É meia-noite, mas muitos funcionários da Enplug, uma empresa de tecnologia para publicidade, perambulam pelo escritório vestindo só camiseta e shorts, escrevendo códigos de computador e discutindo estratégias. Outros já estão na cama dormindo.

O escritório da Enplug tem seis quartos e três banheiros num imóvel que lembra um casarão de fazenda no bairro de Bel Air, em Los Angeles. O diretor-presidente mais 12 dos 37 funcionários moram e trabalham lá. A ideia é viver e respirar o trabalho 24 horas por dia, sete dias por semana, sem ter a necessidade de se deslocar para o escritório e tendo poucas distrações externas.

Os funcionários e gerentes se reúnem, trabalham, comem, tomam banho, dormem e se exercitam no mesmo espaço. E, embora haja ocasionalmente momentos um pouco constrangedores, como ter de pedir ao chefe que lave os pratos, empresas como a Enplug afirmam que esse modelo é bom para as relações profissionais, além de permitir economias nas despesas com aluguel e transporte. Além disso, muitos que participam do experimento dizem que pode até ser bastante divertido. Os funcionários que optam por viver no trabalho são geralmente jovens de 20 e poucos anos, que antes viviam em alojamentos universitários.

“Não tentamos separar a vida profissional da vida pessoal”, diz Nanxi Liu, de 23 anos, uma das fundadoras e diretora-presidente da Enplug, que cria outdoors digitais que incorporam conteúdo das redes sociais como tweets. “É um pouco esquisito”, diz ela. “Mas é extremamente eficiente.”

Na Enplug, as pessoas trabalham o tempo todo. Os engenheiros muitas vezes varam a noite programando software e vão dormir só ao meio-dia, enquanto os gerentes de contas acordam cedo para participar de reuniões com clientes fora do escritório.

Os cinco fundadores da Enplug, a maioria recém-formados, decidiram morar juntos no ano passado para economizar, trabalhando em um apartamento pequeno — um cenário familiar para muitas empresas novatas.

Mas mesmo depois que a empresa começou a crescer, eles continuaram morando e trabalhando juntos. Em vez de alugar um escritório, eles alugaram uma casa maior.

A maioria dos funcionários que vivem na casa recebe um salário modesto, enquanto os fundadores optaram por não receber salário, usando o lucro gerado pela empresa para pagar o aluguel, despesas da casa e comida. A limpeza é dividida entre os moradores e uma zeladora que visita a casa uma vez por mês, mas não há um conjunto formal de regras.

Dois funcionários da Enplug se casaram semanas antes de se mudar para o imóvel em novembro.

“Estávamos um pouco receosos em viver junto com um monte de gente”, diz Bruno Denuit-Wojcik, que foi morar no escritório com sua mulher Justyna. O casal, ambos desenvolvedores de software de 30 anos, dizem que as vantagens práticas, como ter comida e aluguel de graça, compensam a falta de privacidade.

Não existem dados disponíveis sobre o número de empresas americanas cujos funcionários moram no local de trabalho, mas Nancy Rothbard, professora da faculdade de administração Wharton, da Universidade da Pensilvânia, que estudou os limites estabelecidos entre funcionários, diz que o desafio para as pessoas que trabalham nesse tipo de companhia se compara ao de membros de uma mesma família que trabalham juntos num negócio familiar. “Os limites se diluem”, diz Rothbard. “Se você tem um dia ruim no trabalho, o bom é que pode conversar com alguém que vai te entender. O lado ruim é que você não tem para onde correr quando quiser fugir do problema.”

Não são apenas empresas novatas que estão oferecendo aos funcionários habitação no escritório. Na gigante americana de eletrodomésticos Whirlpool Corp.,  trainees da equipe de vendas vivem juntos por cerca de dez semanas numa mesma casa, que foi inspirada pelo reality show “Na Real MTV”.

Os funcionários dividem um apartamento num condomínio com oito quartos em St. Joseph, no Estado de Michigan, equipado com aparelhos da marca Whirlpool, além de eletrodomésticos de empresas rivais. Os moradores cozinham, limpam e recebem clientes e colegas em equipe. A meta do programa é dar aos funcionários uma possibilidade de imersão, para que eles se tornem especialistas nos produtos que vão vender, além de criar laços afetivos com os colegas.

Durante o período de dez semanas, os membros preparam mais de 210 refeições, lavam e secam cerca de 110 cargas de roupas e usam a máquina de lavar louças umas 85 vezes, informa a empresa.

Allison Gillespie, que completou o programa em 2004 e agora ajuda a montar as equipes de trainees, diz que a empresa quer que os jovens funcionários adquiram experiência colocando a mão na massa. “Havia um rapaz no meu grupo que nunca tinha lavado roupa na vida”, diz ela.

Mas existem momentos difíceis quando os funcionários vivem juntos.

A FiveStars Inc., firma de San Francisco que oferece serviços de fidelização de clientes para empresas e que emprega 100 pessoas nos Estados Unidos, aluga casas em várias cidades do país, incluindo Denver, Houston, Seattle e Los Angeles, nas quais os funcionários podem trabalhar e dormir.

No ano passado, Victor Ho, de 27 anos, um dos fundadores e diretor-presidente da FiveStars, e um companheiro de casa, o gerente de operações Eric Burdullis, de 25 anos, estavam fazendo avaliações de desempenho no sofá da sala, na frente de outros colegas que também moravam no imóvel.

No fim de uma conversa tensa de duas horas, não havia para onde se esconder, então os dois “acabaram no sofá de novo, bebendo uma cerveja”, diz Burdullis. Depois da experiência, eles decidiram fazer reuniões de feedback num bar próximo da casa.

Fonte: The Wall Street Journal