Não muito depois de ter conhecido Warren Buffett em 1991, pedi-lhe que me recomendasse seu livro favorito sobre negócios. Ele não hesitou: “É ‘Business Adventures’, de John Brooks. Vou te mandar meu exemplar”. Fiquei intrigado: nunca havia ouvido falar de “Business Adventures” nem de John Brooks.

Hoje, mais de 20 anos depois de Warren tê-lo emprestado para mim — e mais de 40 anos depois de lançado —, “Business Adventures” continua sendo o melhor livro de negócios que já li. E John Brooks continua sendo meu escritor favorito de negócios (e Warren, se você estiver lendo, ainda estou com seu exemplar).

Os mais céticos podem perguntar-se como esta coleção fora de catálogo de artigos dos anos 1960 da revista “The New Yorker” poderia ter algo a dizer sobre os negócios de hoje. Afinal, em 1966, quando Brooks fez um perfil da Xerox, a copiadora mais avançada da empresa pesava 295 quilos, custava US$ 27,5 mil, precisava de um operador em tempo integral e vinha com um extintor, por sua tendência a sobreaquecer. Muito mudou deste então.

Certamente, muitas das características das empresas mudaram. Mas os fundamentos, não. A profunda percepção de Brooks sobre as empresas é tão relevante hoje quanto era na época. Em termos de longevidade, “Business Adventures” compara-se a “The Intelligent Investor”, de Benjamin Graham, lançado em 1949, que Warren diz ser o melhor livro sobre investimentos que já leu.

Brooks cresceu em Nova Jersey durante a Depressão, cursou a Princeton University (onde dividiu quarto com George Shultz, que viria a ser secretário de Estado) e, depois de servir na Segunda Guerra Mundial, voltou-se para o jornalismo, com sonhos de tornar-se romancista. Além de seu trabalho na revista, publicou um punhado de livros, alguns dos quais ainda estão no catálogo. Morreu em 1993.

Como o jornalista Michael Lewis escreveu em prefácio a outro livro de Brooks, “The Go-Go Years”, mesmo quando ele entendia algo errado, “pelo menos entendia errado de uma forma interessante”. Diferentemente de muitos dos escritores de negócios de hoje, Brooks não resume seu trabalho a explicações simplistas para o sucesso ou a lições do tipo “como fazer”. (Quantas vezes você leu que alguma empresa está decolando porque oferece almoço grátis a seus funcionários?). Você não vai achar listinhas em seu trabalho. Brooks escrevia longos artigos que enquadravam um assunto, o exploravam em profundidade, introduziam alguns poucos personagens e mostravam como eles haviam se saído em suas atividades.

No artigo “The Impacted philosophers”, por exemplo, ele usa um caso de manipulação de preços na General Electric para explorar as falhas de comunicação — às vezes, intencional — que ocorrem para cima ou para baixo na escala hierárquica de uma empresa. Foi, escreve, “uma pane na comunicação intramuros tão drástica que fazia a Torre de Babel parecer um triunfo do bom entendimento organizacional”.

Em “The Fate of the Edsel”, Brooks refuta as explicações mais difundidas para o emblemático carro da Ford que acabou se tornando um fracasso histórico. Aconteceu, não por que o carro foi testado excessivamente em pesquisas de opinião, mas porque executivos da Ford apenas fingiram agir com base no que diziam as pesquisas. “Embora o Edsel supostamente devesse ter sido anunciado e promovido de outras formas, com base nas preferências mostradas nas pesquisas, usaram-se métodos de venda antiquados que não funcionavam, mais intuitivos do que científicos”. Certamente, também não ajudou em nada o fato de os primeiros modelos terem sido “entregues com vazamentos de óleo, capôs que ficavam presos, porta-malas que não abriam e botões que não se conseguia pressionar nem com um martelo”.

Uma das histórias mais instrutivas contadas por Brooks está no artigo “Xerox Xerox Xerox Xerox” (só o título já merecia estar no Salão da Fama do jornalismo). O exemplo da Xerox deveria ser estudado por todos no setor de tecnologia. Começando no início dos anos 1970, a empresa investiu pesadamente em P & D sem relação com copiadoras, incluindo pesquisas que resultariam na criação das redes Ethernet e da primeira interface gráfica para o usuário (o visual que se conhece hoje como Windows ou OS X).

Mas, como os executivos da Xerox não acharam que essas ideias se adequavam a seu negócio principal, optaram por não torná-las produtos negociáveis. Outros entraram em cena e foram ao mercado com produtos baseados nas pesquisas que a Xerox havia feito. Tanto a Microsoft como a Apple, por exemplo, foram buscar ideias no trabalho da Xerox com interfaces gráficas para o usuário.

Sei que não sou o único a ver essa decisão como um erro por parte da Xerox. Eu, certamente, estava determinado a evitar coisas assim na Microsoft. Insisti muito para garantir que continuássemos pensando grande a respeito das oportunidades que criávamos em nossas pesquisas em áreas como o reconhecimento de voz e visão computacional. Muitos outros jornalistas escreveram sobre a Xerox, mas o artigo de Brooks conta uma parte importante dos primórdios da empresa. Ele mostra como foi erigida com uma mentalidade original e fora do convencional, o que torna ainda mais surpreendente que, com seu amadurecimento, a Xerox tenha deixado passar ideias pouco convencionais desenvolvidas por seus pesquisadores.

Brooks também era um contador de histórias magistral. Ele podia criar um texto daqueles que não se consegue largar, como “The Last Great Corner”, sobre o homem que fundou a rede de supermercados Piggly Wiggly e sua tentativa de combater os investidores que tentavam vender a descoberto as ações de sua empresa. Eu mal podia esperar para ver como ele havia se saído (não leia agora, se não quiser saber: ele não se saiu nada bem). Outras vezes, pode-se até imaginar Brooks dando risadas enquanto conta alguma história absurda. Há uma passagem, em “The Fate of the Edsel”, em que um relações-públicas da Ford organiza um desfile de moda para as esposas de jornalistas. Quem apresentava o evento era um homem fantasiado de mulher, o que pode parecer avançado hoje, mas era escandaloso para uma grande empresa dos Estados Unidos em 1957. Brooks comenta, em tom de brincadeira, que as mulheres dos repórteres “conseguiram dar a seus maridos um ou dois parágrafos extras para as histórias que publicaram”.

O trabalho de Brooks é um grande lembrete de que as regras para administrar uma empresa forte e para criar valor não mudaram. Para começar, há um fator humano essencial em cada empreendimento. Não importa se você tem um produto e planos de produção e de marketing perfeitos; ainda vai precisar das pessoas certas, para comandar e levar adiante esses planos.

Essa é uma lição que se pode aprender rapidamente nos negócios e fui lembrado delas em cada passo de minha carreira, primeiro na Microsoft e agora na fundação. Que pessoas você vai apoiar? Suas capacidades são adequadas para suas funções? Elas têm o coeficiente de inteligência e a e inteligência emocional para serem bem-sucedidas? Warren é famoso por sua abordagem na Berkshire Hathaway, em que compra ótimas empresas, comandadas por gerentes brilhantes e, então, lhes deixa caminho livre.

“Business Adventures” é um livro que trata tanto de pontos fortes e fracos dos líderes em circunstâncias difíceis quanto de questões específicas de uma ou outra empresa. O trabalho de Brooks trata, na verdade, da natureza humana e é por isso que resistiu ao teste da passagem do tempo.

Fonte: The Wall Street Journal