A combinação entre desaceleração da economia local e expectativa de que o dólar se mantenha forte por um prazo mais longo abre espaço para que um grupo de empresas de setores diversos aposte em uma produção cada vez maior a partir de fábricas estrategicamente localizadas no exterior ou de braços comerciais para melhorar a distribuição.

A ideia é garantir maior acesso a mercados com potencial de crescimento e diversificar riscos, seja por meio de ampliação de produção de fábricas já existentes, aquisições de empresas ou parcerias com empresas locais. Para os executivos de companhias como Marcopolo, Tupy, WEG, Romi, Randon e Dohler, o Brasil segue como parte importante do faturamento, mas o apelo externo ganha força.

Dados do Banco Central corroboram a tese ao apontar que os investimentos produtivos de empresas brasileiras fora do país cresceram 28,3% no primeiro trimestre de 2015 em relação a igual período do ano passado, de US$ 6,4 bilhões para US$ 8,2 bilhões, revertendo, segundo Luis Afonso Lima, economista-chefe da Mapfre Investimentos, um processo de repatriação de recursos de filiais para suas matrizes brasileiras ocorrido com frequência entre 2011 para 2013.

“As empresas enxergavam mais oportunidades aqui do que lá fora e agora isso se inverteu”, diz Lima, que é também diretor da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), ao ressaltar que, no período, 98% dos recursos foram enviados para o exterior sob a forma de investimento conhecida como participação no capital (mais estável).

Na Marcopolo, fabricante de carrocerias de ônibus, a expectativa é de um melhor desempenho das unidades do exterior em 2015, com destaque para as unidades da Austrália e do México, país no qual a Marcopolo começou a produzir em 2014 um novo modelo de ônibus rodoviário. Na Austrália, diz Ricardo Portolan, gerente de operações comerciais do mercado externo da Marcopolo, a aposta é em maior eficiência operacional. “A expectativa também é que nossos concorrentes asiáticos fiquem um pouco mais caros, já que lá o dólar não andou tanto. E aí diminuímos a diferença que tínhamos em termos de preço e conseguimos entrar nesses nichos”, diz Portolan.

Para o diretor financeiro da Tupy, Leonardo Gadelha, a estratégia de expandir as atividades para o exterior se justifica não só pela expectativa de crescimento da receita, mas também pela redução do risco de depender de apenas um mercado. Segundo Gadelha, o enfraquecimento dos números da indústria automobilística no Brasil – o carro-chefe da Tupy é a fabricação de motores – também tem contribuído para o avanço. Desde 2012, quando a empresa adquiriu ativos no México, a participação do mercado externo na receita subiu de 63% para 72% da receita total.

Atualmente, a Tupy não vê necessidade de expansão das duas plantas mexicanas para atender a demanda adicional dos próximos anos, mas admite estar de olho nas oportunidades. “Claro que o momento que passamos requer cautela extra. Mas temos olhado ativos no exterior e isso pode ser uma avenida de crescimento para a companhia”, diz Gadelha.

Com plantas fabris no México e na China, a Weg também olha ativos no exterior com atenção, diz Luis Gustavo Iensen, diretor superintendente internacional da companhia. Para ele, a perspectiva neste momento é de que a produção para o mercado externo cresça mais rapidamente nas fábricas fora do país do que nas domésticas.

Já em 2015, conta Iensen, a capacidade de produção da empresa deve se expandir de 30% a 40% em relação a 2014 tanto na China quanto no México. As plantas da China devem atender prioritariamente ao mercado local, com exportação de excedentes para o sudeste asiático. Já a produção mexicana mira os Estados Unidos. A expansão de capacidade inclui um processo de verticalização, pelo qual componentes hoje comprados localmente passarão a ser produzidos pela própria companhia nas unidades da China e do México. “A ideia com isso é garantir flexibilidade de produção, competitividade e controle de qualidade”.

O mercado brasileiro, diz Iensen, ainda está no foco, mas o avanço de receitas de exportação da empresa este ano tem sido puxado pelo ganho de fatia de mercado nos EUA e na China. A desvalorização do peso mexicano, diz ele, tem dado à produção da unidade local maior competitividade nas vendas aos americanos, o que possibilitou conquista de mercado.

O renmimbi chinês vai em sentido oposto, com tendência de maior valorização frente ao dólar, mas isso não traz grande impacto porque a produção chinesa é voltada prioritariamente para o mercado local, diz Iensen. “Não há como vender na China se não produzirmos lá.” Além disso, complementa, os atrativos na China são os baixos custos de mão de obra e de insumos em um mercado que promete crescer e se sofisticar.

