No bairro de Back Bay, em Boston, famoso pela arquitetura vitoriana do século XIX, um homem está construindo uma máquina de fazer dinheiro que concorre com alguns dos maiores nomes da indústria de fundos de hedge.

Os telefonemas para seu escritório não são atendidos, mesmo os de pessoas ansiosas para investir valores de oito dígitos, dizem potenciais investidores. Um veterano do setor se refere a ele como “um unicórnio”, já que são pouquíssimas as pessoas que o viram.

O gestor de fundos de hedge David Abrams se tornou um bilionário e ganhou outros bilhões para seus ricos investidores nos últimos cinco anos gerenciando o que efetivamente é um escritório de um homem só, segundo documentos de investidores e da empresa analisados pelo The Wall Street Journal e com pessoas que trabalharam com ele. Sua empresa, a Abrams Capital Management LP, administra cerca de US$ 8 bilhões em três fundos e está discutindo a captação de recursos para um quarto fundo, o que elevaria seus ativos para cerca de US$ 10 bilhões.

Em uma época em que investidores se tornam celebridades ao aparecer regularmente na televisão e falam de suas ideias em conferências badaladas, Abrams, de 53 anos, nunca falou em nenhum evento aberto ao público.

“Ele provavelmente teria preferido que você não o encontrasse”, diz Roger Brown, presidente da Faculdade Berklee de Música, da qual Abrams é membro do conselho.

Os principais fundos da Abrams Capital registraram um ganho médio anualizado de cerca de 15% desde a sua criação, em 1999, mostram os documentos, quase o dobro da média dos fundos de hedge acompanhados pela HRF Inc. e o triplo do índice S&P 500, incluindo dividendos.

A empresa investe em um número relativamente pequeno de empresas em dificuldade de cada vez, a maior parte através de ações, embora ela também tenha entrado em alguns dos negócios de renda fixa mais famosos dos últimos anos, incluindo a falência da Enron Corp. Entre as participações que adquiriu recentemente estão companhias como a rede de livrarias Barnes & Noble, o varejista J.C. Penney e a empresa de transferência de dinheiro Western Union, de acordo com documentos.

Abrams também integra um pequeno grupo de investidores que fez grandes apostas nas empresas de financiamento imobiliário controladas pelo governo americano, a Fannie Mae e a Freddie Mac, acreditando que o plano para substituir as entidades irá fracassar, segundo documentos de investidores e reguladores.

A empresa emprega três analistas e uma pequena equipe de suporte, mas Abrams aprova todos os negócios pessoalmente, segundo pessoas que trabalharam com ele. Outras empresas com ativos semelhantes podem ter centenas de funcionários.

Ele também construiu sua fortuna sem que sua empresa se alavancasse. Ela não toma dinheiro emprestado e frequentemente está sentada sobre bilhões em dinheiro vivo. Atualmente, a firma possui cerca de 40% dos ativos que administra, que somam US$ 8 bilhões, em dinheiro, indicam informações atualizadas de investidores.

Abrams começou em 1988 no Baupost Group LLC, também em Boston. Administrada por Seth Klarman, a Baupost é uma das maiores empresas de fundos de hedge do mundo, com US$ 27 bilhões em carteira.

Os dois continuam amigos, e a fundação de Klarman investiu dinheiro nos fundos da Abrams Capital. Klarman descreve seu pupilo como “rápido como um chicote”.

“Ele adora um bom quebra-cabeça e uma boa caçada ao tesouro”, diz Klarman.

Pessoas que trabalharam com ele dizem que Abrams, que estudou história na Universidade da Pensilvânia, é introvertido e cerebral. Filho de um corretor da bolsa e uma psicoterapeuta e pai de dois filhos, ele é fanático por jazz e fã da banda americana Earth, Wind and Fire.

Como Klarman, Abrams é conhecido por ser extremamente paciente. Ele pode ficar com seu portfólio inalterado por meses, sem fazer nenhuma operação.

Investidores da empresa, incluindo instituições como a Universidade Brandeis, com US$ 700 milhões aplicados, às vezes recebem alguma informação. A mais recente carta trimestral de Abrams tinha apenas seis parágrafos, um dos quais era uma única sentença.

“Ele não vai gastar um milésimo de segundo para impressionar você ou convencer você ou discutir com você”, diz Brown, da Berklee. “Ele sabe o que pensa e se você perguntar a ele, ele vai dizer. Se não, ele pode ficar sentado lá em silêncio.”

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Abrams provavelmente ganhou mais de US$ 400 milhões no ano passado com os 23% de rentabilidade de um dos seus principais fundos, de acordo com cálculos do WSJ baseados nas taxas que cobra, no seu desempenho e em seus investimentos pessoais na empresa. Ele não aparece nas listas de “administradores de fundos de hedge mais bem pagos” porque os resultados do seu desempenho são muito bem guardados, mas seus ganhos estimados o colocariam à frente de David Einhorn, Daniel Och e até mesmo de Klarman, de acordo com a publicação Institucional Investor’s Alpha.

Uma parcela dos seus ganhos vem de um instrumento parecido com o private-equity, que não distribui lucros até que a posição seja desfeita e um punhado dos executivos da firma tenha compartilhado uma pequena parte do seu pagamento. Os fundos de hedge tiveram uma alta adicional de 2% no primeiro trimestre, revelam documentos de investidores.

Abrams também fez parte do grupo que, em 2007, comprou 20% do time de futebol americano Oakland Raiders. A Forbes avalia o time em US$ 825 milhões, a equipe de menor valor da liga de futebol americano. Antes da compra, ele não era um grande fã do esporte, mas via o time como um investimento em uma empresa em dificuldades, segundo uma pessoa próxima a ele. A fonte disse que Abrams prefere jogar squash no clube da Universidade de Boston.

Fonte: The Wall Street Journal