Copa do Mundo, eleições, desaceleração do crescimento, escândalos na Petrobras, expectativa de alta do juro nos Estados Unidos e fortalecimento do dólar. Foram muitos ingredientes que pesaram contra o portfólio em 2014. Em meio ao fogo cruzado, o investidor migrou para os produtos conservadores, onde foi recompensado com retorno de dois dígitos graças ao ciclo de alta de juros. A inflação, em patamar elevado, somente foi superada por ativos de renda fixa e pela moeda americana.

O Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), referência para aplicações conservadoras, marcou 10,81% no ano. O IMA-B, índice que reflete uma cesta de títulos indexados à inflação, avançava 14,48%, na esteira de um ajuste na expectativa para os juros. As taxas tinham engordado ao fim de 2013 com a espera da elevação do juro pelo banco central americano, que ainda não veio. A quebra de expectativa levou à redução nos prêmios. Pelo mesmo movimento, o IRF-M, que reúne os papéis prefixados, registrava alta de 11,35%.

O portfólio sofreu com a falta de tendências e oportunidades. “Foi como subir a serra, naquele cenário de neblina total, em que você tem que ficar grudado no volante, com a velocidade no mínimo”, diz Aline Sun, que seleciona produtos para a plataforma on-line de investimentos Guide. Nesse contexto, as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), que contam com isenção fiscal, foram, segundo Aline, a melhor aplicação para o cliente em 2014, ao garantir um percentual elevado do CDI.

Quem se posicionou no dólar, teve ganhos significativos, de 12,84% no ano. A moeda ganhou valor globalmente com a recuperação da economia dos Estados Unidos, enquanto a economia chinesa sofria desaceleração e as europeia e japonesa, estagnação, aponta o administrador de investimentos Fabio Colombo. Ele aponta ainda eventos como as crises na Ucrânia e na Argentina e a anexação da Crimeia pela Rússia, que reforçaram a aversão ao risco.

Dentre os fatores internos que ditaram o comportamento volátil dos ativos, destacaram-se a alta da inflação, o baixo crescimento, a política fiscal frouxa e a eleição, aponta Marcelo Mello, vice-presidente da SulAmérica Investimentos. Essas incertezas aliadas ao aperto monetário local, diz, tiraram o apelo da bolsa.

“Os profissionais de mercado erraram muito as previsões”, ressalta Colombo. A projeção para a taxa básica de juros no começo do ano era de 10,5%, abaixo dos 10,75% a que o Banco Central chegou em dezembro, aponta. Para o dólar, a projeção era de R$ 2,44, bem abaixo do nível atual, mais próximo de R$ 2,70. A estimativa para o crescimento da economia estava em 2,1%, longe do que vai ser realizado, mais perto de zero. E o Ibovespa, aponta Colombo, ficou mais perto dos 50 mil do que dos 60 mil esperados.

O Ibovespa, principal índice da bolsa, acumulou prejuízo de 2,91%. O Índice Small Cap, formado por ações de menor liquidez, ficou ainda mais prejudicado, com desvalorização superior a 16%.

Entre os ventos contra o desempenho do Ibovespa o destaque é Petrobras, diz Ricardo Kim, analista-chefe da XP. As eleições provocaram uma volatilidade expressiva no preço do papel, que chegou a ter forte alta em alguns períodos. Predominaram, entretanto, para a queda superior a 37%, os efeitos da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, e o adiamento da divulgação do balanço do terceiro trimestre. “Tudo isso tem pesado bastante porque a empresa está bastante alavancada e precisa ter acesso a capital”, afirma Kim.

Outra gigante da bolsa, a Vale sofre com a queda do preço do minério, que permanece com perspectiva negativa. Os fundamentos ruins da economia doméstica também prejudicaram o setor siderúrgico de forma geral, com base em dados como vendas ruins e férias coletivas em montadoras. Sofreram ainda, aponta Kim, empresas alavancadas, como de construção civil e concessões rodoviárias, por conta da alta do juro e da desaceleração da atividade econômica.

Do lado positivo, na renda variável, destacaram-se – e mantêm perspectivas positivas para 2015, na opinião do analista da XP – empresas com receita em dólar e cujos produtos não têm os preços prejudicados globalmente, como Embraer. Em outra frente, os bancos avançaram ao reportar ganho de eficiência e corte de custos. São, entretanto, casos pontuais. “Estamos muito céticos quanto à bolsa para 2015”, diz Kim, que prefere não cravar uma previsão, mas que não enxerga uma mudança de patamar para o Ibovespa. Talvez se observe algum impulso no fim do próximo ano, diz, caso as medidas da nova equipe econômica comecem a mostrar efeito.

Se investidores e agentes de mercado comprarem a postura mais ortodoxa da nova equipe econômica e o apoio do governo, é possível ver uma recuperação dos mercados, especialmente da bolsa, já em 2015 como forma de antecipação de um 2016 mais pujante, diz também Mello, da SulAmérica. “Mas o mercado é como São Tomé, vai esperar as medidas e a postura ortodoxa para só então comprar a história. Uma eventual antecipação não deve ocorrer antes do primeiro trimestre ou até semestre”, afirma.

Para quem aceita mais pimenta e quer aproveitar o nível de preço convidativo, a bolsa é uma opção em 2015, segundo Mello. A dúvida é se a recuperação econômica vai ser incorporada aos preços já no próximo ano ou mais para frente. “Para quem tem tempo, paciência e estômago, a bolsa é uma baita oportunidade”, diz. Veja também: NTN-B com vencimento próximo é pé no risco em 2015.

Fonte: Valor Econômico