Em um cenário de forte demanda pelo Fies, financiamento do governo federal que custeia a mensalidade da faculdade, uma nova modalidade de incentivo financeiro à educação atrai investidores. Trata-se de um investimento que envolve todo o percurso do aluno desde a formação acadêmica, o apoio psicológico e a orientação profissional até o custeio de alimentação, moradia e transporte.

No Brasil, a pioneira deste modelo, que também é novo no mundo, é uma empresa chamada Edukar. A letra k, de capital, foi propositadamente escolhida – não se trata de uma iniciativa filantrópica. A Edukar paga os custos do aluno e recebe como remuneração de 1,5% a 12% do salário mensal do beneficiado. O cálculo para se chegar ao percentual leva em consideração quatro elementos: o montante investido no estudante, o prazo de pagamento que varia de seis a 18 anos, a profissão escolhida e uma taxa de juros de 12% ao ano.

É possível negociar parcelas fixas, mas essa opção é considerada pouco interessante porque o beneficiado pode perder o emprego. Já na alternativa da remuneração variável, os pagamentos da dívida são suspensos em caso de desemprego.

“É um modelo sustentável em que todos ganham. Temos interesse em investir no aluno porque quanto mais qualificado ele for, maiores são as chances de conquistar um bom emprego e nosso retorno financeiro será proporcional”, diz Roberto Tesch, presidente da Edukar. Ele tem ao seu lado outros seis sócios, entre advogados e psicológos, além de um grupo de investidores-anjo.

Confiante nessa modalidade de investimento, a Edukar abre mão do seu retorno financeiro caso o beneficiado tenha salário inferior a R$ 2 mil. “Fizemos vários cálculos e estipulamos que com um curso de ensino superior é possível ter uma renda de pelo menos R$ 2 mil”, diz Tesch.

Um grupo de investidores-anjo fez um aporte de R$ 1 milhão em troca de 10% da Edukar. “Gostamos de negócios com potencial para mudar um mercado específico. Acreditamos que a Edukar está dentro desse perfil porque a ideia não é só pagar a mensalidade da faculdade e sim investir em uma boa qualificação”, diz Guilherme Assis, gestor do fundo Redwood, um dos investidores-anjo.

Na área da educação, um dos temas discutidos por especialistas com olhar mais abrangente é que a concessão de crédito para pagamento de mensalidades por si só não é suficiente para evitar a evasão de alunos das salas de aula ou melhorar a qualidade do ensino.

Não à toa, nos cursos técnicos do Pronatec, em que o governo concede bolsa de estudo integral, a desistência gira em torno de 40% – muitos alunos carentes que entram na faculdade com o Fies não conseguem acompanhar o conteúdo acadêmico de um curso de ensino superior. Na Edukar, diz Tesch, “há uma orientação vocacional, acompanhamento psicológico e apoio para colocação no mercado de trabalho. Esse trabalho se estende até cinco anos após a conclusão do curso”.

Economista formado pela FEA-USP, filho de pai sociólogo e mãe psicóloga, Tesch conta que após dez anos atuando no mercado financeiro sonhava em abrir uma empresa com um viés social, mas não queria montar uma ONG. “A filantropia sozinha não consegue ser muito transformadora porque limita-se a doações e não há tantos casos de Bill e Melinda Gates e Warren Buffet no mundo. Mas há muitas pessoas que podem investir em um projeto de educação, com retorno financeiro”, diz.

Fundada em 2012 com investimento total de R$ 1,2 milhão, a Edukar atende hoje a 18 alunos. A meta é aumentar para 500 estudantes até 2017. Para isso, o executivo está captando cerca de R$ 15 milhões junto a fundos de venture capital.

O perfil dos alunos da Edukar é bem variado, uma vez que o atendimento é moldado de acordo com a demanda do estudante. Há desde alunos carentes, sem verba própria nenhuma, até uma estudante com recursos, mas que precisava de apoio para pagar um semestre do mestrado na Columbia University, nos Estados Unidos.

Um caso em que a Edukar está investindo desde o início da carreira, com atendimento completo, é o do jovem Eduardo Magalhães. O rapaz de 23 anos acaba de ser aprovado no curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A jornada de Magalhães foi longa. O rapaz, que fez cinco anos de curso pré-vestibular, trabalhava o dia todo e ia para o cursinho à noite. Porém, no ano passado, sua vida mudou. Largou o emprego de atendente de telemarketing para se dedicar exclusivamente aos estudos. Os custos com estudos e alimentação, de R$ 900 por mês, foram pagos pela Edukar. As demais despesas como transporte e moradia eram pagas com o dinheiro que Magalhães recebia trabalhando como bartender aos sábados.

Além do investimento inicial, a Edukar pagará até o fim deste ano R$ 300 de alimentação e mais R$ 500 para o aluguel de um quarto em uma república no Rio.

Entusiasmado com as aulas que começaram na semana passada, o futuro arquiteto urbanista já traçou seus próximos passos. “Meu interesse é por direitos urbanos. Quero desenvolver um projeto capaz de melhorar as condições de moradia nas favelas, onde morei até os 18 anos. É uma forma de devolver à sociedade o meu aprendizado”, diz Magalhães.

Fonte: Valor Econômico