Para realizar boas apostas no mercado de ações, alguns grandes investidores não se preocupam muito com detalhes como lucros corporativos: em vez disso, eles escolhem as companhias administradas por seus fundadores.

Quatro das seis companhias negociadas na Nasdaq com as ações de melhor desempenho nos últimos cinco anos, até 29 de outubro, são administradas por seus fundadores, incluindo a número 1 Jazz Pharmaceuticals, de Bruce Cozadd, e a NetFlix, de Reed Hasting (a sexta mais valorizada). A valorização da ação da Jazz Pharmaceuticals no período foi de 2.426%, enquanto que o ganho da companhia de streaming da internet NetFlix foi de 584%, segundo uma análise de empresas com valor de mercado acima de US$ 10 bilhões pela FactSet Research Systems.

Na verdade, um terço das 50 empresas de melhor desempenho da Nasdaq são administradas por seus fundadores, incluindo a Amazon.com, de Jeff Bezos (que ocupa a 49ª posição), apesar da desvalorização de 24% sofrida este ano. Assim, enquanto a queda de ações de queridinhas administradas por seus fundadores como a Whole Foods Market, de John Mackey, com queda de 31% neste ano, e a Athenahealth, de Jonathan Bush, com perda de 9%, levantaram dúvidas sobre a possibilidade de os gestores de fundos perderem a paciência com estratégias que rendem pouco ou nenhum lucro, vários deles, com históricos de longo prazo de sucesso, afirmam que não abandonarão essas abordagens.

A gestora de fundos hedge Kase Capital, de Whitney Tilson, ganhou oito vezes mais ao manter sua grande aposta na NetFlix, mesmo com outros investidores duvidando da empresa. “Dei mais corda a Hastings que os outros”, diz Tilson. Ele gostou da maneira como a companhia reparou o erro de tentar transformar seu negócio de DVD por correio em uma empresa separada, e como Hastings se concentrou nos negócios, ignorando os pessimistas da Wall Street.

É uma estratégia que o CEO da Amazon também deveria usar, acrescenta ele. “Bezos deveria dizer a todos que duvidam dele para sair fora e comprar outra ação. Ele não tolera a mediocridade e sua equipe é cheia de feras.”

Bezos é a peça mais importante no desafio a uma mentalidade de Wall Street que persegue as estimativas de lucro por ação centavo a centavo a cada trimestre. E mais executivos-chefes estão sendo encorajados a pensar como Bezos. Um grande defensor é Larry Fink, diretor-presidente da BlackRock, que desafiou os executivos do grupo a investir em suas operações, em vez de gastar dinheiro com recompras de ações.

Ted Zoller, diretor do Centro de Estudos Empresariais da Universidade da Carolina do Norte, diz que embora as companhias administradas por CEOs profissionais sejam uma boa aposta no futuro imediato, uma aposta melhor de longo prazo são as empresas gerenciadas por seus fundadores.

Os CEOs profissionais são “bons na alocação de capital em mercados maduros”, diz Zoller. “Mas na maioria das vezes eu aposto nos empresários fundadores porque eles estão de olho em seus próprios mercados e almejam ganhar a guerra.”

Gavin Baker, que gerencia o Fidelity OTC Portfolio, com ativos de US 12 bilhões, concorda. Seu fundo está superando 98% de seus pares este ano, com um retorno de 14,07% a partir de uma carteira recheada de empresas administradas por seus próprios fundadores, como a Amazon, o Google, o Facebook e a Athenahealth. O retorno anualizado de cinco anos do fundo, de 20,25%, também está batendo 98% do desempenho de seus pares, segundo a Morningstar.

“Para os fundadores, as empresas são como se fossem seus filhos”, explica Baker. “É a vida à base do sangue, suor e lágrimas. Apenas poucos executivos conseguem deixar de embalar pessoalmente livros no meio da noite, para comandar uma empresa grande e globalizada.”

Baker refere-se a Bezos, cuja empresa está gerando um fluxo de caixa operacional que somou quase US$ 6 bilhões nos 12 meses encerrados em 30 de setembro. Além disso, a Amazon construiu a plataforma de e-commerce dominante do setor, mas possui apenas cerca de 1% do mercado global, afirma Baker.

“Procuro companhias que sejam o epicentro de tendências setoriais há muitas décadas. Faz sentido para Bezos assumir uma perspectiva de prazo mais longo dado o tamanho da oportunidade que está à sua frente e a força de sua vantagem competitiva”, acrescenta Baker.

Segundo ele, os investidores precisam fazer a aposta certa sobre onde as empresas se encontram em seus ciclos de vida. Se os fundadores ainda conseguem fazer grandes jogadas, eles conseguem mais espaço de manobra. Mas se uma companhia está operando em um mercado maduro, faz sentido para seu líder adotar posturas mais amigáveis aos acionistas, como aumentar os dividendos ou recomprar ações.

Vários gestores de fundos citam a Apple como um exemplo de companhia que está no processo de se tornar mais madura e mais amigável aos acionistas. Isso é um grande contraste em relação a quando a mentalidade do “arriscar tudo para vencer” do fundador Steve Jobs o levou à demissão, antes de ele ter sido trazido de volta e ressuscitado a companhia.

Robert T. Lutts, presidente e diretor de investimentos da Cabot Wealth Management, de Boston, diz que pode aceitar a volatilidade das ações da Tesla Motors, de Elon Musk, porque o preço da ação da companhia está quase oito vezes mais alto do que quando ele a comprou.

“Com a Tesla, o preço pode cair 35% em alguns períodos de seis meses porque nós compramos a ação a US$ 30. Onde você começa é um fator muito importante”, afirma Lutts. A ação da Tesla foi negociada a US$ 238,09 no dia 4 de novembro.

Certamente, os problemas que a Amazon está tendo este ano estão pesando sobre o desempenho de uma série de fundos mútuos que aplicam em papéis de empresas de grande capitalização de mercado. É um dos motivos de a valorização do Contrafund da Fidelity no ano (7,66%) estar abaixo do ganho do índice referencial Standard & Poor’s 500 (S&P 500) em 3,32 pontos percentuais.

Isso colocou o gestor da carteira do Contrafund, Will Danoff, na pouco familiar posição de estar no meio da manada entre seus pares, e não na liderança.

Mas a Amazon continua sendo uma grande posição do Fidelity Contrafund, que tem US$ 110 bilhões em ativos, avaliada em US$ 1,5 bilhão no fim de setembro. Danoff, que não foi encontrado para fazer comentários para este artigo, recentemente fez outra grande aposta em uma companhia administrada por seus próprios fundadores: seu fundo mantinha ações da Alibaba Group Holding avaliadas em US$ 287 milhões no fim de setembro. Administrada pelo fundador Jack Ma, a Alibaba é a maior companhia de e-commerce da China, o país mais populoso do mundo.

Lewis Piantedosi, que gerencia o Large Cap Growth Fund da Eaton Vance, diz que os fundadores podem se esforçar em busca do crescimento, mas não podem ignorar como suas ações estão se saindo, pois correm o risco de perder administradores talentosos que têm grande parte de sua remuneração baseada em ações. “Se a ação não estiver se saindo bem, você provavelmente terá alguns funcionários infelizes”, raciocina ele.

Fonte: Valor Econômico