Durante anos, as grandes petrolíferas gastaram mais dinheiro do que ganharam. Agora, com os preços do petróleo em queda de mais de 50% desde junho, atuar nesse setor está se tornando ainda mais arriscado.

O custo de explorar novos campos disparou ao longo dos últimos 10 anos, com investidores pressionando por maiores dividendos. O resultado: as empresas gastaram mais em custos de capital e para apaziguar investidores do que geraram fluxo de caixa.

Agora, empresas como Exxon Mobil Corp. , Royal Dutch Shell PLC e BP PLC precisam decidir se colocam em risco lucros futuros ao cortar projetos, se correm o risco de desagradar investidores reduzindo dividendos, ou se aumentam ainda mais seu endividamento na expectativa de que os preços do petróleo logo voltem a subir.

As grandes empresas têm indicado que não cortarão os pagamentos aos acionistas no curto prazo, mas investidores e analistas dizem que elas não conseguirão resistir aos preços baixos do petróleo por muito tempo.

“Não há dúvida que os dividendos estão sob séria ameaça”, diz Michele della Vigna, analista do Goldman Sachs Group Inc. Segundo ele, as petrolíferas terão que cortar os gastos de capital em 30% em três anos se o petróleo se estabilizar em torno de US$ 70 por barril, caso queiram preservar a distribuição de dividendos. O petróleo bruto do tipo Brent, referência mundial, voltou a cair ontem, em 0,4%, para US$ 50,96 o barril, na bolsa de futuros Ice Futures Europe, o menor nível desde abril de 2009. Na quarta-feira, ele chegou a ser negociado ao longo do dia abaixo de US$ 50 pela primeira vez em seis anos.

Mesmo quando o petróleo era negociado acima de US$ 100 por barril em anos recentes, as grandes petrolíferas precisavam fazer empréstimos frequentemente para cobrir suas despesas.

Uma análise do Citi Research de 12 das maiores petrolíferas não estatais do mundo conclui que os gastos acumulados por elas com pagamento de dividendos e investimentos de capital — excluindo certas aquisições — foram 24% maiores que seu fluxo de caixa em 2013. E as estimativas são similares para 2014.

A Shell, por exemplo, tinha US$ 40 bilhões em fluxo de caixa líquido em 2013. Mas, segundo o Citi, os gastos de capital e os pagamentos de dividendos da empresa superaram o fluxo de caixa em 36%. O fluxo de caixa da Exxon excedeu seus dividendos e gastos de capital em todos os anos entre 2008 e 2013, afirma o Citi, com exceção de 2009. Mas o Citi prevê que os gastos com dividentos e investimentos da companhia irão superar o fluxo de caixa em 22% em 2015.

A Exxon informou que divulgará seus planos de investimento para 2015 em março.

 

O diretor-presidente da Shell, Ben van Beurden, disse recentemente que os gastos de capital de 2014 seriam menores que os de 2013. Um porta-voz disse que a empresa tem capacidade de financiamento suficiente para manter os níveis dos dividendos e gastos de capital “por um período razoável de tempo”. O percentual da dívida em relação ao capital da empresa foi 13% em 2014, segundo o Citi. A petrolífera afirmou que tem capacidade para elevar esse valor para até 30%.

Os gastos com investimentos e dividendos do BG Group PLC superaram o fluxo de caixa em 47% em 2013, segundo o Citi, podendo ter alcançado 58% em 2014. Um porta-voz do BG disse que a empresa já concluiu grandes projetos responsáveis pelo “maior período de investimentos da história da companhia”.

Os investimentos e dividendos da Eni SpA superaram o fluxo de caixa em 59% em 2013, segundo o Citi, que estima que eles caíram para 18% em 2014. Uma porta-voz da Eni disse que a empresa passou a adotar, em meados do ano passado, um programa de cortes de custos.

Na BP, no ano passado, os dividendos somados aos investimentos foram 2% maiores que o fluxo de caixa, segundo estimativas do Citi. O banco espera que o percentual salte para 24% este ano. O diretor financeiro da petrolífera, Brian Gilvary, disse no ano passado que a “prioridade da empresa no setor financeiro será sempre os dividendos”.

Usar dívida para cobrir o pagamento de dividendos e investimentos não é necessariamente um problema, especialmente considerando as atuais taxas de juros baixas mundialmente. Essa foi a aposta de muitas empresas nos últimos anos, enquanto colocavam dinheiro em projetos gigantescos de exploração. Mesmo agora, o percentual da dívida das quatro maiores petrolíferas não estatais do mundo em relação ao seu capital está abaixo de 20%, o que os analistas dizem ser um nível saudável.

Mas embora a necessidade de financiamento nos últimos anos seja fruto da decisão de se investir pesadamente em crescimento, os empréstimos no curto prazo serão para recompor perdas de receita devido à queda dos preços do petróleo.

“É um problema de curto e médio prazo, então estamos reavaliando a posição de nossa carteira no setor”, diz Richard Champion, diretor de investimentos da Sanlam Private Investments, que até outubro tinha grandes investimentos na Shell e também na BP.

Ele espera que, se os preços do petróleo não se recuperaram nos próximos dois anos, as grandes empresas terão que cortar seus dividendos ou investir menos em novos projetos, colocando sua produção em perigo. “Esses caras estão atravessando um momento realmente difícil”, diz.

Fonte: The Wall Street Journal