Por conta disso, a unidade chinesa também deve ficar responsável pela fabricação de uma linha de motores com exportação destinada aos americanos. Atualmente, diz Iensen, esses motores são fabricados no Brasil e na China, mas até o fim do ano a linha de produção desse motor específico será exclusivamente chinesa. A ideia é buscar os locais de melhor competitividade, ampliando mercados e diversificando produtos. No mercado doméstico, diz ele, uma das grandes apostas é a área de energia eólica, no desenvolvimento de tecnologias com potencial para ser exportadas no futuro.

Também com unidade na China, o grupo Randon, fabricante de implementos rodoviários e de componentes automotivos, vê na internacionalização de produção uma estratégia importante para gerar resultados em um momento em que o mercado interno promete ficar mais difícil.

No caso do grupo, diz David Randon, presidente da companhia, a internacionalização de produção está concentrada em peças e componentes. A produção fora do país desses produtos é via Fras-le, empresa do grupo que fabrica componentes para freios e tem plantas no Brasil, na China e no Alabama, EUA. “Esses produtos seguem padrão e regulação mais globalizados”, diz. Com isso, a produção em um determinando setor pode atender à demanda de empresas de vários países.

A companhia mantém ainda a unidade de fabricação de reboques e semirreboques em território argentino. David Randon reconhece que a economia do país vizinho também em desaceleração esfriou a demanda local, mas pondera que o investimento se mantém importante não só por conta do intercâmbio já realizado com a unidade, mas também porque a fábrica argentina serve de plataforma de exportação para países como Chile, Uruguai e até para o continente africano. A companhia tem também estudado ampliar joint ventures com empresas locais para ganhar mercado.

A WEG tem estratégia semelhante. Depois de anunciar, em abril, a aquisição de uma fábrica de transformadores de alta tensão e disjuntores na África do Sul, a WEG tem planos de novos negócios ainda este ano e estão no radar empreendimentos em geração e transmissão de energia, motores, automação industrial e tintas e vernizes, em regiões como os EUA, Europa e mercados emergentes. Em 2013 a WEG já havia adquirido um negócio de fabricação transformadores e mini subestações no mesmo país e em dezembro de 2014 a empresa também anunciou a aquisição de uma fabricante de motores elétricos na Alemanha.

Algumas indústrias não chegaram a investir em produção no exterior, mas em braços comerciais que atendam determinados nichos de mercado. É o caso da Döhler, do setor têxtil, que instalou em 2010 um centro de distribuição com a ideia de atingir o pequeno e médio varejista. Carlos Alexandre Döhler, diretor comercial da companhia, explica que as vendas a grandes varejistas desembarcam diretamente do Brasil, mas os menores volumes, que são inviáveis se exportados isoladamente, são atendidos pelo braço comercial instalado na Flórida.

Döhler conta que o centro de distribuição foi mantido no período de real mais valorizado, mas agora há expansão de vendas com a melhora de competitividade dada pelo câmbio. As vendas ao mercado americano devem crescer acima da média das exportações da empresa, enquanto o mercado sul-americano, que responde por mais da metade dos embarques da empresa, mantém a mesma demanda de volume do ano passado.

O radar das indústrias se estende ao velho continente. Na Romi, a expectativa é que o desempenho da BW, subsidiária da companhia na Alemanha, compense o resultado menos favorável do mercado doméstico. Com o norte da Europa e os países asiáticos como principais destinos, a unidade alemã trabalha com máquinas com ciclo de produção de 12 a 15 meses e opera praticamente em plena capacidade. Segundo Cassiano Rosolen, presidente da Romi, a BW deve ter este ano faturamento em euros próximo ao do ano passado. Na conversão em reais a contribuição deve ser maior no consolidado, já que a expectativa é de que o câmbio de 2015 seja de real mais desvalorizado frente ao euro do que o do ano passado.

O panorama da empresa alemã por enquanto é melhor que o da fábrica brasileira. A entrada de pedidos de máquinas ferramenta e injetoras de plástico caiu 55% em volume no primeiro trimestre deste ano, contra iguais meses do ano passado. “É uma redução expressiva. A avaliação é de que a produção para o mercado doméstico irá andar de lado este ano.” Rosolen explica que há estudos de expansão para a produção da unidade alemã, mas a companhia espera um aumento de demanda mais sustentável para tirar a ideia do papel. De qualquer forma, principalmente em razão do mercado doméstico, a BW deve continuar fazendo diferença no desempenho global da empresa. Em 2014, diz o presidente da companhia, a unidade alemã respondeu por praticamente metade do Ebitda, o lucro antes de juros, impostos e amortização.

Lima, da Sobeet, lembra que uma fatia cada vez maior do fluxo global de investimentos vem dos países em desenvolvimento. A participação destes países como origem de fluxos subiu de 11,9% em 2000 para 32,2% em 2013, último dado disponível. “O Brasil ficou fora disso nos últimos anos porque o mercado interno estava muito pujante. Agora a gente entra nessa onda novamente”.

Fonte: Valor Econômico