É fácil criticar a estratégia de aquisições de Larry Ellison. Sua Oracle tem raízes no antiquado modelo de licenciamento de softwares, mas compra as mais badaladas empresas de “software como serviço (Saas, na sigla em inglês)”. Os preços são altos e o impacto no crescimento da Oracle, muitas vezes, é apenas modesto. A compra da Micro Systems, por US$ 5 bilhões, anunciada ontem, não se encaixa nesse roteiro. A Micros Systems fornece aparelhos para pontos de venda (leitores de cartões de crédito e similares), assim como softwares (em sua maioria do tipo licenciado) para restaurantes e hotéis. Mas o debate entre “licenciamento versus Saas” não se aplica ao que a Oracle está fazendo: acumular uma ampla linha de aplicativos, que possa ser entregue de qualquer forma, para vários setores e várias funções.

Os softwares da Micros Systems gerenciam pagamentos, reservas e horários de funcionários em 330 mil locais pelo mundo. Para a Oracle, isso significa 330 mil novos lugares para vender seus próprios programas, como os de marketing ou recursos humanos. Para Wedbush, o preço de compra, equivalente a 13 vezes o Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização (Ebitda), compara-se favoravelmente ao que a NCR pagou pela Radiant Systems, rival da Micro, em 2012, de 18 vezes o Ebitda.

Apesar de a notícia sobre a transação ter vazado, a Oracle não a anunciou com o balanço do quarto trimestre, na quinta-feira. A receita teve baixo crescimento e as ações caíram 4%. Ainda assim, depois dos trimestres fracos no início de 2013, as ações da Oracle subiram 35% nos últimos 12 meses. Agora, a empresa anuncia separadamente os resultados de suas operações de Saas que, embora representem menos de 5% das vendas consolidadas, crescem a um ritmo superior a 10% (as operações principais apresentaram estagnação).

A estratégia de Ellison está ficando mais clara. Combinar compras sensatas como a da Micros Systems com apostas de maior risco em nomes promissores. Evitar totalmente transações gigantescas. E, enquanto isso, manter margens altas de lucro e devolver bilhões em dinheiro aos investidores. Ellison tem uma reputação ostentosa, mas a abordagem moderada lhe cai bem.

Fonte: Valor Econômico