A repentina saída do presidente do Conselho da Volkswagen AG, Ferdinand Piech, deverá flexibilizar a administração da empresa, o que poderia ajudar a VW a finalmente começar a fabricar os carros que os americanos desejam comprar.

Os esforços da Volkswagen para dar poder aos gerentes regionais deverão ser agilizados após a renúncia de Piech, no sábado.

Isso poderia ajudar a fabricante alemã especialmente nos EUA, onde a VW foi a única fabricante de veículos de grande porte que não conseguiu aumentar suas vendas no ano passado devido à falta de SUVs e outros carros voltados ao gosto americano.

“A renúncia de Piech do Conselho de Supervisão, por mais doloroso que deva ser para ele, abre a porta para mais mudanças”, disse Arndt Ellinghorst, analista da Evercore ISI em Londres. “Nós acreditamos que Piech, por conta própria, percebeu que a VW precisava mudar”.

Ao concentrar as decisões sobre produtos na sede da empresa, em Wolfsburg, a VW teve dificuldades para se adaptar à mudança nos gostos. Essa falta de flexibilidade, salientada pelo fracasso para se tornar um grande player no mercado automotivo dos EUA, é um problema que pode piorar se a VW não se tornar mais ágil.

As fabricantes de veículos estão lutando para atender a demanda por veículos mais limpos e recursos de direção autônoma e ao mesmo tempo se preparam para a ameaça da possível chegada de estreantes como a Apple Inc.

Nesta segunda-feira, as ações da Volkswagen atingiram o maior aumento intradiário em mais de seis semanas, de 5,3 por cento para 245,5 euros em Frankfurt, avaliando a companhia em 115 bilhões de euros (US$ 125 bilhões).

Um líder

Piech deixou o cargo de presidente do Conselho após perder uma disputa de poder sobre o futuro do CEO Martin Winterkorn. Sua saída encerra um reinado que começou em 1993, quando Piech se tornou CEO antes de assumir o cargo de presidente do Conselho, em 2002.

Piech moldou sua abordagem para a tomada de decisões no estilo adotado por seu avô Ferdinand Porsche, um pioneiro da indústria automotiva que criou o Fusca e construiu o primeiro carro híbrido, há mais de um século.

“A ideia de uma equipe interna de destaque formada por cinco a dez pessoas, cuja colaboração em detalhe é liderada por apenas um indivíduo, não perdeu sua influência sobre mim em toda a minha vida”, escreveu Piech em sua autobiografia, em 2002.

Gosto local

No ano passado, a VW começou a responder às vendas ruins nos EUA, na América Latina, na Rússia e na Índia formando forças-tarefas para melhorar suas divisões regionais, disse o diretor financeiro Hans Dieter Poetsch a investidores, no mês passado, segundo uma apresentação publicada no site corporativo da empresa.

Como parte do processo, a VW irá “aumentar a regionalização de produtos, produção e componentes, assim como a pesquisa e o desenvolvimento”, para atender as variações das necessidades do cliente mais rapidamente.

Nos EUA, os gerentes locais fizeram pressão pública em 2011 por um SUV acessível com três fileiras de assentos para ampliar o apelo da VW entre os consumidores americanos.

A empresa alemã aprovou só no ano passado a introdução de um SUV médio, cuja produção será iniciada apenas no final de 2016. Enquanto isso, a VW continua perdendo participação de mercado.

É improvável que haja mudanças profundas pelo menos até que assuma uma nova administração. Mesmo com o desentendimento entre Winterkorn, 67, e Piech nas últimas semanas, os dois estiveram em sintonia durante décadas.

Sob a liderança de Piech, o valor de mercado da Volkswagen se multiplicou por 15 e a fabricante de veículos atualmente se aproxima da Toyota Motor Corp. em sua busca pelo primeiro lugar em vendas globais.

“É difícil ver Winterkorn como um personagem tipo Gorbachev, que subiu no partido e que só agora iniciará reformas”, disse Max Warburton, analista da Sanford C. Bernstein. “Mas o sucessor dele pode vir a fazer isso”.

Fonte: Exame