A Danone está promovendo uma revisão da sua estratégia num momento em que seu diretor-presidente, Franck Riboud, busca garantir o crescimento no longo prazo para afastar dúvidas de que a empresa de alimentos francesa pode sobreviver sozinha.

Riboud, que vem comandando a Danone há quase 20 anos, depois de ter substituído seu pai, pediu aos principais executivos da empresa para explorar áreas passíveis de serem expandidas, disse uma pessoa a par do assunto. Eles vão apresentar ideias iniciais numa reunião em setembro, tendo como meta concluir o novo plano estratégico até o início de 2015, segundo a fonte.

“Há uma profunda reflexão sobre o que a Danone precisa fazer para que o grupo continue crescendo nos próximos 50 anos”, diz a pessoa. A fabricante da água Evian e do iogurte Activia está estudando se deve buscar grandes negócios ou parcerias para se fortalecer.

Uma porta-voz da Danone confirmou a revisão estratégica, mas não quis comentar sobre a possibilidade de a empresa procurar um negócio de grande porte.

A Danone vem tentando se recuperar de uma série de baques nos últimos anos, começando pelos efeitos da crise na Europa. Há um ano, a empresa viu um dos seus principais motores de crescimento, o mercado de alimentos para bebês na China, ser consideravelmente afetado por preocupações relativas à segurança alimentar.

“Há claramente uma mudança de mentalidade em curso, já que a direção [da empresa] está publicamente tratando dos problemas que estão tendo, algo que hesitou fazer no passado”, diz James Targett, analista do banco Berenberg.

Os desafios da Danone têm feito os analistas voltarem sua atenção para o tamanho relativamente pequeno da empresa em relação à gigante suíça de alimentos Nestlé.

Após ter vendido uma série de ativos secundários no fim dos anos 90 e início dos 2000, a Danone hoje tem seus principais negócios nas áreas de laticínios, alimentos para bebês, água e nutrição médica.

Com um valor de mercado de cerca de 36 bilhões de euros (US$ 49 bilhões), ela é muito menor do que a Nestlé, que vale em torno de 180 bilhões de euros. Algumas pessoas dentro da companhia dizem que ela pode ser pequena demais para competir com gigantes desse porte, diz outra pessoa a par do assunto.

Num evento para investidores em junho, a Danone deu a entender que estava trabalhando num plano chamado “Danone 2020”. O grupo frisou que o objetivo era mudar a organização e a base de custos do seu negócio de laticínios na Europa Ocidental para melhorar as margens de lucro, que vêm declinando nos últimos quatro anos. A Danone também afirmou estar trabalhando para melhorar seu retorno sobre o capital — um indicador da capacidade de gerar investimentos lucrativos.

O grupo tem sido prejudicado pela debandada dos consumidores europeus preocupados com os preços. Ao mesmo tempo, enfrenta o desafio de convencer os pais chineses a confiar nas suas marcas de fórmula infantil depois de um alerta, que se mostrou falso, de um fornecedor quanto à segurança dos seus alimentos. O caso gerou um recall de milhares de latas de fórmulas de bebês em oito países asiáticos.

Os analistas estimam que a fraqueza no mercado de laticínios na Europa e de alimentos infantis na China vai continuar pesando sobre o resultado da empresa no primeiro semestre, que será divulgado sexta-feira. A estimativa é que sua margem de lucro caia quase dois pontos percentuais, para 11,4%.

A Danone tomou medidas para se tonar mais enxuta: cortou custos, reduziu o número de funcionários, fechou fábricas e realocou executivos.

“A empresa está reestruturando seus negócios agora, como acho que deveria ter feito há dois ou três anos”, diz Warren Ackerman, analista do banco Société Générale.

Em breve, a Danone pode se tornar ainda menor. Ela tem negociado com vários interessados, em particular a Nestlé, a possível venda do seu braço de nutrição médica, segundo pessoas a par do assunto. O negócio pode chegar a 6 bilhões de euros, dependendo do tamanho da fatia a ser vendida, dizem analistas. A Danone e a Nestlé não comentaram.

Numa recente nota a clientes, analistas da gestora de recursos Natixis disseram que, “considerando os sinais tangíveis de mudança, uma aquisição poderia se tornar um cenário cada vez mais plausível”, sendo a PepsiCo Inc. e a Nestlé as compradoras mais prováveis. Outros analistas especularam sobre a possibilidade de a Danone comprar a fabricante americana de fórmula infantil Mead Johnson Nutrition. Nenhuma das quatro empresas comentou.

Em 2005, devido a rumores de que a americana Pepsi estava considerando fazer uma oferta pela Danone, a França aprovou uma lei barrando investimentos estrangeiros em 11 setores considerados estratégicos, que ficou conhecida como “Lei Danone”.

Alguns não estão convencidos de que um negócio de grande porte esteja para ocorrer. Ackerman disse que a ênfase do grupo em melhorar o retorno do capital investido, depois de não ter conseguido gerar retornos em grandes negócios feitos no passado, indica que uma aquisição de porte pode estar fora de cogitação. “Na minha visão, ela não precisa da Mead se seu negócio chinês de leite infantil se recuperar.”

Fonte: The Wall Street Journal