O Federal Reserve, banco central americano, está sinalizando que vai começar a elevar gradualmente os juros no ano que vem, mudança que vai exigir um equilíbrio delicado por parte dos investidores.

Muitos gestores de portfólio esperam que as ações continuem a ter um bom desempenho nos próximos meses devido à melhora da economia e aos juros ainda baixos. A Média Industrial Dow Jones já subiu 2,6% no ano, após ter avançado 26,5% em 2013.

Até agora, as bolsas americanas têm amplamente ignorado as preocupações com o fim do programa de estímulo do Fed, de compras mensais de títulos de dívida, que deve terminar em outubro e que vem supostamente sustentando os preços dos ativos. Mas os gestores de recursos estão se preparando cada vez mais para a possibilidade de o Fed decidir subitamente acelerar o cronograma para o aumento dos juros de curto prazo, que estão próximos de zero desde dezembro de 2008.

Somando-se às incertezas, havia a expectativa de que os juros do mercado americano, como os das notas de dez anos do Tesouro, iriam subir este ano em meio à melhora da economia dos Estados Unidos e à redução dos estímulos do Fed. Mas os juros caíram com as agitações geopolíticas na Ucrânia e no Oriente Médio e novos sinais de desaceleração na Europa. Como resultado, muitos investidores dizem que estão se preparando para uma reversão nos juros, mesmo que não prevejam, necessariamente, que ela ocorra.

“Uma alta dos juros é, certamente, um risco real neste ambiente”, diz Matthew Whitbread, responsável pela estratégia de dinâmica global de alocação de ativos da gestora Barings Asset Management, que administra cerca de US$ 26 bilhões em fundos multimercado. Mas ele acrescenta que “ainda há espaço para investir” em ações.

 

A maioria dos investidores acredita que o Fed vai adotar uma abordagem deliberada para elevar os juros. Essa visão foi reforçada pelos comentários que a presidente da instituição, Janet Yellen, fez na sexta-feira, indicando que a economia continua melhorando, sem sinais preocupantes de inflação.

As bolsas mostraram pouca reação: o índice Dow Jones recuou 0,22%, para 17.001,22 pontos, no pregão com menor volume do ano. Os títulos de dez anos do Tesouro fecharam com uma pequena variação nos juros, em 2,41% ao ano.

Os contratos futuros atrelados à taxa dos fundos federais, a mais diretamente influenciada pelo Fed, tiveram também pequenas oscilações. Os preços desses contratos indicam que os operadores projetam uma chance de 50% de que o banco central americano vai elevar os juros em junho de 2015, abaixo da estimativa de 60% em março.

John Briggs, do banco RBS Americas, diz que as observações de Yellen sugerem que o Fed ainda planeja aumentar os juros em meados de 2015, “mas o ritmo será lento”. Isso, diz, vai continuar sustentando as ações, que já se recuperaram várias vezes após pequenos recuos. “É esta a razão de a queda no mercado acionário ser de apenas 3% ou 5% e não 10%”, diz ele.

Mas, ao contrário da fase inicial da trajetória atual de alta das bolsas, que já dura cinco anos, os investidores não consideram mais a política do dinheiro fácil como garantia de grandes ganhos. Em vez disso, muitos dizem que seu otimismo vem sendo temperado pelos preços mais altos das ações e pela apreensão sobre o fim do afrouxamento monetário do Fed.

Michael Tiedemann, diretor de investimento da Tiedemann Wealth Management, que tem US$ 9,25 bilhões em carteira, diz que as declarações de Yellen indicam que é improvável que ela surpreenda o mercado com uma forte mudança na política monetária. Isso o deixa, de modo geral, otimista em relação à bolsa nos EUA. Mas ele vem reduzindo suas posições no mercado acionário devido a receios ligados às altas cotações. Comparado com outros mercados, como os emergentes, “as avaliações simplesmente não são tão atraentes”.

Um efeito das políticas de afrouxamento do Fed é a migração dos investidores para ativos de rendimento mais alto. Embora a continuidade dos juros baixos possa ampliar essa tendência, a busca por retornos maiores também está deixando alguns investidores ansiosos.

Nichos do mercado que pagam dividendos elevados, como ações de empresas de serviços públicos, fundos de investimentos imobiliários e parcerias limitadas negociadas em bolsa (as chamadas MLPs), dispararam este ano diante da queda dos juros. As ações do setor de serviços públicos já subiram 11% este ano, o índice NYSE Alerian MLP avançou 14% e o MSCI U.S. REIT, 18%. Todos os três setores foram atingidos em maio de 2013, quando o Fed discutiu pela primeira vez reduzir seu programa de compras de títulos de dívida.

“Os setores de altos dividendos podem sofrer um golpe” quando os investidores começarem a prever uma alta nos juros, diz Whitbread, da Barings.

Outros investidores veem sinais de alerta nos rendimentos em queda dos títulos soberanos. Na Alemanha, os bônus de dez anos estão rendendo menos de 1% ao ano. Já no Reino Unido, cujo banco central parece ser o mais propenso a elevar juros, os papéis de dez anos têm rendimento de 2,4%.

Mas Michael Binger, gestor sênior de portfólio da Gradient Investments, que tem US$ 630 milhões em carteira, diz que o apelo das ações continuará forte em 2015. “O rendimento das ações ainda será melhor que o das notas de dez anos do Tesouro ao redor do mundo e isso realmente não mudou nada”, diz. “Essa dinâmica vai se manter presente no ano que vem.”

Fonte: The Wall Street Journal