A Berkshire Hathaway Inc. fechou a compra da fabricante americana de peças aeronáuticas Precision Castparts Corp. por cerca de US$ 32 bilhões em dinheiro, na maior aquisição já realizada pelo conglomerado do investidor Warren Buffett.

A oferta de US$ 235 por ação, anunciada ontem, representa um prêmio de 21% sobre a cotação de fechamento das ações da Precision na sexta-feira. Incluindo dívidas, a transação é avaliada em US$ 37,2 bilhões, o que a torna a maior aquisição em um ano que já viu vários negócios vultosos.

A aquisição é uma aposta de Buffett que as companhias aéreas continuarão alimentando um boom na manufatura aeroespacial. A indústria está vivendo uma onda de consolidação, à medida que os fabricantes ampliam a produção para atender as encomendas de milhares de aviões que obtiveram.

Sediada na cidade de Portland, a Precision Castparts fabrica peças como lâminas de turbinas e prendedores para aviões, além de outros equipamentos para estações de energia e para a indústria de petróleo e gás. No ano passado, quase 75% das vendas da empresa vieram do setor aeroespacial.

As ações da Precision Castparts subiram 19,1% ontem, para quase US$ 231. O papel começou o ano negociado em até US$ 242,2, mas recuou desde então em meio à fraqueza do setor petrolífero, afetado pela queda nos preços do petróleo. A ação classe A da Berkshire caiu em torno de 0,1% ontem, para US$ 215,30.

A Berkshire já era um dos maiores acionistas da Precision, com uma fatia de 3%. Como parte do acordo, a fabricante vai se tornar uma unidade da Berkshire, mantendo seu nome e sua sede. A transação ainda precisa da aprovação dos reguladores e acionistas, mas deve ser concluída no primeiro trimestre de 2016.

Numa entrevista à rede americana CNBC ontem, Buffett disse que o negócio, que o The Wall Street Journal foi o primeiro a divulgar no sábado, vai tirar a Berkshire da caça de “elefantes”, como ele chama as aquisições de grande porte, pelos próximos 12 meses, para que a empresa recomponha o seu caixa. Ele espera captar US$ 10 bilhões para financiar a aquisição.

Ainda assim, Buffett observou que a Berkshire provavelmente vai fazer aquisições menores nos próximos meses.

A incorporação da Precision vai mudar uma vez mais a composição do conglomerado de Buffett, sediado em Omaha, no Estado americano de Nebraska.

Através de uma série de grandes aquisições realizadas nos últimos dez anos, a Berkshire se transformou de uma empresa com lucros altamente dependentes do setor de seguros em outra que fatura com ferrovias, serviços públicos, manufatura, construção, alimentos de marca e até mesmo venda de automóveis.

Buffett gosta de dizer que é dono de 9,5 empresas tão grandes que, se fossem independentes, todas pertenceriam à lista da Fortune 500. A Precision, que tem uma receita anual de US$ 10 bilhões e lucro de US$ 1,5 bilhão, vai se unir a esse grupo.

O negócio, que também é um dos maiores de 2015, o ano mais ativo em fusões e aquisições desde 2007, ocorre apenas meses depois da fusão de US$ 50 bilhões entre as gigantes alimentícias Kraft Foods Group e H.J. Heinz, que criou uma empresa da qual a Berkshire possui 50%.

Durante a entrevista na rede CNBC, Buffett descartou especulações que a nova Kraft Heinz poderia comprar a Mondelez International Inc. no curto prazo, uma sugestão feita pelo investidor ativista William Ackman após este ter anunciado um investimento de US$ 5,5 bilhões na fabricante dos biscoitos Oreo e chocolates Bis.

“Na Kraft Heinz, temos um par de anos de trabalho pela frente”, disse ele. “Francamente, a maioria das empresas de alimentos [tem preços] que dificultaria muito fazer um acordo, mesmo se tivéssemos feito todo o trabalho necessário na Kraft Heinz.”

Buffett precisou passar só meia hora com o diretor-presidente da Precision, Mark Donegan, para decidir que a aquisição valia a pena. E Donegan nem havia proposto a transação. O investidor disse que ficou impressionado com o conhecimento e paixão de Donegan pelo seu negócio. “O cara é fantástico”, disse Buffett numa entrevista ontem ao WSJ. “Ele é tão apaixonado por sua empresa como eu sou pela Berkshire, e isso diz muito.”

Depois que o negócio for concluído, Donegan, que tem 59 anos, continuará no comando da empresa em que trabalha desde 1985 e lidera desde 2002. Buffett disse que não teria fechado o negócio se não estivesse “100% certo” de que Donegan lideraria a empresa por muito tempo.

A capacidade de Buffett de identificar bons gestores há muito é vital para o funcionamento da Berkshire como uma holding gigante, com cerca de 80 unidades operacionais e 340 mil funcionários. Os gestores de Buffett administram suas unidades de forma independente, com pouca interferência dele.

Donegan, de fato, parece ser o tipo do gestor que Buffett aprecia: discreto, consciente dos custos e profundamente envolvido no negócio. Ele também é um reconhecido negociador, tendo gasto mais de US$ 7 bilhões em várias aquisições nos últimos três anos que colocaram a empresa na elite do setor de componentes aeronáuticos.

“Vemos um alinhamento único entre a filosofia de gestão e investimento de Warren e como nós administramos a PCC para o longo prazo”, disse Donegan num comunicado.

Apesar do rápido crescimento da Precision, a cotação de suas ações foi prejudicada por uma série de problemas de produção, redução de estoques de um de seus maiores clientes e a exposição de sua área de dutos ao setor de petróleo. Durante os últimos cinco anos, a ação da Precision ficou abaixo do índice S&P 500 em quase 30 pontos percentuais. Como múltiplo das estimativas de lucro futuro, a cotação tem ficado atrás do mercado como um todo desde o início do ano.

O negócio também traz Buffett de volta aos seus fundamentos. A Precision usa uma tecnologia complexa e própria para fabricar componentes para algumas das maiores companhias aeroespaciais. Dada a natureza do negócio, as barreiras à entrada de novos concorrentes serão provavelmente altas, o que proporciona à Precision a espécie de proteção econômica que permite a empresas prosperar por um longo tempo.

O acordo permitirá, ainda, que a Berkshire use boa parte de seu caixa. Buffett diz que gosta de ter um colchão de US$ 20 bilhões sempre, mas o caixa da Berkshire totalizava US$ 67 bilhões no fim do segundo trimestre. Na assembleia anual da Berkshire no ano passado, Buffett disse que estava disposto a fazer um negócio de até US$ 50 bilhões, usando dinheiro do caixa da empresa e empréstimos a juros baixos. Em 2010, ele usou dinheiro e ações para pagar pela maior aquisição da Berkshire até então: a compra, por US$ 26 bilhões, dos 77% que ela ainda não detinha na companhia ferroviária BNSF Railway Co.

 

Fonte: The Wall Street Journal