Os caminhos políticos divergentes seguidos pelas economias desenvolvidas do mundo fornecem lições para líderes globais às voltas com um difícil cenário pós-crise.

Os Estados Unidos e o Reino Unido parecem que encontraram o caminho certo, enquanto a zona do euro e o Japão perderam a trilha. Numa mostra de que continua ganhando força, a economia americana se expandiu a uma taxa anualizada e dessazonalizada de 3,9% no terceiro trimestre, melhor desempenho trimestral desde 2003, divulgou ontem o Departamento de Comércio dos EUA. A economia do Reino Unido vem tendo um dos melhores desempenhos do mundo desenvolvido este ano, ainda que tenha desacelerado um pouco no terceiro trimestre, para uma taxa anualizada de 2,8%, segundo estimativa do governo britânico.

As taxas de desemprego, que após a crise atingiram um pico de 10% nos EUA e 8,5% no Reino Unido, caíram respectivamente para 5,8% e 6%. Na zona do euro, o desemprego subiu para 11,5% nos últimos anos e a economia japonesa entrou em recessão.

Os bancos centrais dos EUA e Reino Unido abraçaram políticas agressivas de afrouxamento monetário desde o início. Já o Japão elevou o imposto sobre vendas para reduzir déficits orçamentários, enquanto a Europa demorou a fortalecer seus bancos e priorizou a austeridade fiscal.

Aqui estão três lições desses experimentos de criação de políticas no mundo pós-crise:

Afrouxamento monetário ajuda a resolver um enigma econômico duradouro. O que os bancos centrais podem fazer para ajudar a economia depois que os juros de curto prazo alcançaram a “barreira do zero”? Quando os juros estão próximos de zero, os BCs perdem uma ferramenta normalmente empregada quando a economia está fraca: cortes nos juros de curto prazo. Juros baixos encorajam empréstimos, gastos e investimentos, ajudando a estimular a atividade econômica.

O Federal Reserve, banco central dos EUA, que cortou os juros de curto prazo para quase zero no fim de 2008, enfrentou esse problema com uma política conhecida como relaxamento quantitativo. A prática envolve a compra de títulos do Tesouro com vencimentos longos e de hipotecas com o objetivo de reduzir os juros de longo prazo e levar investidores para outros ativos, como ações ou papéis corporativos, de forma a impulsionar a economia.

 

O Fed lançou o primeiro programa de relaxamento quantitativo em 2009 e o Reino Unido o adotou logo depois do surgimento da crise. O Banco do Japão abraçou o uso agressivo dessa ferramenta em meados de 2013, enquanto o Banco Central Europeu só agora começa a usá-la.

Os potenciais efeitos colaterais dessa flexibilização — uma explosão da inflação ou uma nova bolha financeira — não se materializaram até o momento. A inflação está abaixo da meta de 2% ao ano nessas quatro economias, mas está chegando perto desse limite nos EUA e no Reino Unido, enquanto segue bem atrás da meta na zona do euro e Japão. Embora alguns nichos do mercado financeiro pareçam tensos, bolhas perigosas ainda não são óbvias. Os benefícios do relaxamento ainda são assunto de debate entre economistas, mas dada a recuperação mais acentuada dos EUA e Reino Unido, parece que a medida ajudou os países que a adotaram. “Aprendemos que ferramentas não convencionais são eficazes quando os juros atingem zero”, diz Stephen Cecchetti, professor de economia da faculdade de administração Brandeis International.

Coloque seu balanço fiscal em ordem quando possível para poder responder quando necessário. A presidente do Fed, Janet Yellen, disse num discurso este mês que os governos precisam “melhorar significativamente a estrutura de seus balanços fiscais em tempos bons para ter mais espaço para fornecer estímulos quando a situação ficar ruim”.

O Japão é um exemplo de país que deixou sua dívida inchar, para 1,35 vez o PIB, ante 0,8 nos EUA e Reino Unido, segundo o Fundo Monetário Internacional. Tentativas para reduzir a dívida agora estão interferindo na campanha do primeiro ministro Shinzo Abe para tirar a economia da recessão. Em novembro, o governo informou que a economia se contraiu pelo segundo trimestre consecutivo, devido, em grande parte, ao aumento do imposto sobre consumo adotado para reduzir a dívida.

Nos EUA e Reino Unido, ao contrário, a política fiscal é mais flexível, o que levou o déficit do orçamento de curto prazo do governo a crescer e gradualmente cair depois da crise. Mas os EUA fracassaram nas suas medidas para controlar os déficits de longo prazo, o que pode ser um problema no caso de outra crise.

Injete dinheiro nos bancos rapidamente, em vez de forçá-los a encolher. Cecchetti argumenta que o desenrolar da história nos EUA e Europa são diferentes em parte porque as regiões recapitalizaram seus bancos de formas distintas. Os bancos europeus aumentaram a proporção entre capital e ativos de risco ao reduzir carteiras de empréstimos e evitar operações arriscadas. Em outras palavras, eles reduziram o denominador da relação capital/ativos de risco. Os bancos dos EUA, por outro lado, aumentaram seu capital, o numerador. As empresas que elevaram capital ressurgiram com mais disposição para emprestar, diz Cecchetti.

Um estudo do BIS, o Banco de Compensações Internacionais, mostra que os bancos dos EUA elevaram seu capital em US$ 203 bilhões entre o fim de 2009 e o fim de 2012, ante US$ 108 bilhões dos bancos europeus. No período, os bancos europeus reduziram os ativos de maior risco em US$ 1,5 trilhão, ante US$ 154 bilhões dos bancos dos EUA.

“Bancos fracos não emprestam, consumidores muito endividados não gastam, e empresas com baixas perspectivas não investem”, conclui Cecchetti.

Fonte: The Wall Street Journal