Os fundos de private equity têm como prática comprar participações em empresas que precisam passar por melhorias ou necessitem de capital. Correm uma dose de risco considerável em busca de um retorno elevado. Ao fim, vendem essas participações em bolsa ou para um investidor estratégico. Mas no mercado brasileiro começa a acontecer com mais frequência uma terceira via, com fundos adquirindo empresas das mãos de outros fundos.

A tendência, bastante comum na Europa durante os piores anos da crise financeira e econômica, tem como pano de fundo no país a bolsa fechada para ofertas de ações (IPO, na sigla em inglês) e as incertezas do período pré-eleitoral, que levam parte das empresas a adiar planos de investimentos. Ao mesmo tempo em que alguns fundos estão altamente capitalizados e precisam fechar negócios, outros estão em fase de captação de mais recursos e querem exibir resultados.

No mês passado, o fundo americano KKR fechou o primeiro negócio no Brasil com a compra da Aceco TI, empresa de construção e manutenção de centros de dados que tinha entre os sócios a gestora General Atlantic. A venda para um fundo também foi a porta de saída da GP Investimentos da rede de churrascarias Fogo de Chão, vendida para a americana Thomas H. Lee Partners (THL).

Enquanto no exterior a negociação entre fundos é muito frequente, no país esse movimento está apenas começando, afirma Fernando Borges, presidente da Abvcap, associação que representa o setor de private equity. Borges também é executivo da americana Carlyle, que realizou um dos negócios pioneiros no país, com a compra da participação da General Atlantic na empresa de planos de saúde Qualicorp, em 2010.

A compra de participações de outros fundos ganha força em razão do mau momento da bolsa. “Como o mercado de ações é um parâmetro para os negócios privados, o preço das companhias ficou mais atrativo”, diz Borges.

Os fundos que estão em busca de novos investimentos também se beneficiam do câmbio mais favorável e do fato de os investidores estratégicos, concorrentes nos negócios, terem diminuído o apetite por aquisições recentemente. “Em momentos de maior incerteza, os estratégicos costumam se concentrar nas suas atividades principais, enquanto os fundos têm como atividade principal comprar e vender empresas”, afirma Alessandro Farkuh, responsável pela área de fusões e aquisições do Bradesco BBI.

Como a maioria dos fundos possui um prazo determinado para sair dos investimentos, a busca por compradores para as companhias muitas vezes precisa ocorrer em situações de mercado menos favoráveis. No Brasil, a necessidade de mostrar resultados aos investidores é ainda maior entre alguns dos maiores gestores com atuação local, que atualmente estão em processo de captação de novos fundos.

A expectativa é que até US$ 10 bilhões sejam levantados para novos investimentos em empresas brasileiras, conforme informou o Valor em reportagem em abril. Ao mesmo tempo, grandes gestoras internacionais que captaram fundos com atuação global se voltaram para negócios no país nos últimos anos. “Nos bastidores, estão ocorrendo muitas conversas entre fundos”, diz o executivo de uma gestora.

A negociação de empresas entre gestoras de private equity, porém, desperta o receio em parte do mercado de uma “ação entre amigos”. “Existe uma desconfiança natural dos cotistas do fundo comprador com relação ao retorno da empresa que já recebeu o investimento de um private equity”, afirma André Castellini, sócio da consultoria Bain & Company.

Em busca de uma resposta para essa questão, a Bain realizou um estudo com base nos negócios realizados na Europa. A venda de participações em empresas entre gestores de private equity se tornou frequente e, em alguns casos, a única alternativa de saída para os fundos na fase mais aguda da crise na região.

A conclusão da consultoria foi que o retorno do fundo comprador foi, de fato, um pouco inferior ao obtido por gestores que fizeram o investimento primário. Em compensação, o risco foi menor, ou seja, houve menos casos de perda de capital no segundo fundo.

Uma das explicações é o fato de que as empresas que já receberam aporte de fundos de private equity estão, de um modo geral, melhor preparadas. “As principais mudanças em gestão e governança já foram implementadas pelo primeiro fundo”, diz Castellini.

Do ponto de vista da negociação, encontrar um outro gestor de fundos do outro lado da mesa tem a vantagem de tornar as conversas mais objetivas, segundo um executivo do setor. “Lidar com o fundador, que em muitos casos possui uma ligação emocional com a empresa, pode dificultar o processo”, diz.

O impacto da entrada de um segundo fundo para as empresas depende muito do perfil da gestora que está por trás do negócio, de acordo com Diego Báez, sócio da consultoria Heartman House. “Se o novo fundo assume uma posição de controle na companhia, enquanto o primeiro detinha uma posição minoritária, pode haver algum ruído se a governança não for bem estabelecida”, afirma.

Fonte: Valor Econômico