A decisão de Carlos Slim de encolher seu império de telecomunicações no México está levando alguns a perguntar quais são as intenções do bilionário para o dinheiro que captará com a venda de ativos.

A América Móvil principal empresa do grupo de Slim, anunciou recentemente que vai se livrar de alguns ativos para reduzir sua participação de mercado no México de cerca de 70% para menos de 50% e, assim, evitar medidas repressivas dos reguladores. Os recursos gerados no processo poderiam dar a Slim o cacife necessário para se expandir fora do país.

A TracFone, unidade da América Móvil que é a quinta maior operadora de celular dos Estados Unidos, oferece serviços pré-pagos sob sete marcas, incluindo a Straight Talk, vendida nas lojas do Wal-Mart Stores.

A TracFone continua crescendo através de aquisições de operadoras menores e poderia proporcionar a Slim uma marca e uma presença nos EUA caso ele decida se expandir no país. A empresa agora aluga espaço nas redes de grandes telefônicas, como AT&T e Sprint.

Alguns analistas questionam se ele poderia fazer uma oferta por uma operadora como a T-Mobile a quarta maior dos EUA, que se prepara para uma fusão com a Sprint, uma transação que deve enfrentar resistência por parte dos reguladores.

“Uma entrada mais significativa nos EUA com a aquisição [da T-Mobile] poderia ter sentido estratégico”, diz John Hodulik, analista do UBS. Ele estima que Slim possivelmente levante mais de US$ 15 bilhões com a venda dos ativos mexicanos. Esses recursos também poderiam ser canalizados para continuar a expansão dos negócios do empresário na Europa e no Brasil, onde a América Móvil é dona da Claro e da Embratel.

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A compra da T-Mobile talvez seja inviável dado o estágio avançado de suas negociações com o controlador da Sprint, o grupo japonês SoftBank. Mas uma outra opção de Slim seria engordar seu império no segmento de celulares pré-pagos, ao comprar outras operadoras que também alugam capacidade nas redes das grandes telefônicas. Ele poderia até adquirir os ativos que talvez sejam vendidos como uma exigência dos reguladores para aprovar a fusão entre a Sprint e a T-Mobile.

A América Móvil não quis comentar.

Slim, que aos 74 anos é uma das pessoas mais ricas do mundo, expandiu seu império de telecomunicações durante os últimos 15 anos pela América Latina e, mais recentemente, entrou em outros mercados. Ele está comprando uma fatia majoritária na Telekom Austria e já tem uma participação na operadora holandesa Royal KPN.

Durante anos, os bancos propuseram a ele alvos de aquisição nos EUA, incluindo a T-Mobile, Leap Wireless e MetroPCS, mas Slim não estava interessado, diz uma pessoa a par do assunto.

Quando discutiu sua entrada na Europa, dois anos atrás, a América Móvil afirmou que estudava ampliar seus investimentos nos EUA, mas não queria prejudicar o modelo da TracFone, que vinha funcionando bem sem precisar de muito capital. “É um mercado imenso que requer investimentos enormes”, disse na época o diretor-financeiro da América Móvil, Carlos Garcia Moreno.

Slim tem investido ativamente nos EUA, comprando participações em negócios variados, como a varejista de luxo Saks Inc., a fornecedora de materiais de escritório OfficeMax Inc. e o New York Times. Em 2000, ele assumiu o controle da varejista de eletrônicos CompUSA, que fechou cerca de oito anos depois.

Com a contínua consolidação do setor de telecomunicações dos EUA, não está claro se Slim gostaria de ter um papel maior no segmento. Ele sempre mostrou um faro aguçado para pechinchas no passado, tendo comprado várias empresas mexicanas nas difíceis décadas de 80 e 90. Outra questão é a relação próxima que Slim tem com a AT&T desde os anos 90, quando a Southwestern Bell Corp., predecessora da telefônica americana, uniu-se a Slim para comprar a Teléfonos de México, que estava sendo privatizada. A América Móvil surgiu como um desmembramento da Telmex.

O atual diretor-presidente da AT&T, Randall Stephenson, trabalhou para Slim no México, nos anos 90, e diz considerá-lo “um amigo muito querido”. Ao longo dos anos, as duas empresas frequentemente discutiram suas estratégias, segundo pessoas a par do assunto. Elas consideraram aquisições internacionais conjuntas várias vezes e não têm intenção de concorrer uma com a outra, dizem essas pessoas.

A AT&T, porém, vendeu em junho a fatia de 8% que tinha na América Móvil depois de ter fechado a compra da provedora de televisão via satélite DirecTV, que concorre com Slim no mercado de TV na América Latina.

Slim entrou discretamente no mercado de telefonia celular dos EUA no fim dos anos 90, primeiro através de uma aliança com a Sprint e, depois, em 1999, adquirindo uma fatia controladora na Topp Telecom Inc., empresa de celular pré-pago sediada em Miami, por US$ 57,5 milhões.

Mais tarde, a empresa adotou o nome TracFone e se tornou uma das pioneiras do segmento de pré-pagos ao levar seus telefones para lugares onde consumidores mais sensíveis a preço pudessem comprá-los, diz Rod Nakjavani, um dos fundadores da Simple Mobile, comprada pela TracFone em 2012. “Eles entraram nas mercearias e grandes supermercados e em cada canto que você possa imaginar”, diz.

A TracFone tem superado as rivais — o número de assinantes dela subiu 27% nos últimos dois anos —, em parte comprando outras empresas que vendem serviços pré-pagos em espaços alugados de grandes telefônicas. No fim de março, a TracFone tinha perto de 33% dos assinantes de pré-pago que usam redes de grandes telefônicas dos EUA, segundo o UBS, mas a receita mensal média por usuário foi de apenas US$ 21,58, menos da metade da obtida pela Verizon Wireless com seus clientes de pré-pago.

As margens da TracFone também não são robustas, devido aos preços baixos e ao alto custo do aluguel de capacidade nas redes. No México, a América Móvil teve margens operacionais em torno de 44% no segmento de celular em 2013, segundo documentos públicos. As margens da TracFone no período foram de 8%.

Isso poderia encorajar Slim a tentar se tornar dono de uma rede nos EUA.

“Se você não controla a rede, é difícil controlar seu destino”, diz Paul de Sa, que já foi funcionário da FCC, agência que regula o setor das telecomunicações nos EUA, e hoje é analista da Bernstein Research. “É um mercado duro de se estar”, acrescenta.

Fonte: The Wall Street Journal