Em janeiro deste ano, Rodrigo Xavier, presidente do Bank of America Merrill Lynch (BofA) no Brasil, embarcou apreensivo para Nova York. Temia que a direção do banco determinasse um corte de custos na subsidiária diante da profusão de notícias ruins sobre a economia brasileira. Para seu alívio, não foi o que aconteceu.

Prevaleceu o entendimento de que o país vai se recuperar e de que esse processo traz oportunidades para o BofA. “A economia brasileira entra agora numa fase em que vai precisar mais do financiamento de fora. Ter alcance ao investidor global voltou a ser importante”, diz Xavier em entrevista ao Valor. O executivo, que fez carreira no Pactual e foi um dos fundadores da Vinci Partners, completou recentemente seu primeiro ano no comando banco.

Com o ajuste fiscal, a tendência é que o mercado de capitais e o investimento privado se tornem mais necessários para financiar as empresas brasileiras. É na capacidade de conectar essas duas pontas que, segundo Xavier, o BofA pode crescer.

Para isso, visitas a empresas se tornaram mais frequentes e novos produtos entraram no radar do banco. No segundo semestre, a instituição deve começar a atuar na estruturação de emissões de renda fixa no mercado local. Um escritório no Rio será inaugurado em julho. “É na incerteza que você precisa estar mais colado nos clientes”, afirma.

A visão otimista sobre o Brasil reflete o peso que a subsidiária ganhou dentro do BofA nos últimos anos. A instituição não abre os números, mas a exposição ao país é estimada no mercado em cerca de US$ 20 bilhões – a terceira maior da área de atacado e banco de investimentos do Bank of America fora dos Estados Unidos. Perde para Reino Unido e Hong Kong.

De 2009 para cá, o BofA montou um time de peso para atuar em serviços de banco de investimentos e criou uma área de atacado com foco em multinacionais e grandes grupos brasileiros.

A importância da subsidiária foi decisiva para que o BofA optasse por uma nova estrutura na América Latina, consolidada no ano passado. A região se tornou uma divisão própria e responde diretamente a Tom Montag, presidente mundial de banco de atacado e banco de investimentos do grupo.

À frente das operações latino-americanas está Alexandre Bettamio, que antecedeu Xavier na presidência do BofA no Brasil e, no começo de 2014, foi promovido. A regional tem um comitê de crédito independente, embora utilize funding da matriz, e é comandada por executivos locais. “Não é um banco americano comandado por gringos”, ressalta Bettamio.

Desde o início do ano passado, o BofA fez 25 contratações de profissionais seniores para os países da América Latina onde tem operações: Brasil, México e um núcleo que reúne Argentina, Chile, Peru, Colômbia e América Central.

No Brasil, além de Xavier, foram contratados seis executivos. Fazem parte dessa leva Marcus Silberman, corresponsável por fusões e aquisições, o analista Mario Pierry e Marco Geovane, ex-diretor de participações da Previ, chamado para reforçar o relacionamento comercial com clientes.

Segundo Bettamio, o BofA está disposto a financiar empresas do país apesar da crise. “Queremos ser um banco de referência e dar empréstimos faz parte do relacionamento comercial com os clientes.”

Os executivos afirmam que o banco teve resultado recorde no país nos primeiros meses deste ano, mas não revelam os dados. De acordo com eles, a instituição foi bem em derivativos, câmbio e serviços de gestão de caixa.

O banco de investimentos do BofA também tem avançado. Em 2015, assessorou a SunEdison na compra da Renova e o Carlyle na aquisição de participação na Rede D’Or; foi um dos coordenadores da oferta de ações da Telefônica e de emissões de bônus como as da Votorantim Cimentos e da BRF.

“A crise não mudou nossa atitude em relação ao Brasil, só nos tornou mais atentos”, diz Bettamio.

Fonte: Valor Econômico