A Intel comprou a Altera por US$ 16,7 bilhões, dando continuidade à onda de aquisições no setor de semicondutores. Kiyoshi Ota/Bloomberg News

Depois da crise financeira, os líderes empresariais ainda passaram anos com receio de negociar fusões e aquisições. Agora, eles se sentem compelidos a agir.

Empresas estão se fundindo num ritmo que não é visto em quase uma década. Um total perto de US$ 2,5 trilhões em fusões e aquisições já foi anunciado até agora no ano, segundo a firma de dados Dealogic. Isso pode fazer de 2015 o ano de maior volume desse tipo de negócios já registrado, ultrapassando 2007, quando empresas fizeram acordos no total de US$ 4,3 trilhões.

Em parte, essa tendência está sendo alimentada pelo temor dos executivos de ficar atrás de concorrentes que se tornam mais eficientes por meio desses acordos de fusão. Em muitos casos, as empresas receiam que, se não ganharem corpo com aquisições, elas mesmas podem acabar virando alvos de compradores.

Em setores que vão desde mídia até cuidados com a saúde, diretores-presidentes de empresas estão correndo para fechar aquisições, geralmente em antecipação às iniciativas dos rivais ou em resposta a elas. O realinhamento resultante nas empresas afeta executivos, funcionários, clientes e fornecedores.

Essa onda de atividade teve início no começo do ano passado, impulsionada por empréstimos baratos, abundância de caixa e ações em alta. A relativa estabilidade da economia também deu mais confiança aos executivos e, quando os rivais começaram a fazer negócios, a corrida teve início. Agora, muitos conselhos de administração estão discutindo aquisições.

“Há uma competição crescente e pressão estratégica para agir”, diz Gregg Lemkau, um dos diretores de fusões e aquisições globais do Goldman Sachs Inc. GS -0.96% O banco americano vem sendo o principal consultor para aquisições neste ano, com mais de US$ 700 bilhões em negócios.

Lemkau diz que, considerando outros grandes negócios em andamento, 2015 pode acabar sendo o ano de maior volume de fusões e aquisições da história.

Certos setores se tornaram um terreno fértil para grandes negócios. A indústria de semicondutores, por exemplo, foi alvo de três acordos substanciais num período de apenas três meses.

Em março, a holandesa NXP Semiconductors NXPI -2.25%  NV fechou a compra da Freescale Semiconductor Ltd., dos Estados Unidos, por US$ 11,8 bilhões. Depois, a Avago Technologies Ltd. AVGO -1.06%  , de Cingapura, adquiriu a americana Broadcom Corp. BRCM -0.95%  por US$ 37 bilhões, na maior aquisição de uma empresa puramente de tecnologia já registrada. E a Intel Corp. INTC -0.90%  , por sua vez, comprou a também americana Altera Corp. ALTR -0.14%  por US$ 16,7 bilhões. Pessoas envolvidas nesses negócios dizem que fabricantes de chips estão tentando ganhar escala para resistir melhor aos custos crescentes do setor de semicondutores — e evitar ser superadas por rivais fortalecidas por suas próprias aquisições.

Mais recentemente, houve uma febre de negociações de fusões também no setor de seguro médico dos EUA, cuja consolidação vem sendo prevista como resultado da reforma nas leis de saúde do país. Há pouco tempo, a Humana Inc. HUM -1.81%  se colocou à venda e, em rápida sucessão, foi sondada pela Aetna Inc. AET -1.18%  e a Cigna Corp. CI -2.09%  , ambas também alvo de aquisição. Uma aquisição da Humana poderia ser anunciada ainda hoje, dizem pessoas a par da situação.

Tais surtos de aquisições foram raros nos cinco anos depois que a crise financeira de 2008 jogou o mundo numa recessão profunda e fez as companhias se voltarem para si mesmas. Elas tentaram se fortalecer cortando custos e direcionando grande parte de seus gastos para recompra de ações e pagamentos de dividendos, numa maneira de recompensar os acionistas.

O período atual de aquisições é uma boa notícia para os consultores, que estão abocanhando comissões consideráveis, e para muitos dos executivos das empresas envolvidas, que ganham ainda mais poder ou gordos pacotes de rescisões contratuais.

Mas nem todo mundo é beneficiado. Quando as aquisições não têm o resultado esperado, os acionistas sofrem. Isso ficou claro na malfadada compra da Autonomy Corp. pela Hewlett-Packard Co. HPQ -1.44%  , em 2011, e na fusão entre a America Online Inc. e a Time Warner Inc., TWX -0.31%  em 2000. Funcionários também geralmente são atingidos, já que cortes de pessoal são uma marca registrada das fusões e aquisições.

Cerca de 8.800 cortes de postos de trabalho ligados a esses tipos de acordo foram anunciados até maio, o que se traduz num ritmo anual de 21 mil cortes, segundo a Challenger Gray & Christmas Inc. O número é menor que o do último boom de aquisições. Em 2006, por exemplo, houve quase 77 mil cortes, segundo a firma de recolocação e treinamento de executivos. John Callenger, o diretor-presidente, diz que uma das razões para ter havido menos cortes durante o atual boom é que as empresas já demitiram muitos empregados durante a recessão. Em muitos casos, hoje elas precisam de pessoal qualificado, diz.

“Cada vez mais, uma das maiores barreiras para o crescimento das empresas é não poder obter os funcionários qualificados de que necessitam”, diz ele.

Não está claro o quanto a atividade atual vai durar. Ainda há grandes forças desfavoráveis às fusões, incluindo os problemas na Europa e as questões de concorrência, como mostram alguns grandes negócios que enfrentaram resistência dos reguladores.

Embora o crescimento geral da economia continue lento, alguns consultores dizem que isso está estimulando os negócios porque proporciona um incentivo extra para que as empresas encontrem, através de fusões, novas fontes de receita e oportunidades de reduzir despesas e ampliar lucros.

E, enquanto as ondas anteriores tiveram várias vultosas compras alavancadas, em que firmas de private equity foram os compradores, desta vez o private equity acabou, em grande parte, ofuscado por compradores corporativos (empresas do mesmo setor que a adquirida), que tendem a pagar mais porque podem cortar custos redundantes mais tarde.

Cerca de 75% do volume de fusões e aquisições deste ano envolveram empresas comprando outras, comparado com 54% durante o mesmo período de 2007, segundo a Dealogic.

A reação das bolsas está encorajando a onda de acordos. Em 2013, a cotação das ações das empresas americanas que realizaram aquisições subiu, em média, 4% entre o dia do anúncio do negócio e o dia seguinte, segundo a Dealogic. Em 2014, as ações avançaram 3% e, até agora neste ano, quase 4%. Nos anos de 2008 a 2011, a média foi de queda nas ações.

Fonte: The Wall Street Journal