Junte numa mesma companhia uma expansão anual de dois dígitos na receita, um poder de barganha elevado com os fornecedores e um market share confortável no seu principal mercado de atuação. Reunidas, todas essas características fizeram as ações da Localiza saltarem de R$ 14,23, há exatos cinco anos, para R$ 37,45 — preço do papel ao final do pregão da última sexta-feira. Afetada pela retração do mercado de locação de veículos em 2013, a companhia mineira ensaia uma retomada do crescimento acelerado, apesar das perspectivas econômicas pouco animadoras para 2015, conforme admite o diretor presidente da empresa, Eugênio Mattar.

“O mercado já está parando. O governo atual não está mostrando o caminho para o país enfrentar seus desafios”, afirma o executivo, para quem “a oposição apresenta caminhos mais concretos”. Em 2015, serão necessários pelo menos seis meses para arrumar a economia, argumenta Mattar. No ano passado, a receita bruta da Localiza com aluguel de carros cresceu 6,7%. “Desde o primeiro trimestre de 2013, a ação da Localiza está estagnada”, diz Mário Bernardes Júnior, analista do BB Investimentos. Na verdade, todo o setor de rent a car passou a crescer menos em 2013, influenciado pelo fraco avanço do PIB. Isso não significa que a Localiza tenha perdido seu encanto.

Maior empresa de locação de veículos da América do Sul, com 534 agências espalhadas por nove países, a Localiza é a maior compradora de veículos leves do país. “A empresa tem uma escala de compra muito maior que a dos concorrentes. Compra a um preço menor e depois vende a preços de mercado”, afirma Felipe Silveira, analista da corretora Coinvalores.

A venda de carros para renovação de frota — a empresa tinha 74 lojas de seminovos ao final do primeiro semestre — gerou no 2º trimestre deste ano uma receita líquida de R$ 443,6 milhões, valor 16,5% superior ao registrado nos três meses anteriores. “Nos Estados Unidos, quem faz aluguel de carros vende menos de 10% da frota para o consumidor final. Na Localiza, mais de 60% dos veículos são adquiridos pelo consumidor final”, conta Eugênio Mattar. Além do aluguel de automóveis e da comercialização de seminovos, a Localiza atua ainda na área de gestão de frotas, fornecendo veículos para clientes corporativos com base em contratos anuais. No período de abril a junho deste ano, a receita líquida dessa divisão encolheu 4,8% na comparação com o mesmo período de 2013.

“No ano passado, houve uma guerra de preços no mercado de terceirização de frotas. A Localiza não entrou na guerra e, por isto, perdeu concorrências”, explica Bernardes Júnior, acrescentando que a situação tende a se normalizar já em 2015. Na avaliação do analista do BB Investimentos, os papéis da Localiza devem subir de preço a partir do momento em que a companhia voltar a crescer no ritmo ao qual o mercado se acostumou. “É uma empresa que nos últimos dez anos entregou bons resultados. Pelo menos desde 2005 vinha apresentando expansão na casa dos dois dígitos”, lembra.

Fundada em 1973, durante o primeiro choque do petróleo, a Localiza começou com uma frota de seis fuscas usados, comprados a crédito. Hoje, são mais de 118 mil veículos e uma fatia de mercado que em 2012 era de 35,5% Presente em nove países, a companhia não tem interesse em expandir sua atuação para outros mercados fora da América do Sul, afirma Mattar. Mas está atenta a oportunidades de aquisição. “Não é algo que está fora do nosso radar”, diz o diretor presidente da Localiza. Para ele, o mercado caminha na direção de uma consolidação. “No Brasil, temos mais de 2.500 empresas de aluguel de carro. A tendência natural é de consolidação, como aconteceu nos mercados da Europa e dos Estados Unidos”, sustenta. Atualmente, nos Estados Unidos, as três maiores empresas de locação de veículos detêm mais de 90% do mercado. Na Europa, onde o mercado é mais fragmentado, as principais companhias têm juntas cerca de 80% de participação.

Com baixo endividamento e situação confortável em termos de caixa, a companhia distribuiu no ano passado R$ 250 milhões em dividendos extraordinários aos acionistas. Apesar da possibilidade de o pagamento se repetir neste ano, Mattar afirma que a prioridade da empresa é investir. “Não crescemos tanto no ano passado. Então, tínhamos a opção de recomprar ações ou pagar dividendos”, conta. No primeiro semestre deste ano, a receita bruta de aluguel de carros cresceu 13,1%, alcançando R$ 661,4 milhões. “O segundo semestre será melhor para o aluguel de carros, por conta do efeito das campanhas eleitorais”, acredita Bernardes Júnior, do BB Investimentos. “O negócio de seminovos deve ter uma performance estável e o de gestão de frota não vai ser bom.”

Fonte: Brasil Econômico