Aguardada com ansiedade, a oferta pública inicial de ações (IPO) do site Alibaba, programado para hoje, está tendo pouca repercussão em seu país natal, a China. O preço-alvo foi definido em US$ 68 por ação, o teto da avaliação, entre US$ 66 e US$ 68. Isso significa que a empresa está avaliada em quase US$ 168 bilhões e que pode captar até US$ 21,8 bilhões em sua estreia na bolsa de Nova York (Nyse).

O valor de mercado da Alibaba a coloca acima de gigantes como Amazon, Cisco e eBay, segundo agências internacionais. Mas para a maior parte da população chinesa este IPO não quer dizer muita coisa.

Sem a possibilidade de comprar ações da companhia, que está se integrando à bolsa de Nova York hoje, e não à de Xangai, ou à de Shenzhen, os chineses praticamente não têm se importado com ele. “Se eu não vou comprar as ações, porque vou me preocupar?”, disse o vendedor Han Yang.

Assim como no Brasil, a legislação chinesa limita o acesso da população média a bolsas estrangeiras. Para comprar ativos internacionais, é preciso ser um investidor qualificado, com bastante dinheiro disponível.

Como a maioria das pessoas não se encaixa nessa descrição, a oferta inicial de ações do Alibaba, cuja ação vai ser negociada com o símbolo BABA, também tem recebido pouca atenção por parte da imprensa local.

Os 13 canais da TV estatal chinesa CCTV têm mostrado novelas, desenhos e noticiário local. Nos jornais impressos, apenas menções passageiras à operação.

Para saber mais sobre o assunto, só assistindo canais de notícias internacionais como Bloomberg e CNN, que são oferecidos a quem se hospeda em hotéis e aos chineses que podem pagar por pacotes mais caros de TV por assinatura.

O aparente desinteresse pelo IPO – que parece estranho para ocidentais acostumados a idolatrar empresas e empresários – é inversamente proporcional ao uso dos serviços do Alibaba no país e às avaliações positivas sobre seu fundador, Jack Ma – ou Ma Yun (lê-se “má iuín”), seu nome original em chinês.

O Tao Bao, um dos sites de comércio eletrônico do grupo, é o mais usado no país. A estimativa é que ele seja responsável por 60% do mercado. Se forem consideradas outras plataformas, como TMall, Alibaba tem cerca de 80% do varejo on-line chinês.

Segundo Ricardo Augusto, brasileiro que vive há dois anos na China, um dos grandes diferenciais do site é o seu sistema de entrega. Além de rápido, conta, o Tao Bao não exige pagamento antecipado pela mercadoria. O comprador recebe o produto e depois de verificar se está tudo certo, libera o pagamento. Se houver algum problema, a companhia faz a troca rapidamente. “O preço também é bem mais baixo”, disse.

Ma também é considerado uma referência de empreendedorismo no país. “Ele mudou as nossas vidas. Nós o chamamos de o pastor que guia o caminho para o sucesso”, disse a engenheira Tsu Zhao, citando serviços, que, segundo ela, facilitam muito o dia a dia dos chineses, como o aplicativo para chamar táxis Kuaidi, que funciona integrado ao sistema de pagamentos Alipay.

Tsu observa, no entanto, que o chinês costuma não ler muito sobre economia e negócios, outro motivo para as pessoas se importarem pouco com a oferta inicial de ações do Alibaba.

No fim, resume o empresário Yuan Zhu, é só mais um empreendedor de internet que conseguiu ser bem-sucedido. “A população aqui é tão grande que você sempre conhece alguém que conseguiu algum sucesso”, disse Zhu.

Fonte: Valor Econômico