Com a conclusão, no começo do mês, da compra da Kraft Foods pela Heinz Holdings, Warren Buffett encerrou uma das maiores tacadas de sua longa carreira de investidor.

A Berkshire Hathaway, de Buffett, pagou US$ 4,25 bilhões por uma participação acionária de 50% na aquisição alavancada da Heinz, de US$ 23 bilhões, dois anos atrás, em parceria com a sócia brasileira 3G Capital. Depois, a Berkshire fez um segundo investimento com a 3G, de US$ 5 bilhões, quando a Kraft anunciou o acordo de fusão com a fabricante de ketchup em março. Agora, a Berkshire é dona de 25% da nova Kraft Heinz, uma fatia avaliada em cerca de US$ 25 bilhões, o que resultou em um ganho de quase US$ 16 bilhões. Trata-se de um lucro colossal em apenas dois anos. (A 3G teve um lucro semelhante.)

O resultado obtido com o negócio da Heinz não se compara a nada alcançado antes no segmento de de private equity. Ele também demostra como Buffett, que comemora este ano meio século à frente da Berkshire, continua com um vigor impressionante às vésperas de completar 85 anos de idade em agosto. A Berkshire é a menina dos olhos de Buffett e ela está melhor do nunca, apesar do desempenho morno da sua grande carteira de ações, dominada por quatro papéis: da American Express, Coca-Cola, IBM e Wells Fargo.

Wall Street não está dando muito crédito à Berkshire pelos ótimos resultados obtidos com a Heinz e a muitos outros de seus atributos, especialmente uma torrente de ganhos vindos de negócios diversificados como seguros, ferrovias, serviços públicos e manufatura. Os lucros operacionais podem chegar este ano a US$ 19 bilhões depois de impostos, 18% acima do obtido em 2014 e mais que o dobro do resultado de 2006. Mesmo assim, as ações classe A da Berkshire caíram 6% este ano, para US$ 213 mil, atrás do índice Standard & Poor 500, que ganhou 1%. As ações de classe B da empresa caíram de forma similar, para US$ 142.

Buffett continua à caça do que ele chama de “elefantes”, aquisições de US$ 35 bilhões ou mais, apesar de não ter fechado nenhum grande negócio além da Heinz em anos recentes. A empresa quer manter um caixa de pelo menos US$ 20 bilhões. O empresário não quis comentar para este artigo.

Historicamente, a Berkshire tem sido avaliada com base em seu valor contábil, embora Buffett costume se ater ao que chama de valor intrínseco da empresa. Mas o executivo não revela sua estimativa do valor intrínseco da Berkshire, dizendo aos investidores apenas que o valor contábil é “uma ferramenta grosseira, mas útil para se chegar ao número que realmente importa, o valor intrínseco do negócio”. Buffett tem afirmado que esse valor intrínseco “excede em muito” o valor contábil porque o valor atual de negócios importantes, incluindo a empresa ferroviária Burlington Northern e a seguradora Geico, é muito maior que aquele que aparece no balanço.

Em sua carta anual para os acionistas, Buffett endossou as ações da Berkshire no que foi provavelmente sua discussão mais franca de todos os tempos sobre a empresa e o que considera seus pontos fortes e incomparáveis. Ele prefaciou seus comentários oferecendo aos acionistas o mesmo conselho que daria a sua “família, caso eles me perguntassem sobre o futuro da Berkshire. Em primeiro lugar e definitivamente acima de tudo, acredito que a chance de perda de capital permanente para acionistas pacientes é tão baixa quanto a de investimentos feitos em uma só empresa. Isso porque é quase certo que o valor intrínseco do negócio por ação deve avançar ao longo do tempo”.

Então, por que a ação da Berkshire não tem uma cotação mais alta? Por duas razões. A primeira é a idade de Buffett. Mesmo com sua boa saúde, seria impressionante se ele ainda estivesse no comando da empresa quando chegar aos 90. É muito raro que uma pessoa de 90 anos, idade que ele terá em 2020, permaneça no comando de uma grande empresa de capital aberto.

Buffett é insubstituível. A combinação de seu talento como investidor e administrador é extraordinária. Ele é capaz de avaliar e comprar uma gama variada de ativos, incluindo ações, títulos de dívida e commodities. Ele também conquistou a lealdade e a confiança de investidores de longa data e de gestores das subsidiárias da Berkshire.

Além disso, algumas das oportunidades de investimento que a Berkshire teve no passado podem não estar disponíveis para seu sucessor —– incluindo a disposição de empresas de capital fechado de aceitar ser compradas pela Berkshire e o desejo de empresas de capital aberto de receber o aval de Buffett e o voto de confiança de um investimento da Berkshire. Sem Buffett, há dúvidas de que a General Electric ou o Goldman Sachs buscariam investimentos da Berkshire durante a crise financeira.

