O momento econômico ruim no país e a carência de fontes alternativas de financiamento ampliaram as oportunidades de negócio para os fundos de private equity, que investem em participações em empresas. A palavra de ordem entre os gestores, contudo, é “paciência” diante do risco de uma eventual desvalorização cambial, que afeta o retorno em dólar dos fundos.

No ano passado, muitas empresas decidiram aguardar a definição do processo eleitoral e a redução da incerteza, o que diminuiu o fluxo de negócios. “Com a percepção de que o mercado de capitais permanecerá fechado por um período maior, companhias que antes não se aproximavam de fundos agora nos procuram”, diz Fernando Borges, corresponsável pelo escritório do Carlyle no Brasil.

A piora na percepção dos investidores sobre o país ainda não veio acompanhada de uma redução no valor das empresas, segundo Borges. “Existem mais companhias de boa qualidade dispostas a negociar, mas os ativos infelizmente não estão baratos”, afirma. Como os valores das empresas fechadas na maior parte dos casos não acompanharam a desvalorização das companhias abertas, o Carlyle avalia oportunidades de investimento em empresas listadas na bolsa, segundo Borges. O negócio mais recente desse tipo, conhecido pela sigla em inglês “Pipe”, foi a compra do controle da Abril Educação pela Tarpon Investimentos.

No ano passado, os fundos de private equity captaram o volume recorde de US$ 10,4 bilhões para investir na América Latina, dos quais pouco mais da metade destinados exclusivamente ao Brasil. A aplicação desses recursos, porém, deve levar mais tempo, segundo Patrice Etlin, principal executivo da americana Advent no Brasil. “Alguns gestores erraram ao investir muito rápido os recursos de fundos anteriores”, afirma.

Os gestores que captaram entre 2010 e 2011 e realizaram a maior parte dos investimentos nesse período sofreram com a desvalorização cambial. Como os grandes gestores captam a maior parte dos recursos no exterior, precisam entregar retorno em dólar para os investidores.

Para o executivo da Advent, que, no auge da euforia dos investidores afirmou que o Brasil estava “caro”, o momento macroeconômico desfavorável representa uma oportunidade de investimento no país. “Pode ser a hora de ter uma visão contrária e ser mais agressivo nos investimentos”, afirmou o executivo da gestora americana, que no ano passado fechou a captação de um fundo de US$ 2,1 bilhões, o maior já dedicado a investimentos na América Latina.

Com a incerteza em relação ao câmbio e às taxas de juros no Brasil, a Victoria Capital Partners tem sido mais prudente com novos negócios no país. “Procuramos realizar aquisições a partir das empresas que já compõem o portfólio”, afirma Mario Spinola, sócio da gestora, que em 2012 captou um fundo de US$ 850 milhões para investimentos em empresas na América do Sul.

Para compensar uma eventual desvalorização cambial, os fundos tentarão perseguir retornos maiores em reais nas empresas investidas, diz Christopher Meyn, sócio da Gávea Investimentos. A gestora também deve levar mais tempo para investir os recursos do fundo mais recente, captado no fim do ano passado, de US$ 1,1 bilhão.

Os executivos participaram ontem do evento Superreturn, que acontece até hoje no Rio. A conferência deste ano foi menos concorrida que em anos anteriores, sinal do menor interesse dos investidores internacionais no país. “Quando você participa de um evento sobre private equity e a plateia não está cheia significa que é um bom momento para investir”, comparou o responsável pelos negócios na América Latina da americana General Atlantic, Martin Escobari, arrancando sorrisos da audiência, que ocupava metade dos lugares em uma das salas da conferência.

Fonte: Valor Econômico