Miami é bem conhecida por suas praias, sua vida noturna e suas constantes febres de construção de condomínios. Agora, a cidade também começa a se destacar como um polo tecnológico.

Um centro de empresas jovens de tecnologia está ganhando corpo em Miami, impulsionado em parte por empresas americanas que procuram explorar o crescente mercado da América Latina e pelo grande número de empresários latino-americanos que querem ter uma base nos Estados Unidos.

“Somos o local mais lógico para ser a capital tecnológica da América Latina”, dada a longa relação comercial e os laços culturais que a cidade mantém com a região”, diz Manuel Medina, fundador da Terremark, uma empresa de serviços de dados adquirida pela telefônica Verizon Communications em 2011, por US$ 1,4 bilhão.

Miami já apresenta vários casos de sucesso. Open English, uma escola de inglês on-line aberta na Venezuela em 2008 e agora com sede em Miami, já possui 2.000 empregados em sete escritórios espalhados pelo Hemisfério Sul. A empresa levantou perto de US$ 130 milhões em capital de risco nos últimos anos, diz o seu fundador, Andrés Moreno.

No mês passado, a .CO Internet, uma empresa de Miami que opera o principal domínio da Colômbia na web e cresceu para mais de 1,6 milhão de endereços na rede, foi vendida por US$ 109 milhões para a empresa de telecomunicações Neustar.

Nem todas as empresas estão ligadas à América Latina. A CareCloud, que auxilia médicos a administrar seus consultórios utilizando serviços em nuvem, já possui perto de 6.000 clientes por todo os EUA e captou mais de US$ 45 milhões de investidores de capital de risco.

Os investimentos em novos empreendimentos por firmas de capital de risco na área de Miami saltaram de US$ 102 milhões em 2010 para US$ 369 milhões em 2013, segundo a VentureSource, uma divisão da Dow Jones que, como o The Wall Street Journal, faz parte do grupo News Corp. Ainda é uma soma pequena perto dos US$ 12,4 bilhões em capital de risco investidos em empresas no Vale do Silício em 2013. Mas não está muito atrás dos US$ 538 milhões captados por outro polo tecnológico, o de Austin, Texas.

Miami ainda enfrenta muitos desafios. Os empreendedores dizem que existe uma escassez de fontes locais de recursos além dos poucos investidores-anjos ricos, forçando muitos a buscar financiamento fora da cidade. Alguns se queixam da falta de candidatos para ocupar postos mais qualificados. Outros dizem que é difícil encontrar membros locais para seus conselhos de administração.

“Temos uma grande oportunidade, mas precisamos continuar o trabalho duro”, diz Juan Pablo Cappello, empreendedor e advogado da Private Advising Group P.A., em Miami. “Não é preciso exagero. Se tivermos uma chance, será como um jogador de nicho no ecossistema tecnológico.”

Isso significa colocar o foco nos pontos fortes de Miami, como suas conexões com a América Latina e sua indústria de serviços de saúde, diz Cappello. Para uma cidade que há muito tempo depende do turismo e do setor imobiliário para impulsionar a economia, “isso pode ser transformador”, diz.

Os empreendedores latino-americanos dizem que Miami oferece inúmeras vantagens. A cidade já serve como um polo hemisférico, onde muitas grandes empresas sediam suas operações na América Latina. Ela tem voos diretos para cidades de toda a região. E fornece um cenário mais estável para se fazer negócios — e maior acesso a capital — que muitos países ao sul.

Serge Elkiner, um dos fundadores da YellowPepper, uma empresa de serviços de pagamentos pelo celular, estabeleceu o negócio primeiro no Equador. Mas, quando chegou o momento de expandir para outros países da região, ele levou a sede para Miami. “É o melhor ponto para a América Latina em termos de viagem”, diz ele. Também é a cidade na qual a maioria das grandes instituições financeiras baseia suas operações voltadas para o hemisfério, acrescenta. “Se você quer ser regional, Miami é o melhor lugar para estar.”

A população on-line da América Latina cresceu de forma mais rápida que em qualquer outra região nos 12 meses encerrados em março de 2013, segundo a firma de pesquisa de mercado Score Inc. As novatas de tecnologia também se proliferam, alimentadas por um crescente número de incubadoras, e algumas chegaram a um ponto onde ter acesso a investidores e especialistas dos EUA se tornou essencial para continuar a crescer.

Um leque de grupos está dando impulso ao polo tecnológico de Miami. Nos últimos 18 meses, a John S. and James L. Knight Foundation, organização sem fins lucrativos, injetou US$ 6 milhões em cerca de 60 projetos, com a meta de cimentar a base do ecossistema. Seu maior investimento em um único projeto — de US$ 2 milhões — foi para a Endeavor, outra entidade sem fins lucrativos que apoia empreendedores e possui 20 escritórios ao redor do mundo. No ano passado, o grupo abriu sua primeira filial americana em Miami.

A Endeavor está focada em empresas que já demonstraram ser viáveis, ajudando-as a crescer ao conectá-las com mentores, investidores e novos mercados. São firmas como a KidoZen, que auxilia grandes empresas, como a Microsoft e a Toyota, a construir aplicativos para celulares. A KidoZen, aberta em 2013, tem 39 empregados entre Miami e Buenos Aires e registrou uma receita de US$ 5 milhões no ano passado, segundo o fundador, Jesus Rodriguez.

Outros programas de apoio e pontos de encontro estão surgindo também. No ano passado, o LAB Miami, um ambiente de trabalho colaborativo, saiu de um espaço de 65 metros quadrados para um armazém de 930 metros quadrados no elegante distrito de Wynwood, para atender a demanda. Entre seus membros está Michael McCord, que fundou a LearnerNation, uma empresa de software para treinamento cujos clientes incluem a MasterCard e a Celebrity Cruises.

A Venture Hive, incubadora e aceleradora de tecnologia, abriu as portas no centro de Miami no ano passado com patrocínio da cidade e do Estado e agora abriga 31 firmas de 18 países, diz a fundadora, Susan Amat. Em maio, a Microsoft informou que abriria lá seu primeiro centro de inovação nos EUA, oferecendo aulas, workshops e muitas engenhocas.

A ideia de Miami como um polo tecnológico para as Américas tem um precedente. Na década de 90, várias empresas de tecnologia focadas no mercado latino-americano, incluindo a Patagon.com e a Star Media, foram criadas na cidade ou depois se mudaram para lá. Mas o estouro da bolha da internet sufocou a tendência.

Agora parece ser a hora exata para revisitar a ideia. “Na América Latina, há um apetite insaciável por novas tecnologias”, diz Medina. E “existem muitos talentos com ideias fantásticas.”

Fonte: The Wall Street Journal