Como os impactos da queda do petróleo se espalham além do setor de produção de óleo e gás, analistas do banco UBS fizeram um levantamento para identificar os setores mais afetados, positivamente ou negativamente. Com base em análise de fundamentos e na correlação entre o preço da commodity e o desempenho de diferentes áreas (desde 1995), eles mostram, por exemplo, que fabricantes de aeronaves mais modernas tendem a ser prejudicados, enquanto montadoras e companhias de turismo tendem ganhar mais.

Algumas áreas sofrem efeitos positivos e negativos e, com isso, têm um saldo neutro, como é caso da mineração e metalurgia.

Os analistas ressalvam que há variações de um país para outro, já que costumes mudam, bem como a dependência do setor de óleo e gás, e aspectos regulatórios em diferentes áreas. Mas, em geral, a queda do petróleo é positiva para a economia mundial, principalmente porque os países consumidores do produto têm grandes bases de consumo, e os consumidores são beneficiados pelos custos mais baixos de combustíveis. “Esses consumidores tendem a poupar menos quando têm qualquer ganho adicional”, diz Andrew Cates, um dos autores do relatório “‘Derramamento’ de óleo – Qual é o impacto da redução dos preços do petróleo em cadeias de valor não ligadas ao óleo?”.

O UBS estima que a cada US$ 10 de queda do preço do barril do petróleo, a economia global ganha um impulso de 0,2 ponto percentual. A queda estimada para a inflação mundial é de 0,6 ponto percentual. Nos Estados Unidos, que são um caso particular por causa da produção de shale oil (óleo não convencional), a economia cresce 0,1 ponto percentual na mesma situação, dizem os analistas do UBS.

Entre as companhias que tendem a ter seus resultados impulsionados estão os fabricantes de peças de aeronaves antigas. Enquanto isso, fabricantes de modelos mais eficientes em combustível, como a Boeing e a Embraer, tendem a ser prejudicadas. Isso acontece, segundo o UBS, porque o preço mais baixo do petróleo significa custo mais baixo de combustível. Assim, espera-se uma redução da demanda por aeronaves mais modernas, que consomem menos combustível, já que as companhias aproveitam para usar modelos mais antigos, menos eficientes em consumo de petróleo.

Também são positivamente afetadas montadoras de veículos, principalmente de modelos de porte maior, que consomem mais combustível. Companhias com maior participação de picapes e SUVs no portfólio são as mais beneficiadas, diz o UBS, que aponta como exemplos a Ford e a GM.

Os setores mais ligados ao empresas de cruzeiros marítimos e o setor hoteleiro (o que em alguns casos inclui companhias de jogos e apostas), historicamente são registrados ganhos com a queda do petróleo. No caso dos cruzeiros, o combustível corresponde por aproximadamente 25% dos custos das empresas, diz o UBS.

Entram também no grupo das ganhadoras com a queda do petróleo as empresas de consumo de alimentos, bebidas, cigarros e itens para casa. A maior parte dos consumidores tende a gastar o dinheiro economizado com a redução das despesas com o combustível, dizem os analistas.

Entre as empresas favorecidas, o UBS cita o exemplo de redes de alimentação como o McDonald´s. A mesma lógica pode ser aplicada para empresas de comércio online. Em tecnologia e serviços, a redução de custos de transportes favorece tanto companhias de entrega como fabricantes, como a Apple.

As companhias aéreas também ganham. O combustível corresponde por aproximadamente um terço do custo operacional, considerando a despesa de assento disponível por milha voada. O UBS afirma que estatísticas de operadoras de turismo não sinalizam queda de preços de passagens aéreas, apesar da queda do petróleo, o significa maior diferença entre as receitas e os custos e, portanto, expectativa de melhores resultados.

Por outro lado, despontam entre as mais afetadas negativamente as companhias de engenharia, construção e máquinas e equipamentos que são expostas ao setor de petróleo. Essas empresas tendem a não receber pagamentos em dia ou terão pedidos cancelados pelas petroleiras, que estão reduzindo investimentos.

No setor de máquinas, o principal risco é a restrição de capital conforme o preço do petróleo cair mais, afirma o UBS. Empresas como Caterpillar, Manitowoc, Terex, além de locadoras de equipamentos e máquinas também são estão entre as mais expostas ao setor de óleo e gás. Por outro lado, companhias que produzem motores para caminhões, como a Cummins, podem ser beneficiadas.

As empresas químicas e petroquímicas também entram no grupo das prejudicadas. É o caso das companhias de resinas plásticas e outros produtos, cujos preços costumam acompanhar a cotação do petróleo. O UBS diz que as ações das grandes empresas globais dessas áreas já caíram nas últimas semanas e podem até ter alguma recuperação ao longo desse ano.

No caso das empresas de mineração e metais, o cenário atual do petróleo tende a ser neutro, segundo o banco. Por um lado, as despesas para produção de metais e seus produtos podem ficar mais baixas. Também pode ter um efeito positivo a aceleração da economia a partir da queda do petróleo, o que poderá impulsionar a demanda futura pelos metais.

Por outro lado, o fato de o preço do petróleo estar mais baixo por conta de uma desaceleração da demanda global por essa commodity é o indicativo do inverso. “Os preços mais baixos do petróleo são um fator importante de redução de custos, mas isso seria compensado pela fraca demanda por petróleo, que geralmente se traduz em um ponto negativo para os metais básicos”, afirma o UBS.

Entre as empresas de combustíveis e da mesma cadeia – obviamente as mais afetadas pela queda do petróleo -, o UBS diz que vão resistir melhor as que tiverem balanços mais fortes e maior liquidez. Essas terão mais capacidade de resistir a um longo período de volatilidade de preços. Em geral, o crescimento do setor será abalado por dificuldades de fluxo de caixa, alavancagem financeira e necessidade de custos de materiais.

As empresas de serviços de perfuração para exploração de óleo e gás também sofrem com redução de capital disponível para investimentos no setor. Entre elas, o UBS cita no mercado americano Apache, Magnum Hunter, Patterson-UTI, Nabors, Helmerich& Payne, Baker Hughes e Halliburton, sendo que a última já anunciou na última semana demissões nos EUA.

Na sexta-feira, o contrato do petróleo Brent para abril fechou em US$ 51,47 o barril, alta de 0,3% na semana e queda de 51,3% nos últimos 12 meses.

Fonte: Bloomberg, UBS e Valor Econômico