O mercado brasileiro de educação passa por uma nova rodada de investimentos liderada por gestoras de private equity que estão estreando ou retornando ao setor. Entre as novatas estão a americana Carlyle, o Fundo Soberano de Cingapura (GIC) e as brasileiras Tarpon e Península. Voltaram a investir em educação o Advent, responsável pelos primeiros aportes na Kroton, e a Vinci Partners que vendeu sua participação na Fanor em 2009 para a americana DeVry.

Esses seis players – Carlyle, Vinci, Tarpon, Advent, Península e GIC – já investiram juntos mais de R$ 3,2 bilhões e detém o controle ou participações relevantes em empresas de educação do país. A soma dos investimentos no setor pode chegar à casa dos R$ 5 bilhões se considerada a oferta da Tarpon para compra das ações dos minoritários da Somos Educação (antiga Abril Educação), cujo controle foi adquirido no começo deste ano, e a aquisição da editora Saraiva por R$ 725 milhões pela Somos Educação.

 

Além disso, fundos estrangeiros como Oppenheimer, Coronation, Lazard, Capital World e GIC vêm comprando cada vez mais ações de companhias de ensino na bolsa. O fundo americano Oppenheimer, por exemplo, já é um dos maiores acionistas da Estácio, com uma fatia de 17%. Os fundos internacionais detém participações de 38% do capital total da Estácio e de 20% na Kroton. Essas investidas dos fundos estrangeiros é explicada porque o valor dos papéis das companhias de educação teve uma forte queda neste ano devido às mudanças nas regras do Fies, programa de financiamento estudantil do governo.

 

Segundo as gestoras de private equity, os investimentos em educação foram mantidos porque no longo prazo há um potencial de ganho, uma vez que no Brasil apenas 15% dos jovens entre 18 e 24 anos estão no ensino superior e a meta do governo é dobrar esse percentual em 2025. Mas as negociações para os brasileiros não estão sendo muito facéis porque, apesar da valorização do dólar, os investidores estrangeiros estão reivindicando redução de preços diante do atual cenário macroeconômico. Não à toa, as negociações de Kroton e Carlyle e Vinci Partners levaram praticamente um ano. Ontem pela manhã, a Kroton confirmou a venda da Uniasselvi para os fundos do Carlyle e Vinci Partners por até R$ 1,1 bilhão. Deste valor, metade virá de recursos do Carlyle e a outra parte dos fundos da Vinci, de acordo com fontes do setor. O objetivo dos novos donos é transformar a Uniasselvi numa plataforma de expansão no mercado de educação, sendo que o foco continuará sendo o ensino a distância, que não depende do Fies, pelo menos nessa primeira fase de consolidação.

 

“Passamos diversos anos analisando oportunidades no setor de educação e achamos esse um bom momento para investir no setor, que continua com boas perspectivas de crescimento”, informou Fernando Borges, diretor e corresponsável pela Carlyle Brasil. “Estamos muito animados em investir novamente no setor de educação e com a sociedade com o Carlyle. Iremos trabalhar em conjunto visando a criação de um novo grande player dentro do setor”, complementou Carlos Eduardo Martins, sócio da Vinci Partners.

 

A Uniasselvi foi vendida por exigência do Conselho Administrativo de Defesa Econômico (Cade) no processo de fusão entre Kroton e Anhanguera.

 

A americana Advent, acionista da Kroton entre 2008 e 2013, voltou para o setor de educação neste ano com a compra da Faculdade da Serra Gaúcha. O valor da transação, estimado em R$ 100 milhões, foi baixo, mas a Advent também tem como estratégia usar essa instituição de ensino como plataforma de crescimento. Atualmente, a Faculdade da Serra Gaúcha tem cerca de 10 mil alunos. A meta é dobrar esse número por meio de crescimento orgânico e atingir 50 mil estudantes via aquisições até 2020. A Advent negocia com seis grupos de ensino do interior de Minas Gerais, Norte e Nordeste.

 

A brasileira Tarpon é de longe a gestora com maior volume de investimentos em educação nos últimos dois anos. Desembolsou R$ 1,3 bilhão para compra do controle da Somos Educação (ex-Abril Educação), cuja quantia poderá dobrar com a oferta estendida aos minoritários. Além disso, já sob a gestão da Tarpon, a Somos Educação comprou a editora Saraiva por R$ 725 milhões.

 

A primeira rodada de investimentos no setor de educação ocorreu entre 2007 e 2010, quando houve um boom de IPOs (aberturas de capital). Neste período, Pátria, GP, Advent e BR Investimentos (atual Bozano) investiram na Anhanguera, Estácio, Kroton e Abril Educação – que se tornaram os maiores grupos de ensino do país. Essas gestoras fizeram seus desinvestimentos há dois anos com ganhos expressivos. Em setembro de 2013, por exemplo, a Advent vendeu 1,8% do capital da Kroton por cerca de R$ 200 milhões. Atualmente, os fundos com maior tempo de permanência são o americano Capital Group, que adquiriu 35% do Ibmec por R$ 130 milhões em 2010, e a gestora inglesa Actis que pagou R$ 180 milhões por uma fatia de 37% da Cruzeiro do Sul em 2012.

 

No entanto, a estratégia de ambas é bem distinta. A Cruzeiro do Sul fez várias aquisições, dobrou de tamanho, tem participado ativamente dos processos de fusão e aquisição do setor e tem planos de abrir o capital. Já o Ibmec mantém praticamente a mesma estrutura societária. Segundo fontes do setor, vários fundos e grupos de ensino fizeram propostas para aquisição do Ibmec por quantias que chegaram a R$ 500 milhões, mas seu principal acionista, Cláudio Haddad, pede entre R$ 800 milhões e R$ 1 bilhão.

Fonte: Exame.com