Fintechs

Em serviços financeiros, os índices de satisfação dos usuários são historicamente muito baixos em comparação a outros setores da economia, e mudar essa imagem de vilão sempre foi um grande desafio para o setor. Mas agora, com as Fintechs em evidência, revolucionando processos que antes eram burocráticos e morosos, por meio da tecnologia, a maneira como os usuários enxergam o setor vêm mudando.

O termo Fintech era apenas o nome atribuído a um programa de uma aceleradora de Startups, em parceria com a prefeitura de Nova York, para acelerar Startups que ofereciam serviços financeiros. Mas, assim como foi no caso do Gillette, do Cotonete, do Bombril e do Band-aid, Fintech se tornou um termo para designar empresas que unem tecnologia e finanças de forma disruptiva.

Mas antes de falar sobre as Fintechs, vou falar brevemente sobre a evolução das práticas bancárias ao longo da história (muito brevemente!). A origem dos bancos comerciais está atrelado à negociantes de moedas estrangeira. Para manterem seus patrimônios em segurança, eles criaram depósitos seguros e passaram a ser chamados de banqueiros (também encurtando uma longa história). A atividade dos banqueiros declinou quando a Igreja Católica condenou a Usura – prática de cobrar juros sobre empréstimos. Para a Igreja, os juros eram uma forma de explorar um indivíduo que poderia estar passando por uma situação difícil, sendo assim, os empréstimos deveriam ser feitos sem cobrança de nenhuma tarifa adicional.

Com a evolução do pensamento, o advento de algumas revoluções e de uma independência maior da relação População-Igreja, os pensadores começaram a julgar como justo que, a pessoa que emprestou o capital, recebesse parte dos lucros obtidos com o empréstimo, fomentando a economia. A partir daí, criou-se um banco centralizado para emissão de papel moeda e bancos de depósito. Os bancos de depósito representaram um marco no desenvolvimento da teoria monetária visto que, anteriormente, os bancos de depósito funcionavam apenas como mediadores das finanças do soberano sob o aspecto fiscal. Desde então, as práticas bancárias vieram se modernizando, com estruturas cada vez mais complexas, mas nada parecido com a revolução que estamos vivenciando neste momento: a multiplicação das Fintechs.

O conceito de que as atividades que tiveram de ser realizadas até os dias de hoje foram essenciais, mas já podem ser substituídas por algoritmos e tecnologias é a base da ideologia das Fintechs. Além disso, esses empreendedores também acreditam que a integração do sistema financeiro e as instituições financeiras devem ser menos burocráticas e mais transparentes.

Mas como mudar um mercado engessado e liderado por grandes corporações? 

Bom, reinventar um produto/serviço, visando transparência e melhores condições já é algo atrativo para um setor que nunca foi bem visto pelos usuários. Se isso for feito por meio de tecnologia e ideias disruptivas, fica ainda mais atraente. E é isso o que prometem as Fintechs! Os grandes nomes que compõem o mercado financeiro, acreditavam que algumas Startups de cunho Financeiro se tornariam novos entrantes e, assim, concorrentes, mas passaram a enxergar nelas uma oportunidade de investimento para conseguir melhorar seus serviços, lucratividade e ter uma melhor relação com seus clientes. Então, o movimento também criou um ambiente de competição favorável para a população, que passou a desfrutar de melhores serviços, experiências e taxas mais atraentes.

O uso de tecnologias como Learning Machines (Veja aqui o meu artigo sobre as Learning Machines e o desafio não no uso da tecnologia em si, mas na modelagem das soluções oferecidas), armazenamento de dados em nuvem e plataformas digitais facilitam a vida dos usuários e dinamizam o processo que antes era extremamente moroso e burocrático. O fenômeno das Startups Financeiras já está consolidado a ponto da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), reguladora do mercado de capitais brasileiros, bem como o Banco Central do Brasil, montarem comitês de estudos sobre o tema e criarem normas que acompanham as inovações.

