráfico).

Levantamento feito pelo Valor Data mostra, porém, que a Marcopolo não está sozinha. No período de 12 meses analisado, o grupo Randon – que atua na fabricação de produtos diversos que vão desde pastilhas de freio e sistemas de suspensão a implementos rodoviários e caminhões fora de estrada – perdeu R$ 1 bilhão, enquanto a fabricante de peças de motor Mahle Metal Leve caiu o equivalente a R$ 690 milhões. Para completar, a Iochpe-Maxion, de rodas e chassis, e a Autometal amargaram desvalorização de R$ 378 milhões e R$ 315 milhões, respectivamente.

Ao se olhar para o desempenho dos papéis dessas companhias somente neste ano, quando a queda nas vendas de veículos, agravada por menores exportações à Argentina, bateu forte na produção das montadoras, a Autometal é a única que se mantém no azul, favorecida pela oferta pública lançada por seus controladores para fechar o capital da empresa. Na ponta oposta da tabela, a desvalorização nas ações da Randon já passa de 31%, enquanto os papéis da Iochpe têm queda de 26,4%, os da Marcopolo, 23,4%, e os da Mahle, 14,2%.

É evidente que parte do tombo se deve a fatores que prejudicaram o desempenho de quase todas as ações, como as incertezas sobre os rumos da economia doméstica, a fraca atividade industrial e a acomodação no consumo das famílias. Contudo, há consenso entre analistas de que o maior estrago veio do comprometimento de fundamentos setoriais.

No início do mês, o Credit-Suisse cortou o preço-alvo das ações de quatro empresas do setor – Iochpe, Mahle, Marcopolo e Randon -, após reduzir em 20%, na média, a estimativa de lucro dessas companhias e ajustar, para pior, a perspectiva de queda na produção de veículos neste ano. Para o banco, medidas de incentivo do governo devem ter efeito apenas limitado diante de um setor abalado por queda nas exportações à Argentina, estoques nas alturas e fraca atividade econômica no país. Assim, a expectativa é de queda de 6% na produção de carros de passeio e de 16% na atividade das fábricas de caminhões em 2014.

Apesar disso, após todos os descontos já dados pelo mercado a esses papéis, o momento pode ser bom para comprá-los. Nunca é fácil antever quando um setor chegará ao fundo do poço, mas as ações dos fabricantes de autopeças caíram a um patamar que potencialmente permitirá valorização de até dois dígitos quando a turbulência passar e os investidores voltarem a “surfar” nos bons fundamentos do mercado, como a demanda gerada pelas montadoras que chegam ao país.

O mais prudente, porém, é aguardar junho ou julho, quando, espera-se, o setor já terá superado a fase mais crítica da crise e o impacto das paradas de produção nas montadoras já estará exposto publicamente nos balanços financeiros do segundo trimestre. O Credit-Suisse vê potencial de valorização próximo de 60% em papéis da Iochpe-Maxion e da Randon. Já as projeções da BB Investimentos apontam para alta de 76% nos papéis da Randon, de mais de 49% na Marcopolo e de 58% da Iochpe.

“Esses papéis já passaram por forte correção e agora apresentam upside [potencial de valorização] superior a 50%. O momento da indústria, por outro lado, não é positivo. É a velha história, quem quer segurar a faca quando ela está caindo?”, afirma Bruno Savaris, analista do Credit Suisse.

Werner Roger, sócio da gestora Victoire Brasil Investimentos, concorda que daqui a dois anos as ações dos fabricantes de autopeças podem valer mais do que as cotações de 2012, quando o mercado ainda estava em alta. “A Marcopolo já caiu mais de 40% em um ano. Será que uma empresa pode valer 40% menos só por questões de curto prazo?”, questiona o executivo.

Fonte: Valor Econômico