Empresas médias atraem fundos

  • 15 de setembro, 2014

Com acesso mais restrito a recursos em um cenário de desaceleração da economia, as empresas de médio porte se tornaram um alvo em potencial para os fundos de private equity, que investem na compra de participações em companhias. O momento adverso não só não diminuiu o interesse dos fundos como é apontado como uma oportunidade de realizar negócios em condições melhores.

Dados da empresa de auditoria e consultoria PwC mostram que os fundos seguem ativos nos investimentos em empresas de todos os portes. De janeiro a julho deste ano, eles participaram de 167 operações de fusões e aquisições, o equivalente a 36% do total de operações realizadas no país.

No caso específico das companhias médias, os gestores de fundos avaliam ser possível obter bons resultados apesar da conjuntura econômica desfavorável. “O cenário macro afeta a todos, mas a experiência mostra que o desempenho das empresas médias têm maior correlação com eventos microeconômicos”, diz Fernando Marques Oliveira, principal executivo da gestora americana H.I.G. Capital no país.

Com foco em investimentos em empresas com geração de caixa (Ebitda) de R$ 15 milhões a R$ 70 milhões, a H.I.G. aposta no crescimento das empresas por meio da expansão geográfica e lançamento de novos produtos, o que diminui a influência da conjuntura macro nos resultados, segundo Oliveira. Diferentemente da maior parte das grandes empresas, as companhias de médio porte de um modo geral ainda não passaram por processos de profissionalização da gestão, o que também contribui para melhorar o desempenho.

Desde que chegou ao país, em 2012, a H.I.G. realizou cinco investimentos. O mais recente, em abril deste ano, foi a aquisição de uma participação na Office Total, fornecedora de serviços de impressão. Um novo negócio deve ser concluído nas próximas semanas, afirma o executivo. “Não passamos um dia sem um processo de negociação em andamento”, diz Oliveira.

Embora também siga na ativa em busca de novos negócios, Fábio Maranhão, sócio da Axxon Group, acredita que a redução no ritmo da economia demanda maior prudência por parte dos fundos. “Não é o momento de ser corajoso de maneira inconsequente”, afirma.

A Axxon tem como estratégia investir em companhias com receita anual de até R$ 400 milhões, em posição de controle. A gestora recentemente fechou dois negócios: a compra da concessão da Marina da Glória pela BR Marinas, uma das empresas do portfólio mais recente, captado em 2011 e com patrimônio de US$ 315 milhões. O outro foi a venda da Mundo Verde, rede de franquias de produtos naturais que pertencia ao fundo anterior, para o empresário Carlos Wizard Martins.

Uma forma comum usada pelos gestores de private equity de escapar da tendência macro é investir em setores pouco correlacionados com o desempenho da economia. Mas, até mesmo em empresas de médio porte em segmentos mais afetados pela atividade fraca, os fundos enxergam oportunidades. “Com os recursos do fundo, a companhia pode partir para aquisições e obter sinergias com o antigo concorrente”, afirma Chu Kong, sócio da britânica Actis.

A gestora está no Brasil desde 2010 e busca negócios com faturamento entre R$ 100 milhões a R$ 300 milhões de receita. “É no segmento de médio porte que se encontram as maiores oportunidades no mercado brasileiro”, diz o executivo da Actis, que tem no portfólio empresas como a corretora XP Investimentos e a rede de ensino superior Cruzeiro do Sul.

Com horizonte de longo prazo, o ciclo econômico atual exerce pouca influência nas decisões dos gestoras de private equity, segundo Kong. “Para os fundos captados no exterior, o único efeito potencialmente negativo vem do câmbio, em especial no momento da entrada e da saída das companhias”, afirma.

O retorno dos fundos de private equity vem, entre outros fatores, da capacidade de comprar “barato” e vender “caro” as participações nas companhias. Por isso, períodos mais fracos da economia costumam ser vistos como uma oportunidade de investimento, já que a disputa pelos ativos é menor.

“O private equity em geral é menos competitivo em relação a investidores estratégicos ou ao mercado de capitais quando a economia vai bem”, diz o advogado Henry Sztutman, sócio do escritório Pinheiro Neto. Para ele, o país entrou definitivamente na rota de investimento dos fundos e não deve sair do radar mesmo como o resultado fraco do PIB nos últimos anos.

O calendário apertado com eventos como Copa e eleições atrasou alguns negócios, mas o ritmo voltou ao normal nos últimos meses, segundo Christian Gamboa, sócio da PwC. “Os fundos estão participando mais das operações, até diante da menor presença de investidores estratégicos”, afirma o especialista, que não espera uma redução nas operações nas semanas que antecedem as eleições.

Fonte: Valor Econômico