Três principais aspectos cederam espaço para a ascensão das Fintechs no Brasil. Como o incentivo por inovação dentro do oligopólio das instituições financeiras sempre foi bem pequeno, a criação de novos players e tecnologias deixaram o mercado mais competitivo e criaram uma nova perspectiva dos usuários quanto ao setor. O segundo aspecto foi a crise econômica que forçou as instituições financeiras a melhorarem sua eficiência e diminuir seus custos. A situação do país também fez com que financiamentos mais fáceis, renegociação de dívidas online, menores taxas para operações bancárias, entre outras soluções facilitadas virassem tendência. O terceiro aspecto que pode ter contribuído com a alta adesão da população às Fintechs no Brasil é a relativa falta de zelo com o cliente por parte das instituições financeiras tradicionais, deixando o brasileiro bastante receptivo a empresas que oferecem atendimentos mais customizados, desenhados de acordo com o perfil de cada cliente, por meio de tecnologia (o que pode tornar o negócio rentável e escalável!).

Outro dado que mostra que para as Fintechs, a atual crise foi realmente uma “marolinha”, é que apesar do mercado bancário no Brasil ainda ter muito espaço para crescer, essas empresas já estão conquistando grande parcela dos consumidores ativos. Segundo pesquisa da Techfoliance (em inglês), empresa global de notícias e análises de Fintechs, mais de 40% da população brasileira ainda não tem conta bancária. Mas, dentre aqueles que possuem, 74% adotaram algum serviço proveniente de Fintechs nos últimos anosIsso corresponde a uma das maiores taxas de adesão à Fintechs do mundo!

O Brasil possui uma das maiores taxas de adesão à Fintechs no mundo

Cito agora alguns exemplos de Fintechs que estão revolucionando o mercado de capitais no Brasil e no mundo (apenas enquanto exemplificação, diversas ficaram de fora dessa lista):

Banco Digital Maré: Atende comunidades onde não há sistema bancário possibilitando o pagamento de contas, compras no mercado local e transferências de valores entre os membros;

Black Swan: Análise de risco para instituições financeiras e governos;

EasyCrédito: Analisa o crédito para os clientes eletronicamente, sem passarem pelo constrangimento de terem o crédito negado presencialmente por seus gerentes;

Nibo: Software de gestão financeira para microempresas que não tem mão de obra destinada ao gerenciamento do Financeiro, mas ainda assim os empreendedores precisam coletar informações estratégicas;

Guia Bolso: Software de gerenciamento de finanças pessoais;

Conta Azul: Software de gerenciamento de finanças empresariais;

Kensho: Oferece uma tecnologia que analisa, através de uma combinação de fatores, qual a melhor solução para um análise complexa. Ela é muito usada pra responder questionamentos de investidores, elaborar relatórios que preveem novas tendências e análise de eventos importantes para o mercado financeiro;

Nubank: Queridinha pelos usuários, a empresa corresponde a uma agência 100% digital, sem custos de manutenção e cartões sem taxas;

Kitado: Plataforma online de negociação de dívidas pessoais. Funciona da seguinte maneira: após cadastrar os dados na plataforma, o cliente recebe as ofertas de negociação dos parceiros da empresa e escolhe como negociar a dívida. Por causa da facilidade e ser 100% online, a empresa está ganhando destaque na mídia;

SumUp: Oferece máquina de cartão de débito e crédito, com taxas menores que a do mercado, sem necessidade de conta em banco para o usuário e possibilidade de receber compras parceladas à vista! Para o microempreendedor é uma opção para se adequar ao mercado de dinheiro virtual que vem se tornando cada vez mais comum no comércio.

Ps: esse texto é fruto da leitura de diversos textos, artigos e análise de vídeos e, em certa medida, de opiniões individuais. Sendo assim, me coloco à disposição para discuti-lo individualmente no e-mail: rodrigo.oliveira@investorcp.com .