A venda da unidade de eletrodomésticos da General Electric para a sueca Electrolux, por US$ 3,3 bilhões, anunciada na segunda-feira, deixa o conglomerado americano quase que inteiramente voltado às áreas financeira e de grandes equipamentos industriais, como turbinas de energia e motores de avião.

A mudança de rumo é obra do diretor-presidente, Jeff Immelt, que, em seu 14º ano no cargo, está promovendo ajustes para lidar com a concorrência e impulsionar as ações da empresa, há muito sem vigor. Immelt tem se concentrado na pergunta: O que é a GE? Cada vez mais a GE, fundada por Thomas Edison, está se tornando, de novo, uma empresa de energia.

Nos últimos anos, Immelt gastou cerca de US$ 14 bilhões para comprar prestadoras de serviços na área de petróleo e gás. No ano passado, energia e atividades correlatas responderam por aproximadamente 65% da receita da empresa e mais de 40% do lucro operacional.

Ela também continua sendo um grande banco, já que a GE Capital gera cerca de um terço do faturamento da empresa e metade do lucro. A GE também é uma grande fabricante de motores de aviões e equipamentos médicos, como aparelhos de tomografia.

“A GE é uma empresa de infraestrutura de alta tecnologia, é isso que somos hoje”, disse Immelt em entrevista recente ao The Wall Street Journal, referindo-se à discussão contínua sobre o destino da divisão de eletrodomésticos. “Não somos, de fato, uma empresa de produtos de consumo.”

 

Até agora, as bolsas não têm colaborado. A ação da GE caiu para menos de US$ 6 durante a crise financeira e não voltou a alcançar US$ 30 desde então. A cotação recuou cerca de 6% até agora neste ano, e deslizou mais um pouco desde a notícia da venda da divisão de utensílios domésticos, fechando ontem a US$ 25,90. Membros do conselho de administração e executivos, incluindo Immelt, dizem que a cotação da ação não representa o valor dos diversos negócios que a empresa reuniu.

Eles esperam que o interesse dos investidores comece a reviver quando algumas mudanças no portfólio que Immelt vem defendendo forem concluídas, no próximo ano, incluindo o desmembramento da Synchrony Financial, divisão de crédito ao consumidor que foi recentemente rebatizada e fornece cartões de crédito e planos de financiamento com a bandeira de lojas.

As iniciativas estão encontrando algum apoio em Wall Street. A GE andava atraindo críticas dos investidores como um para-raios, escreveu em agosto Steven Winoker, analista da Bernstein Research.

Mas Winoker diz que a empresa estava em condições de ter um desempenho melhor que suas pares e que o portfólio da GE está tão centrado nos negócios industriais como estava há 25 anos, no meio do período de Jack Welch como diretor-presidente.

Embora a Electrolux vá continuar usando o nome GE, a venda da divisão de utensílios domésticos, que deve ser concluída em 2015, tira a GE de um setor onde, no passado, ela teve uma presença dominante e um nome bem conhecido desde o lançamento do modelo D-12, sua primeira torradeira elétrica, em 1905.

A divisão ajudou ainda a impulsionar a GE no mercado de financiamento. Na Grande Depressão dos anos 30, ela criou a GE Credit Corp. para ajudar a financiar a venda de seus produtos.

Hoje, os planos de Immelt para a GE se concentram em máquinas complexas e nos contratos de prestação de serviços de longo prazo que as acompanham. A divisão de eletrodomésticos da GE é rentável, mas gerou apenas US$ 5,7 bilhões em receita anual no ano passado — uma parte muito pequena do total de US$ 146 bilhões e que quase desaparece perto das atividades de energia, aviação e finanças da empresa. O lucro de US$ 381 milhões da divisão de eletrodomésticos e iluminação do conglomerado, na qual os eletrodomésticos têm a maior parte, representou menos de 3% do lucro líquido da GE em 2013.

A GE vinha enfrentando pressão para investir em novos produtos e concorrer com outros fabricantes na área de eletrodomésticos, que não traz as receitas adicionais de manutenção e serviços que os investidores apreciam nos setores de energia e aviação. A GE aplicou US$ 1 bilhão para renovar suas linhas de produtos já que não conseguiu vender a divisão de eletrodomésticos e iluminação, em 2008, mas nos últimos anos os produtos não impressionaram os analistas.

“Eles estavam jogando na defensiva”, diz David MacGregor, analista da Longbow Securities. Segundo ele, a Electrolux pode usar sua aquisição da GE para competir com a Whirlpool, líder do setor, nos Estados Unidos e Brasil, em especial vendendo para clientes que não estão dispostos a desenbolsar pela renomada marca Electrolux.

A venda da divisão de eletrodomésticos, que tem cerca de 12.000 funcionários, é a mais recente de uma série de iniciativas de Immelt e da direção da GE para se desfazer de unidades industriais de baixo desempenho e reduzir a dependência da empresa do seu enorme braço financeiro.

Este ano, a GE vendeu ações da sua divisão de crédito ao consumidor nos EUA, antecipando a cisão de 2015. Ela também vem investindo pesado em novos negócios industriais, incluindo um acordo de US$ 17 bilhões para comprar as operações de energia do conglomerado francês Alstom, há poucos meses.

A empresa vem buscando reduzir sua exposição aos serviços financeiros desde a crise financeira de 2008 e ampliar a quota de lucro das operações industriais. A venda da unidade de eletrodomésticos deixaria a GE com sete linhas industriais, além do seu braço GE Capital, incluindo duas que devem ser reestruturadas ou parcialmente vendidas no futuro: a de gestão de energia e a de iluminação.

Várias pessoas que acompanham a empresa disseram recentemente que a GE deve vender a divisão de iluminação em breve. Mas outras disseram que essa divisão, embora pequena em comparação com outras partes da empresa, ainda tem seu valor. Além disso, a divisão não é puramente de produtos de consumo, disse uma das pessoas, observando que cerca de 70% das vendas são para clientes corporativos. Immelt disse ao WSJ que pode haver “oportunidades interessantes” à frente na divisão de iluminação.

A maior divisão industrial da GE continua sendo a de energia e água, com US$ 24,7 bilhões em vendas e lucro de quase US$ 5 bilhões em 2013. A GE Aviation, fabricante de turbinas para jatos comerciais e de defesa, lucrou US$ 4,3 bilhões sobre vendas de US$ 21,9 bilhões no ano passado. Já a divisão de equipamentos de saúde lucrou US$ 3 bilhões e faturou US$ 18,2 bilhões. Os negócios de petróleo e gás da GE lucraram US$ 2,2 bilhões sobre uma receita de US$ 17 bilhões; e a divisão de transportes, que fabrica locomotivas de carga, lucrou US$ 1,2 bilhão sobre vendas de US$ 5,9 bilhões.

Até 2016, a GE quer obter 75% do seu lucro das divisões industriais. Nos últimos anos, o braço financeiro, a GE Capital, respondeu por cerca de 50% do lucro.

Fonte: The Wall Street Journal