Às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial em setembro de 2002, um grupo de 17 economistas fez um comunicado conjunto com o diagnóstico do que eles julgavam ser os maiores problemas da economia brasileira e as respectivas propostas para saná-los.

Entre eles estavam José Alexandre Scheinkman, então professor da Universidade de Princeton, e Armando Castelar, que era chefe de um departamento do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Quem coordenou o trabalho foi o economista Marcos Lisboa.

O documento, batizado de Agenda Perdida, seria a base para um hipotético governo do candidato Ciro Gomes. O resto da história é mais lembrado. Ciro Gomes ficou pelo caminho, o Partido dos Trabalhadores chegou ao Planalto, Antônio Palocci assumiu o Ministério da Fazenda e, para o posto de secretário de Política Econômica, convidou Lisboa, que fez bom uso das propostas da Agenda Perdida.

Parte das reformas microeconômicas que marcaram o governo Lula, como a criação do crédito consignado e a da lei de falências, saiu justamente de lá. No Brasil, como na maioria das democracias, as eleições são ganhas por marqueteiros. Mas, como mostra o exemplo de 2002, o debate entre os economistas no período eleitoral pode ser decisivo no sucesso ou no fracasso de uma futura administração.

Na campanha petista pela reeleição de Dilma Rousseff, candidata à frente nas pesquisas, o nome de destaque é Nelson Barbosa, professor de economia da Fundação Getulio Vargas de São Paulo e ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda.

Ao lado de Alessandro Teixeira, ex-secretário executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Barbosa é o economista que mais contribui para o programa de um eventual segundo mandato. Por enquanto, ainda é nebuloso o que ambos defendem. A maioria dos empresários espera que não seja mais do mesmo.

Na oposição, o quadro está mais claro. O tucano Aécio Neves, candidato da oposição com os maiores índices de intenção de votos, deu a Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, a coordenação de suas propostas na área econômica.

A partir da colaboração de um time estrelado de economistas, a ideia é elaborar um documento como a Agenda Perdida. Entre os nomes já contatados há gente conhecida.

Fazem parte do debate Samuel Pessôa, professor de economia da FGV do Rio de Janeiro, Armando Castelar, hoje professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e José Roberto Mendonça de Barros, sócio da consultoria MB ­Associados.

Arminio também recebe contribuições de economistas mais jovens, como o professor João Manoel­ Pinho de Mello, da escola de negócios paulistana Insper, que tem se dedicado a estudar um novo modelo para as concessões de infraestrutura e para os leilões do pré-sal.

No time de Aécio, alguns pontos já são consenso. Num eventual governo do PSDB, o BNDES terá uma política diferente. O entendimento é que o banco precisa ser mais transparente nos critérios para escolher quem recebe empréstimos — o gasto poderia até aparecer no orçamento da União.

A simplificação de tributos também é outra meta prioritária, mas ninguém arrisca prometer uma redução na carga tributária — pelo menos, não no curto prazo.

O ex-governador pernambucano Eduardo Campos, do PSB, segundo oposicionista nas pesquisas, adota uma estratégia diferente. Seus assistentes estão instruídos a dizer que ele não quer “um Arminio” — referindo-se a um único coordenador de temas econômicos.

Para a elaboração do programa de governo, tanto Campos quanto Marina Silva, sua candidata a vice, baseiam-se nos economistas Eduardo Giannetti, ex-professor do Insper, e André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real. Para ampliar o debate, Campos e Marina têm organizado oficinas.

No primeiro encontro, em maio, o tema foi política econômica. Lisboa, hoje vice-presidente do Insper, e Bernard Appy, ex-secretário executivo da Fazenda, apresentaram suas ideias pessoalmente. Eduardo Loyo, ex-diretor do Banco Central, atualmente no banco BTG Pactual, mandou sugestões por escrito (Lisboa, Appy e Loyo fazem questão de dizer que não têm nenhum vínculo com a campanha de Campos).

Lisboa propôs a constituição de um conselho fiscal independente, que avaliaria previsões e orçamentos do governo federal, ideia imediatamente encampada por Campos. Loyo centrou suas propostas na área que mais domina, a política monetária. Appy falou sobre política tributária.

“Boa parte das sugestões de Appy estará representada no texto final”, diz o economista Alexandre Rands, que está sintetizando as propostas para elaborar um documento com os compromissos do candidato. Rands é especialista em desigualdades regionais — não por coincidência, uma área-chave para quem espera atrair a atenção de eleitores do Nordeste.

Nas grandes questões da economia nacional, os dois principais candidatos da oposição têm mais pontos em comum do que diferenças. O tema da melhoria da qualidade da gestão pública está na boca de ambos. A principal interlocutora de Aécio nessa área é Carla Grasso, ex-diretora de recursos humanos da mineradora ­Vale.

Quem levanta essa bandeira na campanha de Campos é Tiago Cavalcanti, professor de desenvolvimento econômico da Universidade de Cambridge. Pelo que ficou claro até agora, uma das divergências é como gerenciar os preços da gasolina e da eletricidade, que estão represados.

Aécio já disse que prefere um ajuste paulatino. Giannetti, uma das maiores lideranças econômicas de Campos, discorda: “Não dá para fazer o ajuste em pequenas doses, sob pena de estimular incertezas sobre a inflação”.

Embora relevante, esse tema não deve ser um empecilho caso Aécio e Campos decidam apoiar uma plataforma comum num eventual segundo turno nas eleições presidenciais — tudo em nome de uma nova agenda perdida.

Fonte: Exame