E muitos investidores temem que a empresa seja simplesmente grande demais para gerar retornos altos no futuro. A Berkshire precisará de negócios cada vez maiores para fazer a diferença, dizem analistas, e suas chances de comprar ativos são prejudicadas pelo fato de que ela não participa de leilões. Com Buffett à frente da Berkshire, é quase sempre uma oferta para pegar ou largar.

Outra preocupação é que a Berkshire, com suas mais de 80 subsidiárias, seja difícil de ser administrada depois de Buffett.

O vice-presidente veterano do conselho da Berkshire, Charlie Munger, tocou no tema em uma carta aos investidores que acompanhou o relatório anual da empresa. Ele escreveu que “a combinação de ímpeto e oportunidade apresentada agora é tão grande que é quase certo que a Berkshire seguirá sendo uma companhia acima do normal por muito tempo mesmo que 1) Buffett deixe [a empresa] amanhã, 2) seus sucessores sejam pessoas com habilidade apenas moderada e 3) a Berkshire nunca mais faça uma grande aquisição”.

“Haverá grandes desafios”, diz o analista Cliff Gallant, da Nomura. “Buffett é o maior presidente de empresa no mercado. Mas a Berkshire se trata de criação de valor e ele posicionou a companhia em negócios estáveis com vantagens competitivas para o futuro próximo.”

O modelo singular de conglomerado da Berkshire, no qual os lucros são reutilizados em novas aquisições, resulta em um círculo virtuoso. A empresa tornou-se algo muito maior do que o veículo de investimento de Buffett.

“A criação de valor está mais ligada ao sucesso das unidades operacionais do que aos investimentos da Berkshire”, diz Gallant. A carteira de ações representa cerca de 35% do valor de mercado da Berkshire, de US$ 350 bilhões, o quarto maior das bolsas americanas, atrás da Apple, Google e Microsoft.

Que Buffett tenha se concentrado nos últimos dez anos em comprar empresas inteiras em vez de ações é algo bom, porque houve uma clara erosão em sua habilidade de escolher ações. A carteira dele está cheia de ações que foram vencedoras há cerca de 10, 20 anos, mas que hoje já não são tão dominantes. Ele não se beneficiou do recente boom nos setores de tecnologia e saúde.

Das quatro maiores participações da Berkshire — American Express, Coca-Cola, IBM e Wells Fargo —, apenas o banco Wells Fargo teve desempenho melhor que o do índice S&P 500 nos últimos três e cinco anos. A participação na IBM, de US$ 13 bilhões, vale menos do que a Berkshire pagou por ela, a maior parte em 2011, e tem ficado atrás do desempenho do mercado. A Coca-Cola ainda está abaixo de seu pico de 1998. A Berkshire liquidou no ano passado uma participação antiga na Tesco, a rede de supermercados britânica, com prejuízo. Uma das razões que podem ter levado Buffett a manter algumas dessas participações antigas é sua aversão a pagar impostos sobre ganhos de capital.

A Berkshire tem obtido resultados melhores com uma série de aquisições, especialmente no caso da Burlington Northern Railroad, que provavelmente vale hoje US$ 70 bilhões, o dobro do que a Berkshire pagou por ela em 2009.

Em sua carta anual aos investidores, Buffett destacou que as “cinco potências” da empresa fora do mercado de seguros — Burlington Northern, Berkshire Hathaway Energy (a maior empresa de serviços públicos do grupo), Lubrizol (químicos), IMC (máquinas) e Marmon (manufatura) — tiveram um lucro recorde antes de impostos de US$ 12,4 bilhões no ano passado e que poderiam acrescentar outro US$ 1 bilhão em lucros em 2015.

E há também os formidáveis negócios da Berkshire no segmento de seguros, liderados pela Geico, a resseguradora Gen Re e outras resseguradoras especializadas. A Geico cresce rápido e já é a segunda maior seguradora de carros dos Estados Unidos. A operação de resseguros especializados, que há tempos oferece proteção contra catástrofes como terremotos e furacões, gerou milhões de dólares para a Berkshire nos últimos 30 anos.

Buffett ainda é o maior acionista da Berkshire, com uma participação de 19% avaliada em US$ 65 bilhões, mesmo depois de ter dado bilhões de dólares em ações para a Fundação Bill & Melinda Gates e outras fundações.

A liderança pós-Buffett já ganha forma. Dois gestores de investimento, Ted Weschler e Todd Combs, que agora supervisionam uma carteira de cerca de US$ 14 bilhões da Berkshire, provavelmente assumirão o controle total dos investimentos. O filho, Howard Buffett, será o presidente não executivo do conselho, e um gestor ainda deve ser escolhido como diretor-presidente.

A Berkshire dificilmente poderá replicar o desempenho anualizado de mais de 20% de sua carteira visto nos últimos 50 anos, mas o próximo meio século ainda deverá ser impressionante. Com seu poder de gerar amplos ganhos e seu balanço forte, é provável que ela continue sendo uma empresa acima da média, capaz de gerar bons resultados para os investidores no futuro próximo. Com ou sem Buffett.

Fonte: The Wall Street Journal