O megainvestidor Warren Buffett frequentemente elogia a parceria da Berkshire Hathaway com a empresa brasileira de private equity 3G Capital. Na assembleia anual de acionistas da Berkshire, no sábado, ele foi forçado a defendê-la.

Muitos acionistas da Berkshire queriam saber se os princípios de negócios da empresa eram compatíveis com a 3G, que se tornou conhecida por sua estratégia implacável de corte de custos, por eliminar milhares de empregos e colocar seus próprios executivos na cúpula das empresas que adquire. Um acionista chamou os cortes da 3G de “brutais” e perguntou se Buffett já não “busca um equilíbrio entre capitalismo e compaixão”.

Buffett apoiou os cortes de gordura adotado pela 3G, dizendo que ela comprou algumas empresas com “muito mais pessoas na folha de pagamentos que o necessário”. Demissões, disse ele, levaram essas empresas a ter um desempenho “extremamente bom”.

A relação cada vez mais estreita entre a Berkshire e a 3G está criando algumas dores de cabeça para Buffett, que há muito é conhecido como um proprietário benevolente de empresas, raramente interferindo no estilo de gestão ou pressionando por demissões maciças.

A diferença de estilos causou preocupação desde o início. Buffett costumava criticar o modelo de negócios das firmas de private equity no passado, o que levou muitos a questionar se o guru dos investimentos estaria mudando de opinião ao se unir à 3G.

Buffett não considera a 3G como uma firma de private equity pois ela prefere manter o controle das empresas que adquire no longo prazo em vez de comprá-las para vendê-las com lucro em poucos anos. A 3G difere ainda de firmas tradicionais de private equity porque ela não capta fundos de grandes investidores institucionais que procuram retornos. Ao contrário, a empresa investe o dinheiro de seus fundadores e de fundos captados numa pequena rede de famílias muito ricas e influentes.

As dúvidas sobre a parceria podem crescer à medida que Berkshire e 3G buscam estreitar laços. Buffett disse que gostaria de realizar mais negócios amigáveis com a 3G. Desde 2013, as duas empresas já se uniram em três grandes aquisições, incluindo o plano revelado em março de comprar a Kraft Foods Group. Esses negócios têm dado à 3G, uma ambiciosa empresa de raízes brasileiras, uma fonte de capital disponível para negócios e, ao mesmo tempo, dão a Buffett uma nova forma de elevar o poder da Berkshire de gerar lucro.

As respostas de Buffett às perguntas sobre a 3G no sábado revelam um aspecto do bilionário que muitos não percebem: ele apoia o corte de empregos quando ele é necessário para melhorar o desempenho. Buffett e seu sócio Charlie Munger fizeram uma referência a essa postura no manual do proprietário de ações da Berkshire, no qual escrevem que sua relutância em vender empresas, incluindo aquelas deficitárias, “prejudica nosso desempenho financeiro”.

Durante décadas, Buffett se concentrou na compra de empresas que já eram bem administradas e contavam com gestores que continuariam a tocar suas operações de forma eficiente, com pouca interferência. Isso deu à Berkshire a reputação de ser uma empresa onde o emprego é, em grande parte, preservado, incluindo o alto escalão.

Mas o tamanho gigantesco da Berkshire limita oportunidades de grandes negócios adicionais que se encaixem nos critérios de Buffett, e isso pode afetar os lucros.

Achar um sócio como a 3G, que administra aquisições conjuntas, resolveu o problema ao agregar alvos potenciais que a Berkshire talvez não pudesse comprar sozinha em função do trabalho necessário. Buffett também é amigo de Jorge Paulo Lemann, um dos fundadores da 3G e esteve na reunião anual da Berkshire no sábado. Um porta-voz da 3G não quis comentar.

Buffett disse que a estratégia da 3G funcionou na Tim Hortons, a rede de cafeterias canadense que recentemente divulgou uma melhora no desempenho. A rede foi comprada no ano passado por US$ 11 bilhões pela Burger King, da 3G, com ajuda financeira da Berkshire. A Berkshire se beneficiou ainda de melhores resultados na H.J. Heinz, empresa que comprou junto com a 3G por US$ 23 bilhões em 2013. O fabricante de ketchup cortou 4% de sua folha de pagamentos.

Fonte: Valor Econômico