Bill Gross estará cuidando dos investimentos da Janus Capital dentro de alguns dias e, do ponto de vista da história de Wall Street, isso equivale a Pelé jogar com o uniforme azul celeste e branco da Argentina ou Margareth Thatcher agitar a bandeira da França.

Poucas pessoas da área de serviços financeiros já estiveram tão estreitamente associadas a uma empresa quanto Gross à Pimco, uma gestora de fundos incrustrada na modorrenta cidade de Newport Beach, no sul da Califórnia, que cresceu para se tornar a maior força dos mercados mundiais de renda fixa, com quase US$ 2 trilhões sob gestão.

Gross ajudou a fundar a Pimco em 1971 e foi seu diretor de investimentos, diretor-executivo e guru do mercado de bônus de plantão. Nenhuma decisão do Fed (BC dos EUA) estava completa sem que Gross aparecesse na TV para dar sua interpretação – com seu visual acanhado e sua voz aguda.

O anúncio, na sexta-feira, de que Gross deixará tudo isso na avançada idade de 70 anos para administrar o recém-criado Janus Global Unconstrained Bond Fund testemunhava o grau de dificuldade e de solidão do poder assumido pela vida do homem descrito, em amplos círculos, como o “rei do mercado de bônus”.

Nos últimos anos, Gross parecia não ser tanto um senhor do universo, mas muito mais um homem devastado – com sua empresa acossada por saída de quadros, a sensação do mercado lhe escapando e sua capacidade de gerir tanto dinheiro de uma vez posta em xeque. Seu território mudava rapidamente diante de seus olhos, e não era possível saber se ele ainda se valia das lições que tinha aprendido na sua época aventureira de jogador na Las Vegas da década de 1960.

Na semana passada, surgiu a notícia de que a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês) estava investigando a maneira pela qual um dos ETFs (fundos de índice negociados em bolsa) da Pimco comprava e avaliava bônus.

O que parecia estar em questão era se o ETF comprava investimentos a um preço para depois empregar uma avaliação maior, ao calcular os valores de seus ativos em carteira, e se isso dava ou não aos investidores subsequentemente um quadro enganoso do desempenho do fundo. A Pimco disse que seus procedimentos de fixação de preços são adequados.

“A renda fixa está no ponto baixo da curva do pico histórico de confiança”, disse Peter Atwater, ex-dirigente do J.P. Morgan e presidente da empresa de pesquisa Financial Insyghts. “O que aconteceu na Pimco é apenas o começo do suplício do setor.”

As dificuldades na Pimco foram prenunciadas no início desta década, quando Gross começou a fazer uma série de previsões infelizes sobre o mercado.

Ele advertiu o mundo que o mercado de bônus soberanos do Reino Unido iria pelos ares por estar “sentado num barril de pólvora” devido aos altos níveis de endividamento de janeiro de 2010. O mercado continuou a subir por mais dois anos, e permanece firme como uma rocha desde então.

Ele escreveu em outubro de 2010 que a decisão do Fed de dar início a uma segunda rodada de afrouxamento quantitativo “mais provavelmente significará o fim de um grande mercado comprador de bônus, que durou 30 anos”. Quando isso se revelou equivocado, ele fez a mesma afirmação em mensagem no Twitter, postada em abril de 2013, quando os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA alcançaram 1,67% (esse prognóstico pode ainda se mostrar acertado, embora os rendimentos tenham caído de pouco mais de 3% em dezembro para os atuais 2,5%).

O desempenho de seu carro-chefe, o fundo de bônus Total Return, o maior do mundo, com mais de US$ 220 bilhões sob gestão, sofreu em decorrência disso. Ele suportou 18 meses sucessivos de saques até agosto, após produzir retornos negativos em 2013 e de ter tido um desempenho inferior ao de seu referencial, o US Aggregate Index do Barclays para bônus, em 2014.

O ressentimento entre as pessoas no âmbito da Pimco veio a público em janeiro, quando Mohamed El-Erian pediu demissão de seu cargo de principal executivo após reiterados conflitos com Gross, conhecido por sua franqueza, terem alimentado seus anseios por passar mais tempo com a família. A situação chegou ao ponto em que repórteres de tabloides sensacionalistas ficavam plantados à porta de El-Erian.

Em entrevista concedida ao “Financial Times” na semana passada, El-Erian advertiu sobre os perigos à espreita do mercado de renda fixa. Ele manteve seu papel consultivo na Allianz, a proprietária da Pimco – um cargo com que Gross pode não ter se sentido muito à vontade.

“O que me preocupa é que as pessoas não consideram em suas contas o devido prêmio de liquidez”, disse El-Erian, referindo-se ao dinheiro adicional que os investidores podem exigir para compensar por posições das quais possivelmente seja difícil sair. “A busca por rendimento é tanta que basicamente não se espera qualquer pagamento por risco de liquidez. Isso me preocupa muito.” Gross consolidou sua fama de hábil investidor em dívida corporativa, e ela cresceu em seguida com seus investimentos em todo um segmento de títulos de renda fixa.

Agora o sucesso de Gross pode estar voltando para persegui-lo.

As taxas de juros historicamente baixas, associadas com o tamanho puro e simples da Pimco, levam à conclusão de que a escolha de bônus com base na qual ele consolidou seu nome foi suplantada pela busca superabrangente de retorno pelo mercado.

Nos últimos meses, a Pimco de Gross transformou-se, além disso, numa galeria de derivativos exóticos destinados a aumentar os retornos sobre seus investimentos. Isso não caiu muito bem com alguns observadores do mercado, que estão preocupados com os riscos adicionais assumidos pela empresa de investimentos em bônus.

Ganha corpo o aumento das transações eletrônicas, e a alta do aperto regulatório que se seguiu ao colapso do mercado de bônus “subprime” referenciados em crédito imobiliário nos EUA da década passada, que levou à fragilidade econômica mundial nos anos subsequentes.

Além disso, o destino definitivo dos mercados é incerto. Gross era, no passado, pessoa de excelente mão para escolher o momento.

Ele testou seus dons em Wall Street no último momento para embarcar no surto de crescimento do mercado de bônus que se estendeu – com algumas breves interrupções – desde então. Identificar o fim daquela era se mostrou mais difícil.

“Os participantes do mercado de bônus estão com medo, com razão, de que, quando as taxas subirem, a possibilidade de sair do mercado esteja muito mais restrita do que no passado”, alertou Dan Gallagher, membro da SEC, em conferência realizada neste mês.

Fonte: Valor Econômico