Segunda maior empresa de shopping centers dos Estados Unidos, a General Growth Properties (GGP) negocia sua saída do capital da Aliansce, uma das principais empresas de shoppings do país. A fatia de 39,99% seria dividida entre duas companhias, a Rique Empreendimentos e a Canada Pension Plan Investment Board (CPPIB).

A Rique, de Renato Rique, um dos fundadores da Aliansce, analisa a compra de 12,41%, pertencentes ao fundo GGP Brazil III. Rique já tem 10,80% do capital. A CPPIB, sócia da Aliansce no Shopping Iguatemi Salvador, compraria 27,58% que pertencem à GGP Brazil I, segundo comunicado divulgado ontem. Se concluída, a venda deve superar R$ 1 bilhão, com base no preço de fechamento das ações ordinárias da Aliansce ontem.

Dessa forma, o grupo americano, com sócios como a Pershing Square, de Bill Ackman, um dos principais gestores americanos, pode deixar o país, já que a Aliansce é o único investimento da companhia no Brasil. A Aliansce também é a única operação internacional da GGP no mundo, que só tem ativos nos Estados Unidos.

A Aliansce foi criada por meio de uma associação entre Renato Rique e GGP em 2004, seis anos antes de abrir o capital, numa aproximação que partiu de Rique. As conversas para a saída da GGP estão em andamento, e a Aliansce informa que não há certezas de que o negócio será concluído. Mas há boas chances de a operação evoluir nas próximas semanas.

A GGP decidiu vender sua posição por razões estratégicas, que fazem parte de um plano de crescimento desenhado anos atrás, apurou o Valor com pessoas próximas à empresa. A GGP está mudando o foco e por isso decidiu rever a posição no país. Com cerca de 140 shoppings e US$ 20 bilhões em valor de mercado, a GGP optou por investir recursos em “ativos nobres” – shoppings de primeira linha, para classes de maior poder de renda, o que a empresa chama de “ativos de alta qualidade”.

Esse posicionamento começou a ganhar força na GGP depois da crise financeira de 2008, quando as perdas imobiliárias dispararam nos EUA e companhias do setor passaram a enxugar carteiras. Desde 2010, a GGP vendeu 70 empreendimentos que não eram o foco da operação.

O comando da GGP já dava pistas de que poderia vender fatias em algumas operações. Em conversas com analistas em novembro de 2012, Sandeep Mathrani, presidente do grupo, disse que poderia vender bens “‘non-core’ que não se encaixam nos planos de longo prazo” da empresa. “Talvez há um par de ativos que possamos vender. Nosso ponto ideal é cerca 120-125 shoppings”. A GGP tem 125 empreendimentos nos EUA e participação em 18 shoppings no Brasil, da carteira da Aliansce.

Apesar de o negócio no Brasil representar parcela tímida dos resultados da GGP, menos de 5% – e portanto, a possível venda da participação na Aliansce trazer recursos pouco relevantes ao caixa – a companhia entendeu que era preciso seguir essa orientação estratégica em todo o mundo. O portfólio de shoppings da Aliansce está focado nas classes B e C. De janeiro a março, a GGP somava ativos de US$ 26,9 bilhões e lucro operacional de US$ 531 milhões, alta de 5% sobre o ano anterior.

A operação de mudança no bloco de controle movimentará soma alta. A participação do grupo americano, correspondente a 39,99% das ações ordinárias da Aliansce, equivale a R$ 1,265 bilhão com base na cotação das ONs da Aliansce ontem. A Rique negocia a aquisição de 12,41%, ou seja, R$ 392,53 milhões em ONs, segundo cotação de ontem. A CPPIB analisa a compra de 27,58%, que corresponde a R$ 872,46 milhões. A operação deve se balizar pelo preço do papel no mercado.

Ontem, as ações da Aliansce subiram 1,22% (o Ibovespa teve alta de 1,15%) e da GGP mostraram estabilidade na bolsa de Nova York. A saída da GGP poderia ter afetado a visão do mercado sobre a Aliansce, mas a decisão de Rique de comprar papéis da empresa mostra confiança dos acionistas no negócio, segundo avaliou um analista.

No passado, a Aliansce e a GGP foram alvo de rumores a respeito de uma possível saída dos americanos da empresa. Isso foi no auge da crise financeira em 2009, quando a GGP entrou com pedido de concordata. Na época, com quase o dobro de centros comerciais (cerca de 200), a GGP tinha dificuldades para refinanciar uma dívida de US$ 27 bilhões, num período de forte retração no consumo e da escassez de crédito. Mas apesar do mau momento externo, a parceria com a Aliansce se manteve.

Fonte: Valor Econômico